Mensagens de Ano Novo e anatomia do regime

O PR e o PM, fiéis à tradição como o Natal às rabanadas, não poupam a Pátria às suas mensagens de Ano Novo, repetindo lugares comuns que podiam trocar entre si, em vez de os debitarem ao País.

Parecem dois generais de “A Guerra Santa”, de Sttau Monteiro, de tal modo parecidos que, depois de presos pelo exército inimigo, acabam a comandá-los, por ninguém notar que o preso não era o que perderam. Também as mensagens podiam ter sido trocadas e ninguém distinguiria o autor.

Cavaco e Passos Coelho não são dois órgãos diferentes do regime democrático. Um não é o coração e outro o fígado, são ambos rins de um corpo doente a necessitar de diálise.

Cavaco, a apelar ao diálogo, parece o polícia bom a aconselhar o entendimento ao casal, em que o agredido está em coma e o agressor satisfeito. Esqueceu depressa a preciosa ajuda a Passos Coelho para derrubar o Governo, quando, já em plena crise internacional, condenou a austeridade do PS por ultrapassar o “limite dos sacrifícios dos portugueses”.

Em 2012, talvez por rudimentar conhecimento da CRP que jurou, promulgou o OE que suprimia os subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos e pensionistas, sem o submeter ao escrutínio do TC que, ampliando-lhe o descrédito, havia de chumbá-lo.

O OE-2014, já ferido com um chumbo unânime, quanto ao corte das pensões do sector público, pelo TC, foi promulgado no último dia do prazo pelo PR que mandou apreciar as pensões, em que era lesado, e se furta agora ao envio para a fiscalização sucessiva do que devia ter pedido a preventiva.

Enquanto mantém um categórico silêncio sobre a burla colossal do BPN, à semelhança do que fez com os abusos da Madeira e com o custo dos juros da dívida pela demissão irrevogável de Paulo Portas, o PR cauciona as aventuras do seu Governo no desafio às decisões do TC, enquanto exerce pressão sobre o PS para se suicidar, salvando-o.

Ao fazer suas as ameaças do Governo, ou vice-versa, se Cavaco não pede a fiscalização sucessiva do OE-2014, o País fica a saber que, por ele, suspende-se a Constituição.

Portugal é um país doente a que sobra o esqueleto de oito séculos e meio. Os órgãos (da soberania) precisam de ser mergulhados em formol. Urgentemente.  

Comentários

e-pá! disse…
Politicamente a mistificação continua. São as naturais 'aberrações' da anatomia do regime que se confunde com a preversão do poder.
O espúrio e esquematicamente gizado 'Plano B', face ao chumbo da convergência de pensões, foi ontem pomposamente apresentado como 'não aumentando os impostos'.
Incide, de facto, sobre o acréscimo ('calibração') da 'contribuição extraordinária' como se este acrescido esforço (contributivo) fosse qualquer coisa de imaterial...
Estamos no núcleo de uma despudorada mistificação semântica e 'entregues à bicharada'!

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