Políticos, bombeiros e lugares-comuns

Em Portugal não se deve dizer bem de nenhum político nem mal de qualquer bombeiro.

Os políticos são todos maus, corruptos, venais, incapazes e oportunistas, seja qual for o partido. O axioma herdado da propaganda salazarista, contra os políticos, exceto os do partido único, foi refinando com a incultura que não superou as discussões clubistas dos jogos de futebol.

Ficou-nos do salazarismo a nódoa que turva o juízo, a aversão aos partidos e políticos e a tudo o que não fosse único, o chefe, a União Nacional, o deus, o diabo e o raio que os partisse. Deus, Pátria e Família, o primeiro era o do Papa, a segunda incluía as de outros povos e a última submetia a mulher à prepotência e aos humores do marido.

Agrava-se agora, em véspera de eleições, a cruzada contra os políticos da oposição, hoje como no fascismo, a campanha onde se nota a arrogância dos ignaros, o moralismo dos imbecis e a autodefesa de quem chama primeiro aos outros o que merece, na convicção farisaica de que no enxovalho alheio branqueia a honra própria.

Mas falemos de bombeiros onde apenas as palavras, abnegação, generosidade, altruísmo    coragem e sinónimos, são permitidas. Não há, em Portugal, o escrutínio das corporações de bombeiros, das mortes por impreparação para executar missões, do amadorismo com que se combatem incêndios ou se socorrem vítimas, da afetação de recursos sem que a relação custo/benefício seja ponderada.

Os bombeiros e os inúmeros quartéis que nasceram à sombra das autarquias, em linha com a anacrónica e pesada divisão administrativa, não são examinados. Quem fiscaliza os “soldados da paz” e quem os comanda? Quem investiga a propriedade das empresas abastecedoras de bens, a adjudicação de produtos que apoiam a indústria dos incêndios, mais florescente e luminosa do que a da floresta?

As corporações de bombeiros não podem gozar de foro especial em democracia.

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