Até para pensar é preciso alguma coragem

Não pretendo que os outros pensem como eu, mas, tal como eu, que pensem. Para lá do medo, que foi assimilado por meio século de ditadura e pela incerteza que nunca deixou de nos perseguir, há constrangimentos sociais que o dilatam e o gravam no nosso código genético.

Em Portugal é tão odioso dizer bem de políticos como mal dos bombeiros. Os primeiros são eternamente corruptos, oportunistas, ladrões, imbecis, incompetentes e parasitas; os segundos são soldados da paz, abnegados, corajosos, honestos e prontos a dar a vida por quem deles precise.

Quanto a políticos estamos conversados. É verdade e são todos iguais. Ponto final. Não há sequer exceções, a não ser que ponham os interesses da Pátria acima do dos partidos, que governem, sem pensar nos partidos e, sobretudo, sem os permitir. Por isso falemos de bombeiros.

Há dias surgiu um tímido relatório que apontava a deficiente formação como causa das mortes de bombeiros e a baixa eficiência do esforço no combate aos fogos. Felizmente que o insensato autor do relatório não arriscou divulgar as contas do custo/benefício das atividades que, tal como a religião, não podem ser objeto de escrutínio.

Sabemos que a distribuição dos bombeiros, pelo território nacional, é a adequada, que não há comandantes com interesses em empresas fornecedoras, que a preparação física e técnica dos soldados da paz é excelente e que não há melhorias a fazer. Nem reparos.

É falso que o comandante dos bombeiros de Lamego que ofereceu viagens de recreio no helicóptero de combate aos incêndios, imediatamente suspenso, com vista à demissão, e que, passado um mês de greve dos bombeiros do seu quartel, tivesse sido reconduzido, sem processo disciplinar, e o MAI tivesse metido a viola no saco. Era só o que faltava, punir um comandante de bombeiros.

É falso que não haja transparência nas contas, no caso de as haver, e que as viagens das ambulâncias aos hospitais sejam multiplicadas pelo número de doentes que transportam ou que alguma gota de combustível de um autotanque acabe numa viatura privada.

O país é ingrato e as pessoas, tão lestas a acusar sem provas, impedem os testemunhos e não prescindem dos julgamentos.  

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