A displicência partidária ou a cumplicidade do governo


Li na comunicação social* que o Fisco não vigiou a transferência de 10 mil milhões de euros para offshores entre 2011 e 2014. Surpreende tanta incúria num Governo de um economista do gabarito de Passos Coelho.

Foram apenas 10 mil milhões de euros que se esvaíram embrulhados em vinte operações.

Em 2010, no governo de Sócrates, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Sérgio Vasques, ordenou a publicação obrigatória das estatísticas sobre transferências para os “territórios com tributação privilegiada”.

A Direita, agora tão empenhado na devassa dos emails entre o ministro das Finanças e um efémero banqueiro da CGD, enraivecido por ser obrigado a entregar a declaração de bens, descurou a obrigação imposta pelo anterior Governo, e consentiu a Paulo Núncio, no governo PSD/CDS, suspender a obrigação imposta pelo antecessor na pasta.

Só um horror patológico a tudo o que o anterior governo tivesse iniciado pôde justificar que tais transferências, comunicadas pelos bancos, não fossem controladas pelo fisco e ficassem omissas nas estatísticas.

O Palácio de Belém, alheio à transparência das suas próprias contas, depois de frustrada a intriga das escutas, enquanto ruminava a vingança, venceu o trauma das suspeitas das quintas-feiras. Foi pena. Podia ter desconfiado do ex-consultor da Tecnoforma.

Fonte: *RTP 21 Fev, 2017, 10:33 / atualizado em 21 Fev, 2017, 11:32 | Economia

Nota: os factos constam da fonte referida.

Comentários

e-pá! disse…
Bem.
Esperemos que os trânsfugas para os paraísos fiscais venham à luz do dia. Ou então somos levados a pensar que a tão falada 'lista VIP' que existiu na Autoridade Tributária poderá ser muito mais vasta do que a divulgada na altura.

O ex-secretário de Estado Paulo Núncio deverá esclarecer isso na projetada audição na AR. Aliás, a não publicação das estatísticas sobre transferências para os offshores tem, obrigatoriamente, um responsável político.

Se não for Paulo Núncio - e as indagações a responsáveis financeiros acabam sempre em vazios - teremos de recuar um pouco mais e indagar Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque (os verdadeiros responsáveis políticos [repito políticos] pela área a ser inquirida e investigada).

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