Cavaco Silva, paladino da liberdade

Um homem sem passado conhecido, exatamente por não ser conhecido, pôde chegar a primeiro-ministro de um país.

Bastou-lhe parecer sério, manifestar enfado com a política, colocar a família acima de si próprio e Deus acima de tudo. A Revolução de Abril não conseguiu mudar radicalmente o paradigma salazarista. Deus, Pátria e Família colaram-se no subconsciente coletivo e permitiram que o regime democrático, à falta de um defunto, elegesse um avatar.
 
Ao fim de uma década o país fartou-se dele e o homem tratou da vida, mas a amnésia do povo, que esquece o passado, deu-lhe o benefício da dúvida por mais uma década.

Resistiu à intriga, que correu mal, contra o PM, às explicações exigíveis sobre negócios privados, às ligações com vizinhos de um condomínio de luxo e acabou a estrebuchar contra a formação de um governo que a AR exigia e a Constituição lhe impunha.

Este homem pôde ser tudo em democracia, sem nunca a estimar; representar o País, sem o merecer; presidir ao 10 de Junho, sem ler Os Lusíadas; ser o PR dos portugueses, sem saber o plural de cidadão; jurar respeitar e fazer respeitar a Constituição, sem a prezar; e chefiar a República, para lhe apagar a data no calendário dos feriados.

Para cúmulo do opróbrio, num intervalo da defunção política, no rescaldo das eleições autárquicas, cujos resultados o contrariaram, numa manifestação de indigência cívica e no pior e mais degradante exemplo de cidadania, declarou:

“Acontece que não votei nas autárquicas. Estava num casamento".

O ex-PM e ex-PR e a sua inseparável prótese conjugal preferiram a boda e a missa ao cumprimento de um dever cívico e ao exemplo a que eram obrigados.

Ditosa Pátria!

Comentários

José Barroso disse…
Um texto que faz um retrato do indivíduo, que nem uma máquina fotográfica! Apesar de se dizer que "uma imagem - a fotograifa dele - vale mais que mil palavras". De facto, a fotografia não conseguiria descrever aquilo que não se vê: o carácter!
Indivíduo que pertenceu à PIDE como informador, procurou os benefícios da ditadura salazarista. Nunca tendo sido incomodado, como outros o foram, na carreira profissional ou na família. Porque, já se vê, a sua vidinha era mais importante! Um "homem de missão" para o país, um político que se julga uma pessoa a quem o país muito deve!...
Uma vez em democracia, adaptou-se, manobrou e ascendeu aos mais altos cargos públicos e por mais tempo. Creio que foram dez anos como PM e 10 anos como PR. Pelo menos. Um "homenzinho" (Batista Bastos), que desdenhava da política. Ele que dizia que era preciso (os outros) "nascerem duas vezes para serem mais sérios que ele"! Mas sacou ao BPN dividendos de mais de 150 mil euros em ações sem risco (porque não estavam na Bolsa), vendidas pelo seu amiguinho Oliveira e Costa.
Enigmático e sinistro (como o seu outro amiguinho Duarte Lima), arrogante, inculto. Não sabia quantos cantos tinham "Os Lusíadas". Estúpido ao ponto de dizer que "nunca se enganava e raras vezes tinha dúvidas", contrariando assim um aforismo sábio de séculos: "Errare humanum est!".
Aproveito a deixa do autor do fexto e cito (de cor) o nosso maior: "Ditosa Pátria que tais filhos tem".

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