Os fogos e a política – Delenda est Carthago

A dimensão da dor e a emoção da tragédia podem conduzir-nos à revolta e à frustração, mas não justificam a chantagem política, o oportunismo mórbido e o desassossego que procura criar o caos onde germinam os populismos.
Na pungência do luto que atingiu o País, ouvir um ex-PM a falar da vergonha que sente do Governo a que se julgava com direito; ver a ex-ministra da Agricultura que assinou a falência do Grupo GES/BES, a pedido da amiga e colega das Finanças, a falar de ética e responsabilidade (até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?); e olhar a direita que teve em Cavaco, Passos e Portas os epígonos do salazarismo, é reviver um passado recente, onde a destruição do Estado social que restava esteve à beira de consumar-se.
Que os últimos fogos ateados por todo o norte do país tenham, por coincidência, surgido com inaudita violência e mortíferas consequências na véspera do dia em que as chuvas e a descida de temperatura estavam anunciadas, é um estranho acaso que lembra o Verão de 1975, com sedes partidárias a arder com gente dentro e fogos incontroláveis no País, ainda longe do atual santuário de pinheiros e eucaliptos.
Que generalizadamente se garanta a mão criminosa, é motivo para pensarmos que não é o acaso que faz as tragédias. É o terrorismo político de lobos solitários, despertados por imagens televisivas e pirómanos que pedem a demissão dos bombeiros?
A imolação da ministra da Administração Interna, abnegada servidora pública, com um currículo exemplar e qualificações invejáveis, ficará registada na sua carta de demissão irreversível, já várias vezes pedida, como libelo acusatório a quem exigia a sua cabeça.
Abandonadas num descampado, quase em sincronia com a demissão da MAI, surgiram as armas de Tancos, curioso aparecimento das armas que apenas serviram para disparos contra o governo, por atiradores de palavras que o querem derrubar, com ou sem eleições.
Os fogos não podem ser a vingança das eleições autárquicas, sejam quem forem os pirómanos à espera de atearem outros fogos em pleno inverno. Bastam os comentadores do costume que, depois de mais de quatro anos a dizer bem do Governo, passaram os últimos dois a dizer mal, ansiosos por voltarem a dizer bem.

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