Glória a S. Josemaria Escrivá de Balaguer

Em 2002, João Paulo II, emigrante polaco residente no Vaticano, solteiro, de 82 anos de idade, papa de profissão e estado civil, cumpria a tarefa de criar bispos e cardeais e tinha a obsessão de fabricar beatos e santos. Pelava-se por milagres e honrava os autores com a elevação à santidade, sem prejuízo da fixação em Maria e a adoração por virgens que a idade e o múnus avivaram.

Mas os santos da igreja católica sugerem empregados acomodados. Fazem um milagre para chegarem a beatos, outro para serem promovidos ao posto seguinte e abandonam o ramo.

Quando são candidatos, praticam a intercessão que lhes rogam mas desistem da vocação milagreira logo que alcançam a santidade. Quando se julgavam esgotadas as vagas, João Paulo II rubricou alvarás de santo a largas centenas, criados em nítida concorrência com os anteriores. Alguns destes fecharam a porta, que é como quem diz, foram apeados das peanhas onde enegreciam com o fumo das velas, se enchiam de fungos com a humidade ou se deixavam corroer pelo caruncho.

Com séculos de pequenos e honestos milagres, habituados à pedinchice autóctone e às lamúrias, quase sempre ao serviço de modestas comunidades que atendiam nos limites do razoável, perderam a aura e a devoção, submersos no tropel de novos e afidalgados ícones com vocação mediática. Migraram para as sacristias, acumulando pó a um canto, a delir a pintura e o préstimo, a desgastar as vestes e o respeito, em santa resignação.

Na religião há uma tendência para o sector terciário. Arrotear a fé e pescar almas, são tarefas pouco gratificantes. Transacionar bulas para engolir carne à sexta-feira, vender indulgências, trocar santinhos, comercializar bênçãos, era negócio do passado. Então o que passou a dar foi o lucrativo setor milagreiro em franca ascensão. João Paulo II promoveu também jubileus, um sucesso garantido para escoar imagens do promotor e providenciar a divulgação dos promovidos.

Quanto custará hoje um dente de S. Josemaria, com certificado de origem? Há de valer uma fortuna, a avaliar pelo êxtase que o primeiro a ser exibido provocou aos peregrinos durante as exéquias de canonização. O mercado já devia estar sortido de relíquias, nada restando do novel taumaturgo para exumar.

Pudessem os piedosos colecionadores ter adivinhado o destino promissor post mortem desse servo de Deus e ter-lhe-iam recolhido em vida duas dezenas de unhas e trinta e dois dentes. E a perda irreparável da primeira dentição?! Quem sabe se a premonição materna não terá acautelado o primeiro incisivo transformando um desvelo num tesouro, através deste estranho processo alquímico – a canonização –, segredo transmitido aos sucessores de Pedro e usado em doses industriais pelos últimos pontífices?!.

Pudesse Teodorico Raposo ter deposto no regaço de D. Patrocínio uma relíquia de S. Josemaria, que nem sobrinho, nem tia, nem Eça sabiam que viria a existir, e a devota senhora ter-lhe-ia perdoado as relaxações a que o sangue inflamado do tartufo o induzia, embevecida pelos eflúvios celestes que dimanam da raiz do canino de um santo assim!
Tivesse a premonição dos membros do Opus Dei adivinhado a santidade do fundador, que grossos cabedais e a longevidade papal lograram, e teriam armazenado farto recheio de numerosos têxteis tingidos por flagelações ou impregnados de outros fluidos.

A onda de devassidão do clero amargurou o papa – que fez do celibato dogma e da castidade virtude obrigatória – sem que a providência o tenha poupado à divulgação de pedófilos que exornam as dioceses da Igreja romana, apesar do cuidado em escondê-los.

E um padre que não respeita uma criança não pouparia um anjo.

É, pois, necessário que floresçam santos como S. Josemaria cujas relíquias hão de servir de benzina para desencardir a alma dos que sucumbem às tentações da carne.

Glória a S. Josemaria Escrivá de Balaguer nas Alturas e o poder na Terra ao Opus Dei.

Apostila – Depois de canonizado, em 6 de outubro de 2002, S. Josemaria abandonou o ramo dos milagres e até hoje, mais de onze anos decorridos, não obrou novo prodígio.

Comentários

e-pá! disse…
Boa ideia!

Os 'santos' (todos) deveriam ser submetidos a um processo de avaliação contínua e as suas
'competências' submetidas a rigorosos critérios de revalidação das idoneidades (iniciais ou iniciáticas) através de recertificações periódicas.

A ideia que fica é, como por exemplo se verifica com alguns catedráticos, uma vez alcançado o 'título' deixam-se dormir à sombra da bananeira.
Se fosse seguida esta via de controlo, das duas uma:
- ou já estaríamos livres de um conjunto de 'santidades preguiçosas'
- ou este Mundo seria um autêntico 'festival milagreiro'...

Duas situações divergentes, mas ambas ‘idílicas’...

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