O regresso do salazarismo através do CDS

Com exceção do jovem mullah Miguel Pires da Silva, não vou falar de solípedes à solta, equídeos sem bridão, asnos sem cabresto e outros espécimes zoológicos que circulam nas madraças juvenis dos partidos do poder, à espera de crescerem.

Vou falar do 25.º Congresso do CDS e de cinco secretários de Estado que assumiram aí a matriz salazarista que Feitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa e Basílio Horta se esforçaram ingloriamente por erradicar.

A redução da escolaridade obrigatória, que Salazar resumiu a quatro anos para rapazes e a três para meninas, medida que ajudou à salvação das almas e à produção de criadas de servir, volta agora a ser preconizada. Podíamos chegar ao ponto em que o filho de um pedreiro podia ser colega do de um banqueiro. Onde chegaríamos? !

O presidente da Mocidade Portuguesa do CDS, também conhecida pelo pseudónimo de Juventude Popular, Miguel Pires da Silva, não tem dúvidas e pede a redução do 12.º ano para o 9.º “porque é um erro”, erro que pode ser melhor corrigido se reduzirem mais três anos de escolaridade no próximo congresso.

Os cinco secretários de Estado, da melhor cepa salazarista, usaram um argumento que não ocorreu ao troglodita de Santa Comba Dão: “a liberdade de aprender” é um “direito fundamental de cada pessoa” [sic]. É a liberdade à moda do CDS, a ideologia da sargeta demo-cristã: a instrução e as vacinas (?) não são obrigação, são um ato de liberdade que cabe ao Estado respeitar. O analfabetismo deve ser um direito, em nome da liberdade.

Os 5 secretários de Estado garantem que os agentes educativos estão «legitimamente preocupados com o impacto que o alargamento da escolaridade obrigatória» possa ter no abandono escolar e na empregabilidade. É óbvio que o abandono escolar só acontece se há escola e apenas com quem a frequenta. Quanto à empregabilidade sabe-se que não é verdade, mas o CDS tem pela verdade um irrevogável desprezo.

A Mocidade Portuguesa do CDS produz nas madraças do partido a ideologia necessária ao retrocesso que preconiza. A possibilidade dos filhos pobres chegarem à Universidade é um luxo intolerável, um terramoto classista, um perigo para a fé e a tradição que o 25 de Abril interrompeu. É tempo de esquecer a data e julgar os implicados que restam.

O CDS, defensor da moral e dos bons costumes, acabará a plagiar, na apoteose do 25.º Congresso, o general  Millan Astray: «Abaixo a inteligência! Viva a morte!», sem que um Unamuno apareça a zurzir os secretários de Estado mutilados do corpo e do espírito, ao nível do Governo a que pertencem.

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