Eu quero um carro para cada contribuinte

Em 2014, a inclusão do n.º de contribuinte nas faturas permitirá a qualquer consumidor final habilitar-se a ganhar um carro por semana. O sorteio será feito pela administração fiscal, sendo elegíveis todas as compras e não apenas faturas dos restaurantes, oficinas e salões de beleza.

Quanto mais faturas obtiver maior é a probabilidade de êxito. Isto não é um governo, é um grupo de crupiês que fizeram do país um casino e dos cidadãos jogadores da bisca lambida. A libertinagem de quem se permite explorar o casino merece que os jogadores, sem aumento de despesa, aumentem as probabilidades.

Espero que os leitores me acompanhem na estratégia que já delineei, ainda que reduza as minhas probabilidades com a concorrência. Não sou invejoso.

Comecemos pelos supermercados. Enquanto não venderem o melão à fatia, o azeite ao decilitro, o arroz ao grama e as azeitonas, pevides e pinhões à unidade, podemos, desde já, exigir 24 faturas por duas dúzias de ovos, 20 por igual número de iogurtes, 50 por outras tantas peças de fruta e assim sucessivamente. Quando for atestar o automóvel, vou meter meio litro de combustível de cada vez até que o empregado se aborreça ou perfaça 120 faturas.

A imaginação é o limite. Perante um Governo tolo, pode valer-nos a imaginação para lutar contra a loucura.  

Comentários

e-pá! disse…
As ‘tômbolas das Finanças’ são deveras caricatas.
Perante um País na situação de uma dramática asfixia fiscal delinear políticas de incentivos para ‘promover’ a colecta só pode ser uma brincadeira (de mau gosto).
O grande incentivo para os cidadãos cumprirem com o dever cívico como contribuintes seria os mesmos perceberem a razão (e as consequências) de um ‘enorme’ aumento da carga fiscal. Tarefa difícil para este Governo que para justificar (mais) este dislate nem consegue invocar a troika ou o memorando de ‘entendimento’. Tentar ocultar um tão evidente desvio de ‘ajustamento’, com o estímulo de conseguir mais receitas tributárias mostra quão longe vai o desespero. Na realidade, o que se está a passar é mais uma transferência dos rendimentos (do trabalho) das famílias para o sistema financeiro que manipulando um conceito de equilíbrio orçamental se entretêm com a prossecução e a intensificação dos confiscos.
Apesar da nossa cultura ‘sulista’ e ‘mediterrânica’ ninguém negará a obrigação de pagar impostos. Desde que exista a noção da justeza, proporcionalidade e equidade. Facto que não é, em particular neste momento, perceptível na sociedade portuguesa. As queixas à volta de uma pesada (insuportável) carga fiscal são transversais entre os portugueses. Para ultrapassar esta situação – e estimular o cumprimentos dos deveres fiscais - seria prioritário adequar os impostos aos rendimentos disponíveis. Conferir-lhe o sentido de justiça. Mas todos percebemos que a eficácia na cobrança não passa pela transformação do Ministério das Finanças numa 'quermesse' que semanalmente erguerá arraiais.
Segundo foi noticiado pensa-se recolher com os incentivos dos sorteios semanais (uma espécie de ‘rifas’) cerca de 800 M€ (em tempo não definido). Vamos supor que apesar do grotesco da situação o objectivo é alcançado. Porque não anunciar como prémio a ‘recalibração’ dos escalões do IRS de acordo com os resultados?
Ou o pretendido é colectar mais sem aliviar o garrote?
Um bom post!

Preciso de ajuda e de diversidade.
Manuel Galvão disse…
No país da Europa que mais aposta na raspadinha e no euromilhões (por cabeça) é fácil prever que, após esta medida, as pessoas vão começar a olhar com outros olhos para aqueles papelinhos que lhes dão nos restaurantes e cafés...

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