O último pio das aves que já não levantam voo

Quando Cavaco Silva se deslocou à madrassa partidária, apodada de Universidade de Verão do PSD, ainda piou. Levava consigo a raiva da ave ferida, no seu último voo de auxílio à ave derrotada. Foi o pio que excitou a capoeira, sem eco no País que despreza os Roteiros e, há muito, tinha dispensado o autor e o cúmplice.

Hoje, o resultado das eleições autárquicas, mais do que a derrota do PSD, constituíram a vingança dos eleitores contra quem elegeram no passado. Ignoravam ser mal-amados e que a sua falta era semelhante à da viola nos enterros.

Foram hoje humilhados e enterrados, por mais que esbracejem, por mais que vociferem, confundindo com ingratidão o desprezo e o castigo que as urnas lhes infligiram.

A exegese dos números fica por conta dos comentadores avençados que vão suavizar o naufrágio e imolar Passos Coelho para salvarem o partido que, em Lisboa e Porto, foi o terceiro, num aviltamento sem precedentes, pelo rancor e arrependimento dos eleitores.

O PSD até pode subir o número de mandatos e de Câmaras, dada a baixa fasquia de que partiu, mas o seu líder fica a esvair-se.

O Diabo, a quem dirigiam preces, não existia. Foi o Diabo! Agora são eles os Demónios do PSD cujo exorcismo já começou. Cavaco volta à defunção política e Passos vê abrir a caça ao Coelho. A primeira lebre a aparecer será Rui Rio, o grande obreiro da derrota do Porto, esperando que o PSD, na ânsia do D. Sebastião que é hábil a inventar, esqueça as suas tropelias. Depois virá Morais Sarmento e, para branquear o seu passado, Santana Lopes pode não resistir à tentação de uma reincidência, enquanto outros espreitam.

Os resultados autárquicos, que costumam penalizar o governo em funções, não são bons para o Governo. Cavaco Silva e Passos Coelho eram a garantia suficiente para assustar o eleitorado, que temia o regresso.

Vão fazer-nos falta. E os partidos de esquerda têm frequentemente tentações suicidárias! Espero que o Governo sobreviva às contradições dos partidos que o viabilizam, mesmo depois de comparados os ganhos e perdas de mandatos, entre si, nesta noite de leituras ao sabor das intrigas e dos interesses partidários, com comentadores encomendados.

Seja qual for o futuro, há uma lição para a direita. O arco do poder será o que decidirem os partidos, na AR, e nunca mais o que o velho salazarista e o novo aprendiz quiseram.

Comentários

Manuel Galvão disse…
Os antigos acionistas do PSI 20 apoiavam o PSD. Os atuais não apoiam, são pragmáticos; não apostam em figuras que atuam irracionalmente, por clubite partidária...
O PSD está confinados aos lojistas de talho, café ou serralharia pequenos que desejam secretamente "make portugal great again".

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