Ontem, na habitual crónica no Jornal Público, Vasco Pulido Valente levanta a ponta do véu sobre o sistema financeiro doméstico e a história paroquial da 'nossa crise'. Claro que existe uma história paralela, de âmbito europeu ou até mundial, de contornos mais difíceis de delinear e provavelmente ainda mais tenebrosa.
Mas o 'caso do Grupo Espirito Santo', onde a procissão ainda vai no adro, é bem revelador da monstruosidade de uma concepção ardilosamente 'vendida' aos portugueses de que teriam vivido acima das suas possibilidades e que justificou todas as transferências monetárias dos cidadãos para o sistema financeiro (nacional e estrangeiro). Esta aleivosia (do viver acima das possibilidades) foi o guião de uma intervenção externa tão entusiasticamente abraçada por este Governo e que nos conduziu a um brutal empobrecimento e - isso sim - ao 'resgate' dos sistemas bancários (nacionais e europeus).
Por cada nova declaração sobre a solidez do BES cresce a certeza de que a intervenção estatal - com todo o cortejo de terríficas consequências - está a caminho. Resta saber se existe alguém que esteja disposto a engolir a mesma poção, tranquila e sossegadamente.
Antes das 11 horas da manhã, uma numerosa comitiva de polícias, militares da GNR, e alguns outros do Exército, tomaram posições em frente à Igreja de Santa Cruz. Bem ataviados esperavam a hora de deixarem a posição de pé e mergulharem de joelhos no interior do templo do mosteiro beneditino cuja reconstrução e redecoração por D. Manuel lhe deu uma incomparável beleza. Não era a beleza arquitetónica que os movia, era a organização preparada de um golpe de fé definido pelo calendário litúrgico da Igreja católica e decidido pelas hierarquias policiais e castrenses. Não foi uma homenagem a Marte que já foi o deus da guerra, foi um ato pio ao deus católico que também aprecia a exibição de uniformes e a devoção policial. No salazarismo, durante a guerra colonial, quando as pátrias dos outros eram também nossas, não havia batalhão que não levasse padre. Podia lá morrer-se sem um último sacramento!? Éramos o país onde os alimentos podiam chegar estragados, mas a alma teria de seguir lim...
Li no excelente blogue De Rerum Natura , num post de Carlos Fiolhais , o seguinte: «De facto, o candidato a rei é autor de um opúsculo laudatório do Beato Nuno, onde se pode ler esta pérola: “Q uando passava de Tomar a caminho de Aljubarrota, a 13 de Agosto de 1385, D. Nuno foi atraído a Cova da Iria, onde, na companhia dos seus cavaleiros, viu os cavalos do exército ajoelhar, no mesmo local onde, 532 anos mais tarde, durante as conhecidas Aparições Marianas, Deus operou o Milagre do Sol» (“D. Nuno de Santa Maria - O Santo” , ACD Editores, 2005).»
Fiquei maravilhado com o que li e, sobretudo, por saber que o Sr. Duarte Pio escreve.
O Sr. Duarte Pio, suíço alemão, da família Bourbon, imigrante nacionalizado português pela conivência de Salazar e pelo cumprimento do Serviço Militar Obrigatório, podia emprestar a imagem às revistas do coração mas precaver-se contra a ideia de publicar opúsculos.
Claro que não é necessário saber falar para escrever e, muito menos, ...
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Mas o 'caso do Grupo Espirito Santo', onde a procissão ainda vai no adro, é bem revelador da monstruosidade de uma concepção ardilosamente 'vendida' aos portugueses de que teriam vivido acima das suas possibilidades e que justificou todas as transferências monetárias dos cidadãos para o sistema financeiro (nacional e estrangeiro). Esta aleivosia (do viver acima das possibilidades) foi o guião de uma intervenção externa tão entusiasticamente abraçada por este Governo e que nos conduziu a um brutal empobrecimento e - isso sim - ao 'resgate' dos sistemas bancários (nacionais e europeus).
Por cada nova declaração sobre a solidez do BES cresce a certeza de que a intervenção estatal - com todo o cortejo de terríficas consequências - está a caminho. Resta saber se existe alguém que esteja disposto a engolir a mesma poção, tranquila e sossegadamente.