terça-feira, dezembro 31, 2013

Ponte Europa deseja Boas Festas aos leitores

Caros leitores:

Chegados ao fim de mais um ano, é mister apresentar os votos canónicos de Boas Festas e desejar um feliz Ano Novo. O desejo existe, mas só um incauto acredita.

Em Portugal, os deuses ensandeceram. Com a nossa ajuda, é certo. O desalento grassa, com Passos Coelho, Portas e Cavaco a cuidarem do pântano profetizado por um piedoso engenheiro.

Sobre a Pátria estamos conversados. Valham-nos os versos de O’Neill:

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo
golpe até ao osso, fome sem entretém
....
meu remorso
meu remorso de todos nós...

Para desgraça já basta o ano que ora finda. Para vergonha tivemos a estátua 8,5 metros, em Braga, para o cónego Melo.

Reitero os votos de um feliz 2014, na convicção de que será demasiado mau e com o enorme desejo de errar.

Um abraço.

PONTE EUROPA


Notas soltas: dezembro/2013

1.º de dezembro – Mais uma data identitária que foi saneada do calendário dos feriados numa demonstração de incultura onde a imaturidade cívica e a agenda liberal se uniram no ataque à memória coletiva do povo português.

Coreia do Norte – A Amnistia Internacional revelou novas imagens de «gulags» com campos de trabalhos forçados. A dinastia Kim é um enigma psiquiátrico de um país com fome onde, do lado oposto, o pior maoismo e o mais execrável estalinismo nos remetem para a memória trágica do nazismo.

Nelson Mandela – Faleceu aos 95 anos o paladino da liberdade e herói da resistência ao apartheid, a cuja visão se deve um país multiétnico que, com a sua morte, fica em risco. Venceu o racismo e tornou-se a maior referência ética, política e democrática de África.

Madeira – A decisão do anterior Governo, de ninguém poder acumular uma pensão do Estado com um ordenado do Estado, foi embargada pela atual maioria,  para favorecer A. J. Jardim, em decadência cívica, moral e política, através do OE-2014.

Viana do Castelo – O chumbo do PSD/CDS ao pedido de inquérito parlamentar, caso dos estaleiros, transformou a simples suspeita ruidosa numa silenciosa desconfiança em relação ao ministro da Defesa. Foi disparate escusado ou medo oculto.

Barack Obama – O aperto de mão a Raúl Castro, nas exéquias fúnebres a Mandela, não foi mero gesto de cortesia, que a direita americana e o antiamericanismo primário desvalorizaram, foi o exemplo de Mandela que pode anular o injusto boicote a Cuba.

Rui Rio – A sedutora sugestão, para as abstenções eleitorais contarem como votos para cadeiras vazias, na AR, é um ato demagógico de um bom presidente de Câmara que não tem estatura política para limpar a imagem do PSD, manchada por Passos Coelho.

Mário Soares – O velho combatente antifascista foi eleito “Personalidade do Ano” pela Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal, uma manifestação de apreço pela sua intervenção política, tão depreciada na comunicação social autóctone.

PSP – A demissão do diretor, Paulo Gomes, na sequência da manifestação que derrubou as barreiras de proteção à A.R., evitou a do ministro e conseguiu um lugar de ‘oficial de ligação’, adrede criado na embaixada de Paris, onde os apertos orçamentais aboliram os conselheiros para as áreas da cultura, das questões sociais e da imprensa.

Chile – A socialista Michelle Bachelet venceu a segunda volta das presidenciais com mais de 62% dos votos, contra a candidata conservadora, Evelyn Matthei, que obteve 37,8%. No país do genocida Pinochet a esperança regressa, no feminino e à esquerda.

Tribunal Constitucional – A chantagem feitas sobre os juízes, pela troika, em sintonia com o Governo, foi uma intolerável e vergonhosa ofensa à soberania nacional, perante o inexplicável silêncio do PR. O acórdão derrotou o Governo por 13-0.

Turquia – Após o saneamento dos elementos laicos das Forças Armadas e Tribunais, o Islão anda à solta enquanto se digladiam Erdogan e Fethullah Gülen, um imã que lidera uma rede global de escolas e instituições de caridade com milhões de seguidores.

Espanha – Sob pressão dos ministros do Opus Dei, o PP olvidou a laicidade e, fazendo regredir as leis sobre a família, sobretudo a que regula a IVG, coloca o País na cauda da Europa. O PSOE promete revogar a Concordata quando voltar a ser poder. É um dever.

Iraque – Este ano foi o mais mortífero desde 2008. Até novembro morreram mais de 7 mil civis. Este é o trágico efeito colateral dos «libertadores» que destruíram um País e o condenaram à barbárie. Os invasores, cínicos e mentirosos, mantêm-se impunes.

CTT – A desastrosa venda, feita no cumprimento da agenda neoliberal, é a alienação de uma empresa rentável que deixa o país progressivamente descaracterizado e o interior cada vez mais abandonado.

Vaticano – O papa Francisco é um fenómeno de popularidade que esconde a debilidade para transformar a Cúria, com o sorriso cativante. Ainda não revogou qualquer dogma, nem renunciou aos milagres, e já diminuiu a hostilidade que os antecessores atraíram.

Troika – Portugal foi o laboratório onde mais errou as previsões e, depois de admitir o erro, não mudou a receita. Ignora-se se é o Governo que dirige a troika ou esta que guia o Governo. Sabe-se apenas que o aumento de impostos não cobre os juros da dívida.

OE-2014 – A obstinada provocação ao TC e a reiterada incompetência para respeitar a CRP fazem prever grandes perturbações no seio do Governo. O PR, em vez de pedir a fiscalização preventiva, preferiu ocultar, até à data limite, a decisão de o promulgar.

Japão – Acordaram velhos demónios no país onde habita um anacrónico imperador, um semideus. A memória amarga de Hiroxima e Nagasáqui não é suficiente para adormecer ancestrais rivalidades com a China e a Coreia. Que tragédia!

Guiné – O embarque forçado de 74 sírios, com passaportes falsos, num avião da TAP, foi um ato terrorista do cartel da droga, chamado Governo. Só a errática diplomacia de quem chama ex-ultramar às ex-colónias pode admitir insultos deploráveis a Portugal.

António Guterres – A denúncia de discriminação étnica, feita à nova lei de imigração do Reino Unido, atraiu contra si o azedume conservador do Governo de Cameron, mas Guterres continua a referência ética mundial da solidariedade para com os refugiados.

Governo – O ano expira com o 7.º remendo cosido com 3 «ajudantes» de ministro, sem qualquer pompa. Que o novo ano nos traga o contentor para o lixo em que se decompõe.


segunda-feira, dezembro 30, 2013

Momento zen de segunda_30-12-2014

João César das Neves (JCN), saprófita do episcopado, funâmbulo do Vaticano e devoto contumaz de todos os pontífices, andou desorientado com o atual, sem saber se o devia adular na homilia de segunda, no DN.

Saído de longa confissão, com joelhos doridos e síndrome de privação da hóstia, teve de cumprir a expiação adrede decidida pelo confessor – dizer bem de Francisco –, dar o seu testemunho de regozijo pela escolha do Espírito Santo, o da Trindade, e mostrar o júbilo público, para evangelizar réprobos, sem aliviar o cilício.

No exórdio da homilia que lhe serve de refrigério – “O furacão Bergoglio” –, afirma que “Todos gostam do Papa Francisco”, que, com ele, aconteceu “uma lufada de ar fresco, não só na Igreja mas em todo o mundo”, distraído de que há mais Igrejas e mais mundo, além do romano, e que no Iémen ou na Arábia Saudita nem uma brisa soprou.

JCN está para a penitência como o Governo para a troika, quer ir sempre além. Por isso, criou este mimo de retórica para a antologia da parenética: “A novidade foi inesperada, apesar de acontecer repetidamente nos pontificados anteriores». Não referiu antipapas, não evocou os Bórgias, mas até Pio IX citou, o papa mais reacionário do século XIX, o criador dos dogmas da Imaculada e da Infalibilidade.

JCN disse ainda que “Bento XVI se revelou caloroso, mediático, comovente” e que com Francisco a lufada de ar fresco se tornou um furacão. “Neste caso, é mesmo justificada a paixão e o encanto (como nos casos anteriores)” [sic]. As piruetas a que é obrigado para cumprir a expiação! E vai avisando que “O consenso à sua volta [do Papa] sofre de um cisma fundamental, ainda oculto”.

Vê-se que teme discordâncias com o ultraliberalismo da madraça da Palma de Cima, em Lisboa, onde leciona. Teme “que o fascínio inicial se venha a transformar em críticas, zangas e perseguições dos que apoiaram o novo Papa sem ser realmente suas ovelhas”.

E, sábio, adverte que “o maior equívoco está em achar a Igreja obsoleta…”. “A Igreja sempre precisa de reforma, por estar abaixo do ideal transcendente. Mas essa reforma é feita com os olhos no Céu, não nas conveniências do momento. A sua missão é converter o mundo, não ser aceite por ele”.

JCN cumpriu a penitência mas vê-se que se assusta com os ventos e teme a pneumonia.

Portugal, o OE-2014 e o futuro

Ao contrário do que previa o jornalista Paulo Baldaia e do que admitia o diretor do DN, aconteceu o que Marques Mendes sabia e quase todos suspeitávamos: Cavaco não podia deixar de promulgar o Orçamento de Estado.

Passos Coelho e Cavaco podem entrar em desacordo, mas viajam no mesmo autocarro por um caminho à beira do abismo e qualquer solavanco os assusta. Saber-se-á um dia como foi possível a tão medíocre PM fazer a Oferta Pública de Aquisição (OPA) ao PR, depois de ter sido criação sua.

Não parecem suficientes para a cumplicidade, as afinidades culturais, o escasso apreço pela democracia e pela gramática, o baixo perfil político e a insensibilidade social. Pode a razão ser outra, cuja referência, por falta de provas, deixaria sob a alçada do Código Penal quem a apontasse.

O ano de 2013 termina nesta melancólica maldição de uma maioria, um presidente e um governo, que percorrem o inverno do nosso descontentamento. O ano que aí vem, com os mesmos protagonistas e os mesmos executores de hipotecas, não augura nada de bom e, à míngua de esperança, acabamos convencidos de que os culpados da situação somos nós próprios, as vítimas, e não os algozes.

A culpabilização pessoal é uma herança judaico-cristã que há de levar-nos a pensar que somos pobres por vontade própria, que a escola é um bem de quem pode e a saúde uma esmola que se recebe de joelhos e de mãos postas.

A agenda, que este Governo escondeu, avançará com o Orçamento, que será chumbado demasiado tarde, permitindo a continuação do Governo e do PR, sem capacidade para o País impedir o desmantelamento do que resta do Estado social.

domingo, dezembro 29, 2013

TC. Devemos-lhe o que resta da democracia - Comentário de E-Pá

Por

É - Pá

O Tribunal Constitucional (TC) é o grande obstáculo à grosseira mistificação política da actual maioria de que um regresso à soberania ‘só’ seria possível em meados do próximo ano, após cumprimento de drásticas condições. Até lá valeria tudo. Na realidade, o TC não se deixou influenciar pelas ‘teses do protectorado’. Tem actuado dentro da concepção de que a Democracia e a Soberania são valores de primeira grandeza e, o mais importante, indissociáveis.

Se alguma instituição trabalhou para incutir a noção de estabilidade num País devastado por uma grave crise económica, financeira e social foi, certamente, o TC que tem demonstrado um notável equilíbrio na interpretação constitucional. Esse tem sido o nosso instrumento ‘protector’ perante uma aberrante condição de uma intervenção externa que para consumo táctico tem sido definida como um inespecífico e ambíguo ‘protectorado’.

Historicamente habituados a ver as intervenções externas como ocupações militares, situação que sempre acabou por provocar acções de resistência a presente ‘ocupação’ (financeira) deveria – no entender do actual Governo – suscitar uma rastejante e veneradora submissão. Uma submissão que não obedece a calendários e que – hoje existe claramente essa noção – tende a perpetuar-se. A soberania não é hipotecável nem se gere a prazo. Ou se consegue defendê-la ou perde-se.

De resto, quer o Governo quer o PR colocaram-se fora do perímetro da confiança institucional e aparecem enfeudados a pactos avulsos, arrancados de cartilhas financeiras e monetaristas ideologicamente marcadas, necessariamente efémeros e instrumentais. O vírus da marginalidade, nomeadamente a marginalidade constitucional, contaminou gravemente o Governo e colonizou a presidência da República. Duas instituições fundamentais para a sobrevivência (é disso que se trata) da nossa democracia.

Por outro lado, a AR transformou-se – sob uma rígida arquitectura partidária - numa correia de transmissão de uma maioria equilibrista que se auto-convenceu estar a fazer reformas estruturais quando, de modo periclitante, tem obtido convergências (concertações políticas) circunstanciais e pontuais que têm assegurado (a essa maioria) uma caricata e atribulada viabilidade (continuidade). Facto que não consegue mascarar (a essa maioria)o um carácter incoerente, efémero e enfeudado a ‘excepcionalidades’.

O saldo é preocupante. Resta-nos a existência de uma Lei Fundamental construída em concordância com o nascimento do actual regime e que, ‘cautelarmente’, criou um órgão guardião das suas magnas disposições, responsabilizando-o pela sua interpretação. Um órgão que, inegavelmente, tem cumprido.


Devemos-lhe o que resta da democracia


Avivemos a nossa memória com a memória dos outros


sábado, dezembro 28, 2013

A 'questão turca'...

A Turquia vive momentos de grande instabilidade política que estão longe de serem resolvidos por uma ampla e precipitada remodelação governamental. link

A ruptura entre o partido de Erdogan (AKP) um formação política híbrida (conservadora e religiosa) e o eclético ‘movimento Gülen’ (religioso, assistencialista e empresarial) é, na verdade, o problema político fundamental que se arrasta desde o último Verão e está longe de qualquer (re)solução. Sem esta ‘conjugação’ de esforços e de estratégias os obscuros - mas primordiais - objectivos do actual governo turco dirigido por Erdogan, i. e., a islamização do País e a neutralização dos ‘árbitros da laicidade’ (Exército e o poder judicial), herdeiros da concepção da ‘nova República Turca’, imposta por Ataturk, estão seriamente comprometidos.

Muitos analistas consideram que o actual Governo dificilmente conseguirá sobreviver, politicamente, sem o oculto mas decisivo apoio de Gülen, nomeadamente no campo financeiro. E o paradoxal, em termos do que estará efectivamente em disputa, é que quer Recep Tayyip Erdogan quer Fethullah Gülen, ambos reivindicam pertencer a um mítico e enganador ‘islamismo moderado’, tentando disfarçar sob esta ambiguidade as suas (de ambos) vocações totalitárias que, como a História recente nos mostra, conduzem necessariamente a uma teocracia. Se quisermos fazer uma comparação caricatural poderíamos considerar que as actuais guerras intestinas na Turquia são uma tosca reprodução dos conhecidos diferendos e lutas pelo protagonismo e influência dentro do Vaticano que, desde há largas dezenas de anos, assistimos no Ocidente (p. exº.entre os jesuítas e a Opus Dei).

As Forças Armadas, ainda não totalmente recompostas da célebre ‘depuração Ergenekon’, mantêm uma atitude prudente e expectante já que as contradições internas abundam por terem estas instituições terem sido objecto de paulatinas infiltrações (pelo movimento Gülen e pelo AKP). 
A ‘sagrada aliança’ entre o AKP e o movimento Gülen que até aqui serviu para purgar as altas chefias militares e os Tribunais, iniciando deste modo uma subreptícia 'deriva islâmica' está, ao que tudo indica, momentaneamente (irremediavelmente?) desfeita, o que deixa muitos 'fantasmas à solta'.

Todavia, os ajustes de contas, em curso, não ocorrem à volta de uma corrupção disseminada que atinge os mais altos escalões do Estado mas também passa por uma linha divisória entre forças islamitas em confronto tendo como pólos visíveis o AKP e o movimento Gülen e uma sucessão de eleições que se avizinham. Há também a nítida percepção de que existem contas antigas para saldar que envolvem vários protagonistas entre eles o Exército e o Poder Judicial.

Para já, o fiel da balança vive longe de Istambul ou de Ankara. Está sedeado nos EUA, num pacato ambiente rural da Pensilvânia e, aparentemente, 'só' manifesta interesse em questões educativas e à prática de actos caritativos. É um auto-exilado chefe religioso enigmático com vastas ambições políticas e chama-se Fethullah Gülen (na imagem). É, neste momento, a chave da ‘questão turca’.

A Guiné, o ministro e o PR de alguns portugueses (2)

1 – A Guiné-Bissau não é um Estado, é um caso de polícia que se converteu num caso político, um antro de droga que a França destabiliza na sua vocação neocolonial e no apetite do petróleo de Casamança, que Portugal não sabe como lidar com ele.

2 – Os atuais membros do cartel, impropriamente chamado Governo, não têm o direito de reivindicar a herança de Amílcar Cabral nem de usarem o guarda-chuva honrado do PAIGC. São marginais com dupla nacionalidade Portugal/Guiné, a viverem do esbulho do famélico povo da Guiné e das rivalidades tribais de um complicado mosaico étnico.

3 – O embarque forçado de 74 sírios, com passaportes falsos, num avião da TAP, foi um caso de terrorismo, onde o cartel da droga, graças a previsíveis subornos, pôs em perigo a segurança, o comandante, a tripulação e os passageiros da linha aérea. Só a errática diplomacia de quem ainda chama ex-ultramar às ex-colónias pode permitir os assíduos insultos e as interferências deploráveis que envergonham Portugal. De Bissau a Luanda.

4 – Dito isto, é inaceitável que a indelicadeza do inqualificável membro do gangue para com o PR português, apelidando de «infantis» as suas declarações, sirva para esconder o essencial – o ato terrorista contra Portugal.

Os analistas de café e excelsos patriotas agarraram-se à nuvem e esquecem Juno.


A Guiné, o ministro e o PR de alguns portugueses

Um dia, o conselheiro do presidente dos EUA chamava-lhe a atenção para o facto de o ditador de turno da Nicarágua, seu protegido, ser um filho da puta. O Presidente, respondeu-lhe: «mas é o nosso filho da puta».

Lembrei-me deste caso, cujos termos crus são verídicos, para referir a onda de exaltação nacionalista que grassa na Internet, em defesa de Cavaco Silva, a quem um membro do cartel da droga de Bissau, alcunhado de ministro de Estado e da Presidência do governo de Bissau, desvalorizando o grave incidente que envolveu o avião da TAP, apelidou de infantil a forma como Cavaco reagiu ao caso.

Note-se que apelidou de infantil a forma e não o autor, que defendeu como pôde o antro que não consegue tornar-se Estado, que fez o que podia, contrariamente ao PR e ao PM portugueses quando vergonhosamente se calaram perante a chantagem ao TC e, no caso do PM, crocitando em uníssono.

Curiosamente quem agora se indigna contra um membro de um governo a fingir, contra a criatura cujo português faz inveja ao de alguns membros do governo que o PR impôs ao País, são os que permaneceram silenciosos contra os ataques de Durão Barroso e de Christine Lagarde, estrangeiros que chantagearam o TC e o povo português.

E são também os que não leem os jornais europeus e desconhecem como se referem ao Governo português e ao próprio PR.

Ah! já sei. O guineense é preto e Barroso e Lagarde são, como o ditador referido: «são os nossos…».


sexta-feira, dezembro 27, 2013

Deputados e magistrados

Comparemos os políticos que todos combatem, sobretudo os deputados, e os magistrados que até podem ter bizarras organizações sindicais.

Que outra carreira, militar, médica, académica, de investigação, docência ou de administração pública aufere semelhantes vencimentos, um subsídio de renda de casa de 620 € (sem impostos) e um sistema de saúde ímpar para receber na reforma o mesmo vencimento dos que se encontram em funções?

O Japão, a história e a falta de memória

As agências internacionais dão conta da visita do primeiro-ministro, Shinzo Abe, ao santuário onde os japoneses homenageiam aos soldados mortos desde a guerra civil Boshin, em 1968, incluindo os criminosos de guerra que ocuparam a China e a Coreia do Sul na Segunda Guerra Mundial.

Em Pequim e Seul acordaram velhos rancores quando o PM japonês brincou com o fogo e os aliados americanos manifestaram o seu desagrado. É lugar-comum dizer-se que se sabe como as guerras começam e não se sabe como acabam.

Para já, acordaram velhos demónios no país de um anacrónico imperador, um semideus, onde a memória amarga de Hiroxima e Nagasáqui se varre e não basta para adormecer ancestrais rivalidades entre a China e a Terra do Sol Nascente.

Que tragédia!

Deixo um poema para servir de meditação, bem melhor do que as orações pias:

Receita para fazer um herói
Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.
Reinaldo Ferreira. Um Voo Cego a Nada (1960)


quinta-feira, dezembro 26, 2013

Passos Coelho: Uma intolerável ‘instrumentalização' natalícia…

O primeiro-ministro português cumpriu uma tradição política paroquial e dirigiu uma mensagem, dita natalícia, aos portugueses. link

Para além de considerações visionárias sobre crescimento do desemprego e a recuperação da economia, momento em que decidiu ‘trabalhar’ conceitos estatísticos transformando números pontuais e ocasionais em ‘vitórias’ face a uma teimosa realidade dominada pela perfeita consciência de que estamos perante um cenário substancialmente diferente.
O quadro recessivo criado pelas políticas de austeridade excessivas promovidas por este Governo, em dilecta concertação com a Troika, esgotou desde há muito as suas virtudes (se é que algum dia as teve) e do que se trata é de um abrandamento reactivo face a um conjunto de infortúnios onde o esgotamento e uma progressiva saturação se instalaram na sociedade portuguesa por motivos que sociologicamente se justificam e que determinam ‘oscilações comportamentais’, nomeadamente perante o consumo, i. e., face à retoma do mercado interno que este Governo anatemizou como um 'viver acima das possibilidades'...
Há neste quadro reactivo muito da postura relativamente frequente face ao desespero e que pode ser definida pelo slogan: ‘perdidos a velas, perdidos a remos’.

A infantil reacção que Passos Coelho transmitiu na sua mensagem foi a que “…A (nossa) economia começou a crescer e acima do ritmo da Europa…link. Trata-se um desbragado exemplo da inconsciência política que campeia no seio deste (des)Governo ou, então e igualmente grave, de mais uma vã tentativa de prosseguir num caminho de engano e de venda de ilusões. Se para a globalidade das previsões a nossa economia está dependente (subsidiária) da Europa não se percebe como se apresenta nestes dados acima dessa realidade onde nos inserimos. Só por um ‘acidente’ que não tem como base qualquer coisa de sólido e de palpável e que passou a ser esgrimido como um irresponsável malabarismo. Na realidade estamos se fizermos uma análise global da acção desde Governo perante uma cruel realidade: a actividade económica entre 2011 a 2013 (período de vigência deste Governo) teve uma brutal contracção de 6% link e o crescimento previsto pela OCDE para 2014 cifra-se em poucas décimas acima da ‘linha de água’ (+0.4%) link. Tirar destes números conclusões 'festivas' é manifestamente enganador e abusivo.

A tirada “…Com a ajuda das políticas ativas de emprego, o desemprego, que tinha atingido níveis inaceitáveis no decurso desta crise, tem vindo a descer mês após mês, e em particular o desemprego jovem…link mostra, perfeitamente, o desmesurado nível de demagogia que se entranhou no actual Executivo. Nada sobre as razões pelas quais o tão celebrado ‘ajustamento’ se fez à custa de lançar largas centenas de milhares de portugueses no desemprego. O classificado como ‘inaceitável’ não é (nem nunca foi) uma fatalidade. Foi, isso sim, uma deliberada opção que, no presente, se pretende escamotear à sombra de ténues indícios de 'retoma' que, efectivamente, não passarão de paradoxais oscilações. E quanto ao desemprego o Governo deveria ter a humildade de reconhecer que na sua previsão para 2013 (ainda durante o consulado de Gaspar) o sentido da sua evolução era do seu aumento para 18.2% link. O que poderá estar a suceder (se não existirem erros de análise e manipulação estatística) é algo de errático, difícil de interpretar. São, tudo indicia, flutuações sazonais ou acidentais – é isso que se estará a observar - que não autorizam o Sr. primeiro-ministro a promover um rasgado auto-elogio das suas políticas e a classificar, baseado em pressupostos mistificados, qualquer ‘acerto’ das políticas que têm sido seguidas. Infelizmente, parece que ainda estamos longe de poder avaliar a oportunidade e justeza dos sacrifícios.

Aliás, nesta mensagem o primeiro-ministro levanta a ponta do véu quando afirma que “Precisaremos de todos os instrumentos que mobilizámos para concluir sem perturbações o Programa.” link
Todos conhecemos quais são os ‘instrumentos’. Eles foram até aqui o empobrecimento coercivo e deliberado da maioria dos portugueses, uma espiral recessiva descontrolada, o desemprego massivo e na vertente financeira a transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos, com as inevitáveis fracturas sociais. Cego e obstinado Passos Coelho não quer medir as consequências profundas da sua acção governativa. Aproveitando uma data simbólica (Junho de 2014) que, enganadoramente, pretende transformar num acto libertador (o ‘fim do protectorado’) alimenta a espúria esperança que será capaz de 'mobilizar' os portugueses para uma meta que sabe ser ilusória e fantasiosa.

Esta passagem da sua mensagem onde enfatiza as atitudes ‘instrumentais’ clarifica os últimos desaires do Governo, nomeadamente, o recente chumbo do Tribunal Constitucional que classificou a tal ‘convergência do regime de pensões’ como um ‘acto avulso’ (de reduzido impacto orçamental perante as imprevisíveis consequências económicas). De facto, os ‘expedientes instrumentais’ de que se socorreu para ‘justificar’ a continuidade de políticas desastrosas não conseguem disfarçar uma penosa ausência de estratégia ou, se formos ao fundo da questão, a ‘instrumentalização’ do poder para objectivos miseráveis que se acantonam numa radical deriva neoliberal que está a exaurir, programada e metodicamente, o País. Todavia, esta cruel análise da realidade não coube na fantasiosa e festiva quadra natalícia que atravessamos.
Pelo que fomos presenteados - na mensagem natalícia do primeiro-ministro - com mais um orquestrado e intolerável conjunto de aleivosias, 'instrumentais'.

A "CONVERGÊNCIA" DAS PENSÕES

O intitulado governo do País, tendo descoberto que o sistema de pensões do setor público é mais favorável que o do setor privado, resolveu fazer convergir os dois sistemas. Para tal, excogitou uma lei que baixava as pensões do setor público para o nível das do setor privado.

Tal aborto jurídico era flagrantemente inconstitucional, e assim o declarou o Tribunal Constitucional, por unanimidade.

 Se realmente o "governo" está preocupado com a desigualdade dos sistemas, tem uma solução democrática, lógica, justa e que não ofende a Constituição: elevar as pensões do setor privado para o nível das do público. Mas isso nem lhe passou pela cabeça; tomar uma medida que beneficie alguém é coisa que o "governo" nunca fez nem fará.

 Isto é prova cabal de que os senhores do Poder não estão minimamente preocupados com a desigualdade. O seu único objetivo era o de reduzir as pensões do setor público. A tão propalada "desigualdade" era apenas um pretexto e uma falsa justificação.

Ateu, graças a Deus

Há quem por graciosidade ou provocação goste de dizer aos que elegem a consciência como única fonte de valores, que são «ateus, graças a Deus».

E não é que têm razão? Deus é uma explicação por defeito para todas as dúvidas, uma boia para todos os naufrágios, um arrimo para todos os medos – especialmente, para a mãe de todos os medos –, o medo da morte.

Não fora a invenção desse ser imaginário, à semelhança dos homens que o criaram, não haveria necessidade do contraditório. Não há antítese sem tese, nem síntese sem ambas.

Os ateus não têm o direito de perseguir os crentes, tal como a estes não assiste o direito de molestar aqueles. Diferente é o combate de ideias, batalha que cabe aos crentes travar entre crenças ou contra o ateísmo e aos ateus contra as crenças.

É preciso ser destituído do mais leve resquício de humanismo para deixar sem combate a crença nas virgens que aguardam terroristas, os pregadores do ódio e os divulgadores da vontade divina que impõe normas de vestuário, tipos de alimentação e decapitações, por heresia, blasfémia ou apostasia.

A apostasia é um direito inalienável, seja em relação a um partido político, a uma crença religiosa ou a uma doutrina filosófica. Com que direito poderia um ateu perseguir quem, depois de o ter sido, optasse por ir a pé a Fátima, andar de rastos à volta de um ícone, ou intoxicar-se com incenso?

A blasfémia, que permanece no Código Penal português, é um anacronismo que não faz sentido. Um islamita não tolera uma caricatura de Maomé, ouvir um trecho de música ou ver Alá desprezado? Conforme-se, tal como os ateus quando escutam um cardeal a considerar o ateísmo como a maior tragédia da Humanidade.

Idiota, tolice grossa, é animar uma maratona pia, uma peregrinação a Fátima “contra o ateísmo”, a peregrinação de 13 de maio de 2008, chefiada pelo cardeal Saraiva Martins. Tinha esse direito, porque a peregrinação não foi contra os ateus, que são pessoas, foi contra uma ideia – o ateísmo –, mas revela um carácter belicista a lembrar as Cruzadas.

O livre-pensamento e a liberdade de expressão são mais importantes do que as crenças particulares. Ao Estado, cuja neutralidade é uma exigência democrática, cabe apenas defender a livre expressão de todas as crenças, por mais idiotas que sejam, desde vacas sagradas à transubstanciação das hóstias em corpo e sangue de um judeu defunto, sob o efeito de sinais cabalísticos executados por um clérigo ungido e com alvará.

Mais importante do que qualquer crença é a confiança na Humanidade e na capacidade desta para se transformar e melhorar. Nessa tarefa podem ateus e crentes dar-se as mãos.

Ponte Europa / Sorumbático

Cavaco Silva e o OE-2014

Penso que as opiniões em contrário eram meros palpites para insinuarem que a PR é um órgão de soberania autónomo e não um apêndice do Governo. Cavaco vai promulgar o Orçamento nos próximos dias, como afirmara Marques Mendes cujo acesso antecipado à agenda do Governo faz dele um comentador televisivo.

Enganaram-se, pois, os que previam a surpresa do pedido de fiscalização preventiva, a atitude lógica de quem assistiu à primeira provocação do Governo derrotada por 13-0.
É fácil adivinhar que pedirá a fiscalização sucessiva de várias normas orçamentais, pela simples razão de que não é o único a poder fazê-lo. Não é a defesa da CRP que o move, mas o desgosto de ver mais uma vez cair-lhe a nódoa da inconstitucionalidade no pano das funções que exerce.

Por mais respeito que nos mereça a devoção natalícia do PR e o apego aos netinhos não se compreende que tenha aguardado para depois das cerimónias litúrgicas do último dia do prazo o anúncio de tão importante indecisão.

O Governo que há e o PR que não, formam a mistura explosiva que degrada o futuro coletivo do país que, apesar deles, ainda somos.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

A troika, a fé e a vida (alegoria)

Nasci sob a asfixia da troika – Pai, Filho e Espírito Santo –, sob o terror das ameaças de quem tinha em todas as paróquias funcionários durões que zelavam pela amortização do empréstimo da vida, pela remissão do pecado original e pelos juros agiotas, fixados pelo credor a quem não pedira para nascer com a dívida do empréstimo.

O batismo era o pacto de pagamento da dívida – dom da troika –, e um imperativo a que ninguém podia eximir-se. Começava-se em criança a rezar ave-marias e aos sete anos já a salve-rainha, o credo e as bem-aventuranças abrangiam os juros que eram pagos com a eucaristia e, antes dela, com a penitência que não dispensava o ato de contrição.

A dívida não diminuía e os juros não baixavam. As crianças queriam ser boas alunas da troika, e ir além das suas exigências, mas a dívida crescia, as ameaças eram constantes e o Inferno uma inevitabilidade. Aos dez anos o delgado paroquial, exigiu às crianças que um novo pacto fosse assinado para que a troika libertasse a segunda tranche da salvação eterna. Era a confirmação, que tinha como notário o bispo e como selo branco uma cruz desenhada a óleo na testa dos devedores.  Aos 10 anos, as crianças da aldeia tinham sido fustigadas com quatro sacramentos  e a comunhão solene sem que a dívida abrandasse.

Cansados do ónus ou tornados malhadiços com tanta exigência, começou a relaxação da fé. Ficavam por pagar as penitências, chegava-se tarde ao mês de Maria e hilariavam-se as crianças durante a missa, mas quem nunca se riu na missa que atire a primeira hóstia.

Foi assim, com uma dívida crescente, com exigências impiedosas, que renunciei à vida eterna e à dívida. Fiz então um pacto com Deus que ainda perdura. Eu comprometi-me a não fazer milagres e ele não escreve crónicas.


Francisco passa revista às unhas do antecessor


Com um Governo fora de prazo


terça-feira, dezembro 24, 2013

Boas-Festas

Voltar às origens na noite de consoada é a viagem marcada no calendário, imposta pelo hábito e repetida pela inércia. À medida que as coisas e os lugares se encaixam cada vez menos na memória, mais intensamente os procuramos. Parte-se em busca do passado e teme-se a desilusão de não achar sinais. Mas volta-se sempre, quiçá com vontade de exumar memórias, de recuperar sonhos e afetos que nos fazem falta, como se no eterno regresso surgisse a fonte da juventude.

Todos os anos, quando Dezembro chega, o frio vem lembrar-nos a festa que se aproxima ao ritmo da nossa ansiedade, enquanto os apelos ao consumo nos seduzem, insinuando uma felicidade duradoura. Fazem-se compras sem ponderação e arquivam-se prendas à espera de destinatário. Os livros têm nesta época o lugar que mereciam durante o ano, viajam com as pessoas à espera de leitor, quedam-se em mãos que os afagam ou, simplesmente, arquivam-se no abandono da estante.

Depois de árduas discussões no seio dos casais decide-se o local da consoada em unânime contrariedade. Nunca durante o ano a diferença entre irmãos e cunhados ou pais e sogros se tornou tão nítida e fraturante.

A viagem é o regresso magoado aos locais e memórias de um tempo que já foi, por entre chuva miudinha e frio de rachar. Doem os ossos em intermináveis filas de trânsito antes de se ver iluminada a torre do campanário onde outrora soavam as horas de dias muito mais calmos.

Chega-se de noite e de mau humor com o vento gélido a arrefecer sorrisos compostos para a chegada e os quartos húmidos indiferentes aos nossos ossos e ao reumático.

A lareira é o destino e centro de um semicírculo de profundos afetos e sólidos rancores que se reúnem alinhados por ordem etária na casa dos mais velhos e são alimentados a filhós e bolos, que líquidos capitosos ajudam a empurrar. É aí que se desembrulham as prendas embaladas em papel reluzente com laços artisticamente colados. Agradece-se com um sorriso de desprezo aquele presente desinteressante do parente que nos detesta. Fica-se deslumbrado com a oferta generosa que redime uma ofensa antiga e enternece-nos a simples presença de quem não pede desculpa por gostar de nós.

Recordam-se em silêncio os ausentes pela falta que fazem e a saudade que motivam e os presentes pelo incómodo que provocam e o fastio que acarretam.

Quase todos se empanturram na esperança de matar de vez a fome ancestral de gerações, que permanece viva na memória de quem a herdou durante séculos. Gabam-se os pastéis de bacalhau recheados de batata a tresandar a óleo, a excelência do peru mal assado, a qualidade do polvo que saiu duro, repetindo-se discretamente a dose de bacalhau cozido, batatas e couves, regados com azeite de boa qualidade, numas merecidas tréguas ao bitoque e à pizza, enquanto se aguarda a panóplia de doces e frutos secos. São momentos para acumular prazer e peso enquanto a azia e os espasmos não devolvem o remorso e o incómodo.

Por uma noite repousam os guerreiros das batalhas adiadas do quotidiano, levam para o seio familiar uma ou outra intriga para não perderem o treino, cumprimentando-se com uma profusão de ósculos ora fraternos, ora de circunstância. E, por entre os votos canónicos de Boas Festas, recordam-se pequenos agravos e ruminam-se vinganças por umas palavras que não caíram bem, algum insulto durante a disputa do relógio de ouro do avô ou daquela terrina da Vista Alegre que espalharam a cizânia nas últimas partilhas.

Sobrevive do paganismo o festejo do solstício de Inverno. Fez dele a tradição judaico-cristã a festa da família. E quando a família se comporta como deve, a festa acontece e é um suave pretexto de encontros ansiados em volta de sabores que a memória guarda e de aromas que nos transportam à infância numa viagem carregada de afetos e saudade.

Que a noite de hoje seja de festa em vossas casas.

Boas-festas, caros leitores.

Parabéns a todos os aniversariantes


segunda-feira, dezembro 23, 2013

Guerra e Paz


Com esta arma perdi alguns camaradas e com ela os militares da FRELIMO, do MPLA e do PAIGC ajudaram a libertar os seus povos numa guerra que não devia ter começado.

Neste inverno, nesta época em que o outono da vida já tomou conta dos sobreviventes, interrogo-me como pode haver quem defenda ainda a mais estúpida, inútil e injusta das guerras – a guerra colonial.

Nunca tantos estiveram do lado errado, por causa do erro que permitiu a um déspota continuar fascista, quando os fascistas europeus se refugiavam nos esgotos, para não serem reconhecidos.

À fome e ao medo de então junta-se agora o medo da fome. Portugal devia ter direito à Paz, ao Pão e à Liberdade.


Que raio de sorte a nossa!

A Turquia e a laicidade traída (2) - Comentário de «e-pá»

Por

É -Pá

Depois dos confrontos de Junho passado que começaram em Istambul e sacudiram muitas outras cidades da Turquia despertando a consciência dos turcos - e do Mundo - para a paulatina subversão do regime laico e concomitantemente para a sua substituição por uma califado.

O silencioso projecto cresce (e alimenta-se) à sombra de um vasto programa de corrupção política e económica (nomeadamente do sector imobiliário) que se instalou na Turquia mas terá longos braços espalhados pelo 'Mundo muçulmano'.

Estaremos, nos recentes acontecimentos, perante réplicas de problemas que não foram, efectivamente, resolvidos há 6 meses e que se agudizaram com a aproximação de actos eleitorais e a necessidade de consolidar os ganhos na trajectória de 'islamização'.

Os receios pairam, agora, sobre o poder judicial que ousou interpor-se na 'grande e misericordiosa caminhada para a islamização do poder' e poderá sujeitar-se a uma nova e sangrenta purga em paralelo com o recente afastamento de mais de 50 oficiais da polícia.

Perante estes indícios seria avisado começar a entender (e ver) o Estado turco como perdido para salvar a laicidade instituída - a ferro e fogo - por Atatürk, facto determinante para a aproximação deste País (verificada essencialmente durante a guerra fria) ao 'Ocidente'.

E sem alimentar qualquer tipo de discriminação religiosa avaliar a solidez das alianças estratégicas, ditas orientadoras para o 'Mundo Ocidental' (leia-se NATO) e que entraram definitivamente em choque (colapso) com a 'primaveril' evolução política dos Estados do Médio-Oriente e Norte de África, em progressiva e profunda islamização institucional e política.

Homero - se fosse vivo - e tentasse 'rescrever' a Odisseia constataria que Ankara não dista muito de Tróia. E, nos dias que correm, o cavalo deixado às portas do cidade pode muito bem chamar-se Erdogan.

Ou então, poderemos (só) estar perante coincidências resultantes de 'irmandades' (históricas, claro está!)..

domingo, dezembro 22, 2013

O Governo, o Tribunal Constitucional e a condescendência popular…

O chumbo no Tribunal Constitucional de um diploma legislativo denominado de ‘convergência das pensões’, sendo uma decisão essencialmente jurídica sobre o comportamento político deste Governo, não é inócuo em termos de consequências nacionais.

Primeiro, ‘entala’ o Presidente da República que, se tiver o mínimo de sensibilidade constitucional, não deixará de interrogar-se até quando permitirá que um Governo continue a legislar ao arrepio da Lei Fundamental. Para muitos portugueses a ‘fronteira de tolerância’ já foi - há muito tempo - largamente ultrapassada.

Depois, ‘arrasta por simpatia’ a Assembleia da República que, sucessiva e metodicamente, tem alienado a sua função de órgão legislador e fiscalizador – emanada directamente da vontade popular - para se tornar na caixa de ressonância de um Governo. A presente fase de desvario e de deriva política governamental que se resignou, ou terá optado desde o início, a ser – por via de uma espúria ‘maioria’ concertada à volta de interesses políticos, financeiros e económicos – num veículo da troika, pretende transformar a AR numa câmara subscritora de todas as intenções do executivo, sem desempenhar qualquer papel ‘criativo’ ou regulador. O problema é que a AR funcionando em sessões abertas e públicas, cai sob o escrutínio diário dos cidadãos, apesar do esforço desenvolvido na promoção de formais representações ‘democráticas’ à volta de um ‘parlamentarismo’ de tribuna, já totalmente desacreditado ou morto. Daí os problemas de ‘manifestações’ recorrentes nas galerias do Parlamento.

Depois, todo o vasto leque de circunstâncias que precederam e tentaram envolver o presente acórdão, nomeadamente a atitude permissiva deste Governo perante todo o tipo de pressões e, por ser extraordinariamente grave, o facto de ter consentido (estimulado?) a sua disseminação na praça pública e a internacionalização dos problemas de constitucionalidade das suas propostas de lei. Tal atitude expôs insidiosamente o País a múltiplas e despropositadas interferências externas que, em última análise, se revelaram absolutamente atentatórias da nossa soberania (a Direita se estivesse noutra situação classificaria este regabofe de ‘antipatriótico’).

Estamos, portanto, em plena ressaca do acórdão do Tribunal Constitucional cuja leitura terá necessariamente múltiplas réplicas. O actual Governo mostra evidentes dificuldades de interpretação porque continua obstinado em estrebuchar em redor das suas convicções políticas, fingindo não entender o teor da decisão e reincidindo na exibição de insuportáveis obsessões ideológicas. Exibe-se a tendência para um inqualificável ‘servilismo’ perante o exterior em contraponto com a defesa da sobrevivência do regime. O Governo coloca-se na ténue e obscura fronteira entre a má-fé, a traição, a asneira e a provocação.

As declarações do primeiro-ministro sobre o acórdão do TC são graves e preocupantes exibindo à saciedade o que repetidamente - por motivos meramente tácticos - é publicamente objecto de negação link . O Governo manifesta uma obstinação patológica acerca de um sector da sociedade onde se pode englobar – entre outros – os funcionários públicos e os pensionistas da CGA, dá mostras que não é capaz de aprender com os fracassos (este será um entre muitos que colecciona desde Junho de 2011).

Um facto que o acórdão do Tribunal Constitucional desmascara é o embuste político tecido pelo Executivo à volta do conceito de ‘convergência’. Na verdade, o acto de convergir será sempre um processo dinâmico e, pelo menos na sua concepção geométrica, significa a aproximação, por exemplo, entre duas linhas num determinado espaço. Ora, este governo não dispondo de espaço, e tendo prescindido de negociar o tempo, por opção própria, por convicção ou por submissão, resolveu alimentar a rábula de uma hipotética convergência que teria de acontecer, a contrario sensu, de modo abrupto, de súbito, devido a urgentes (mal resolvidas) ‘necessidades orçamentais’. Transformou a convergência num choque, num abalroamento, a que pretendeu vestir roupagens de uma oportunista ‘equidade’.
Ora, quando a ‘convergência’ deixa de ser um instrumento de construção do futuro para se transformar arremedo de ‘ajuste’ retrospectivo sobre o presente, existe neste conceito algo que está, à priori, ‘chumbado’, pelas inerentes contradições que encerra.

De facto, a ‘convergência’ enquanto caminho para a ‘concordância’ convive mal (conflitua) com situações de emergência e, nestas circunstâncias, facilmente se transforma num dissídio. É para este último estado – de dissidência - que o Governo tem apostado em fazer ‘convergir’ no presente, a brutal impetuosidade de submeter o País a um inexorável e cego ‘ajustamento sem alternativas’. Os danos são muito maiores do que aparentam no imediato. Na realidade, acrescentar à crise económica e financeira uma profunda e dolorosa fractura da coesão nacional, emergente de um nefasto e destrutivo ‘conflito de gerações’, é um dos aspectos que sobressai dos últimos acontecimentos político-constitucionais. Restringir o chumbo do TC a um ‘acto avulso’ em que tudo deva continuar como dantes é uma ‘leitura’ restritiva e enganadora do acórdão.

Resta saber se, perante os ocultos e inconfessáveis desígnios deste Governo, a Constituição – e os seus guardiões no TC – chega ou será capaz de obstar à presente, e cada vez mais nítida, perspectiva de um desastre social iminente. O Tribunal Constitucional travou momentaneamente um dos (vários) desvarios governamentais, mas não lhe compete resolver os graves problemas que persistem ou indicar saídas…

Todavia, no dia em que o Tribunal Constitucional deixar de caber no quadro democrático legalmente definido, todos saberemos (sentiremos) para aonde fomos empurrados. Pelos desmandos deste Governo mas também pelas nossas inertes e, em termos de futuro, comprometedoras condescendências.

De facto, o chumbo do TC à lei da convergência de pensões é a consequência de mais uma facada deste Governo no regime democrático. Sem tirar nem pôr. 

A Turquia e a laicidade traída

Recep Tayyip Erdogan, primeiro-ministro turco a quem a Europa e EUA concederam o título de muçulmano moderado, um oximoro por excelência, foi ajudado no saneamento das forças laicas – juízes e militares –, por Fethullah Gülen, um imã que lidera uma rede global de escolas e instituições de caridade com milhões de seguidores.

Foi Gülen quem apoiou Erdogan a combater a laicidade e que, por avidez pessoal, surge agora como seu adversário, depois de ter infiltrado sequazes seus nas Forças Armadas e na magistratura, quando o PM pretende tornar-se Presidente, em 2014, para se perpetuar no poder e erradicar os opositores.

Os escândalos que atingem altas figuras do regime, amigos de Erdogan e das 5 orações diárias, são um embaraço para as suas aspirações e uma oportunidade para o imã. Apegados aos cinco pilares do Islão, mas afastados por ambições pessoais, o atual PM vê na detenção de 24 pessoas, por corrupção, filhos de ministros, banqueiros e membros políticos do seu AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento), uma conjura.

A teoria da conspiração que Erdogan designa por “grupos internacionais” e “alianças sombrias”, abrange o próprio embaixador dos EUA e os suspeitos do costume, oposição kemalista, Forças Armadas e poder judicial, onde prosseguem as purgas.

O maior exército da Nato, fora dos EUA, é o turco, cuja depuração de elementos laicos e golpistas (é justo referir este último adjetivo), foi levada a efeito de forma metódica e eficaz. Neste momento a luta que se trava já é entre um muçulmano que está no poder e outro muçulmano que lho disputa.

O Estado ainda é oficialmente laico mas começa a ser perigoso urinar virado para Meca, degustar presunto ou matar a sede com cerveja. Para as mulheres já começou o calvário das violações e interditos. A exibição dos cabelos, da cara ou de pernas destapadas é já uma provocação lúbrica sob o olhar atento de Maomé.

A Turquia, sobre a qual, há vários anos, venho escrevendo, é um barril de pólvora que o proselitismo evangélico municiou para o tornar uma granada com retardador, a explodir versículos e a escrever a sharia com os estilhaços que cairão sobre as cinzas de Atatürk.

A cumplicidade com o Irão é hoje motivo de preocupação para a Europa e EUA mas a islamização forçada pelo poder era apenas a piedosa intenção de um islamita moderado que agora acusa os que defenderam o monstro e os seus aliados das mesquitas.

Era assim no fascismo


O Governo autofágico não governa mas prejudica

O Governo que devora um membro em menos de cada 40 dias, já lá vão 3 ministros e 27 secretários de Estado, ficará para a História como o mais incompetente e venal da democracia. Foi o que valeu a Santana Lopes!

Campeão de derrotas no Tribunal Constitucional, tem a sorte de ver apenas analisados os diplomas com que desafia a Constituição e não escrutinados os seus membros pelo comportamento. A bem dizer, isto não é um Governo, é um caso de polícia, que o PR, o único com alvará para o despedir, mantém por razões desconhecidas.

Perante a derrota 13-0, no TC, o presumível treinador ameaça repetir o jogo e continuar a insultar o árbitro, sem que o PR garanta a legalidade e saia do retiro de Belém donde emergiu, acompanhado da amantíssima esposa, apenas para ler em alternância um texto de Boas- Festas que soava melhor como jograis.

Braga de Macedo, conhecido por jovem agricultor quando foi o Vítor Gaspar de Cavaco Silva, com quem subscreveu a outorga a dois agentes da extinta PIDE, de uma pensão por «altos serviços prestados à pátria», descobriu na CRP e, quiçá, nos juízes indicados pelo PSD e CDS o carácter marxista que os acompanhou no chumbo de quatro normas inconstitucionais do OE-2014. Ensandeceu.

Do irrevogável Paulo Portas ficam para a posteridade, no CDS, a remessa da fotografia do fundador, do Largo do Caldas para o Largo do Rato, e a compra de um relógio cujos ponteiros rodam ao contrário; e no Governo, esquecido o caso dos submarinos, resta o guião a que Cavaco queria amarrar o PS e que, na sua irrelevância acabou no caixote do lixo, desprezado, inútil e impossível de reciclar como papel.

Este Governo, que o PR estremece, não deixa de subir impostos, de aumentar a dívida e o desemprego, e de conduzir o País para o abismo. Podia dispensar os mais conhecidos dos seus membros para exornarem os presépios. Deixavam de prejudicar o País.

sábado, dezembro 21, 2013

Humor

Com o país submerso no medo e na tristeza, valha-nos o humor como refrigério dos pecados que não cometemos.


Boas-Festas

Este sábado, o dia terá menos de nove horas e meia de sol. O solstício de inverno, momento que ao longo dos anos foi sendo associado ao Natal, ocorre hoje, às 17.11 horas. Bom solstício, caros leitores.

Solstício de Inverno

A frase

«Há muita gente a sofrer e o que mais preocupa é o desemprego».

(Maria Cavaco Silva – Visão – Pág. 34)

A síntese onde o génio, a sabedoria e a originalidade se reúnem.

Arancus ou caga-lumes

As vuvuzelas avençadas, inquietas com a decisão unânime do Tribunal Constitucional, parecem pirilampos tontos a debitar inanidades à volta dos holofotes das televisões.

Privados de argumentos, produzem ruído; à míngua de imaginação, ocupam espaço; à falta de razão, tartamudeiam e, do que dizem, não fica mais do que a luz fosforescente de insetos que voam em torno do Governo como arancus em noites cálidas de verão.

Hoje ouvi vários desses insetos coleópteros, a trocarem a luz por sons titubeados, num difícil equilíbrio entre o ridículo e a necessidade de mostrarem serviço.

Quando o governo chega a este estado, não descobre águias que voem nas alturas, tem de contentar-se com quem rasteje por avença sem voar mais alto do que os crocodilos.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

O Governo, o Tribunal Constitucional e a democracia

Nenhum Estado de direito atropela a Constituição, lei fundamental que não pode estar ao arbítrio das maiorias conjunturais.

Nenhum, é uma força de expressão. Em Portugal, um governo marginal que se expõe ao ridículo lá fora e ao desprezo cá dentro, não só a desrespeita reiteradamente como tolera os ataques de estrangeiros, e equiparados, como é o caso dessa luminária da ética que dá pelo nome de Durão Barroso.

As provocações e a chantagem não surtiram efeito. Não basta ter um PR e uma maioria para termos Governo. Precisamos de massa crítica, de gente íntegra e de políticos que tenham passado e não cadastro. Cavaco é o culpado pela degradação a que chegámos. Este governo é filho do seu ressentimento e falta de perfil para o cargo.

Quando o Tribunal Constitucional, assumidamente plural na sua composição, resolve, por unanimidade, chumbar um diploma do Governo, incluindo os juízes indicados pelos partidos que o compõem, não resta a mais leve suspeita de que eram grosseiros os erros e intoleráveis as infrações que fazem do OE-2014 um aborto jurídico.

Só a mais absoluta desfaçatez e a maior torpeza permitem aos governantes, que sólidos interesses e alguns medos mantêm unidos, permanecer no fingimento de que governam, depois da reiterada desautorização do TC.

Se a falta de discernimento impede o Executivo de apresentar a demissão, cabe ao PR tirar ilações, ainda que lhe custe perder o filho dileto sem prever o monstro que criou.  


quinta-feira, dezembro 19, 2013

Uma noite para recordar

A inépcia do Governo, que tinha acabado de trucidar três secretários de Estado sem ter ainda sinecuras para todos os que têm vergonha de continuar no elenco de Portas/Passos Coelho, revelou-se na reação à decisão do Tribunal Constitucional.

A deceção não escondeu a chantagem feita aos juízes e a derrota colossal de quem não tem rumo, memória ou vergonha. Tem apenas a agenda ideológica que só em ditadura é possível.

Uma jornalista perguntou ao porta-voz do Governo que comentário fazia à «decisão por unanimidade», tomada pelo TC. Perante a atrapalhação era altura de lhe ter perguntado que palavra é que não tinha percebido.

O ar do representante do Governo só rivalizou com um dueto saído do Asilo de Belém para desejar a duas vozes votos de Feliz Natal, um número que precedeu em poucos minutos a decisão jurídico-constitucional.


Factos & documentos


A mulher, a eterna ameaça e vítima ancestral

Há dias publiquei esta foto de Annette Kellerman (1886/1975) a promover o Direito das mulheres ao uso do maiô, em 1907. Era um fato de banho que apenas deixava o pescoço e os braços à mostra. Valeu-lhe a prisão.

A nadadora australiana, atriz e escritora, foi presa por atentado ao pudor. Não podia ser o que descobria a causa de tão cruel punição, era o medo da emancipação, da igualdade de género que, durante milénios, justificou a violência das instituições contra a mulher, como se a humanidade pudesse existir sem ela, como se cada um de nós pudesse nascer, sem ser asfixiado, de pernas atadas, como os homens a queriam.

No Concílio de Niceia (séc. IV), discutiu-se com “seriedade” e “pureza de intenções” a questão de saber se as mulheres tinham alma, e hoje, quando cada vez menos pessoas se interessam pela existência da alma, a mesma Igreja discute a alma do zigoto.

Almas do diabo!

Maria Montessori (1870/1952), pedagogista e pedagoga, mulher que estudei por dever profissional, foi das primeiras educadoras de crianças deficientes e a primeira médica italiana. As dificuldades que teve de vencer, as provocações e o assédio de que foi alvo!

A frequência de classes com homens, na presença de um corpo nu, era inadequada. Foi obrigada a realizar as dissecações de cadáveres sozinha, depois do horário dos colegas. Aos 18 anos, esta mulher era a minha heroína. O seu currículo na pedagogia científica e na filosofia educacional rivalizam com a coragem cívica. A sua biografia e bibliografia equivalem-se.

Na ditadura clerical-fascista de Salazar a mulher só podia ausentar-se para o estrangeiro com autorização do marido. Este administrava-lhe os bens, abria-lhe a correspondência, exercia um direito. A violação não era crime.

Quem tem medo da mulher não tem confiança em si. Quem quer aprisionar-lhe a alma não sabe ser livre. Ninguém é livre se exercer a escravatura. Temos sido um mundo de escravos na ilusão de que a violência é uma forma de liberdade e uma manifestação de poder, desconhecendo que na desigualdade de géneros se encontram as amarras que nos tolhem, a desonra que nos diminui, o opróbrio que nos envenena.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, dezembro 18, 2013

As mulheres são sempre culpadas


Não sei se é maior o nojo ou a perplexidade perante a violência misógina, a demência clerical e a injustiça que causa danos irreparáveis a metade do género humano.

As autoridades eclesiásticas mexicanas culpam as mulheres das agressões sexuais que sofrem, devido à roupa "provocativa" que vestem. A culpa é sempre de Eva, pensam as obtusas criaturas na mentalidade de quem vê o mundo pelos versículos do Levítico.

«Com decotes pronunciados e minissaias "estão provocando ao homem", disse o arcebispo de Santo Domingo, México, Nicolás de Jesús López Rodríguez, durante o sexto Encontro Mundial das Famílias. Maldita alegoria da maçã colhida no Paraíso inventado na Idade do Bronze.

- "As mulheres expõem-se a violações, a que as usem, que as tratem como um trapo velho, porque estão desvalorizando a sua pessoa e sua dignidade", disse por sua vez o bispo auxiliar de Tegucigalpa, Darwin Rudy Andino.

As informações são de 2009 e 2012. Pode-se dizer que são velhas como notícias, mas são recentes e reincidentes na violência contra a mulher, no incitamento à discriminação e no empedernido ódio que move velhos celibatários contra a libertação feminina. Dar tréguas é permitir-lhes reacender velhas fogueiras e novas perseguições alimentadas pelo ódio demente de antigos preconceitos. É absolver os agressores e culpar as vítimas, relevar os crimes  e responsabilizar quem os sofre.

Que raio der moral de sentido único, onde a liberdade é um crime para a mulher e uma bênção para os predadores masculinos!



As elites norte-coreanas prometem lealdade a Kim Jong-un

servilismo e medo

terça-feira, dezembro 17, 2013

Humor


Podiam poupar Portugal à humilhação pública


Um País à espera de nada, ou de outra coisa…!

O País tomou conhecimento do fim de mais um ‘exame regular’. A troika deu como positiva a mais recente avaliação do programa de resgate em curso. Tudo está (estaria) em ordem excepto a possibilidade de algumas medidas de consolidação orçamental serem ‘chumbadas’ pelo Tribunal Constitucional. O que no entender dos senhores do FMI, BCE e da Comissão Europeia poderá vir comprometer “crescimento, o emprego e o regresso aos mercados”… link

Trata-se de uma grosseira ‘operação de branqueamento’ das consequências de uma política de austeridade desmedida e destruidora do tecido empresarial e social nacional imposta pela troika e cujo reflexo mais visível não poderá ser acantonado nos ténues sinais de abrandamento do ritmo da recessão (em contraponto com uma mirífica retoma permanentemente exibida) mas antes nas taxas de desemprego que, em termos homólogos, não têm registado qualquer tipo de evolução positiva.

A troika utilizou a recente vinda a Portugal para tentar contornar as últimas declarações da Directora-Geral do FMI tentando atirar para cima do TC o ónus da situação criada pelo recente reconhecimento de Christine Lagarde “que a instituição errou na hora de calcular esses efeitos no desemprego e no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB)” link. Para sustentar tal perversão da racionalidade os avaliadores contam – como foi possível verificar na conferência de imprensa - com o envergonhado agrement do Governo português link.

Aliás, a vergonhosa rendição (cumplicidade) do Governo português à continuação do brutal programa de empobrecimento do País que ultimamente tem sido sustentada pela rábula do ‘fim do protectorado’ - uma especulação da autoria de Paulo Portas e adoptada pelo Governo - viria a ser taxativamente desmontada (contraditada) pelas declarações do presidente do BCE, Mario Draghi, no Parlamento Europeu quando, em resposta a uma pergunta do deputado Diogo Feio (do CDS), disse: “no que diz respeito ao período de transição, haverá um programa adaptado à situação nesse período e teremos de ver que forma esse programa terálink .

Ficamos, portanto, a saber que está na calha um “programa de transição” (facto permanente desmentido pelo Governo), o que ofusca totalmente a teoria do ‘fim do protectorado’ , uma arma exibida pelo Governo para tentar concluir a ferro e fogo – apelando ao consenso nacional – esta ‘primeira fase’ de um trágico ajustamento cujo fim não é previsível.
Todo este enredo tem uma peculiar particularidade. Torna indesmentível o estrondoso falhanço do programa de ajustamento. Não se trata de uma questão de ‘calibragem’ como o primeiro-ministro em entrevista recente tentou imputar os resultados deste bailout link.

Quando o primeiro-ministro há quase 3 anos tomou posse afirmou peremptoriamente que não podia falhar link. Na realidade falhou e estrondosamente. Findo este ciclo de sacrifícios, na putativa data de libertação em Junho de 2014, estaremos, mais uma vez, à beira de um outro programa (agora chamado de ‘transição’). Provavelmente segundo uma reformulada bitola para conseguir nova ‘calibração’. Isto é, um ‘novo programa’ adaptado a um País terrivelmente empobrecido, mais endividado, sem equilíbrios orçamentais, com o tecido empresarial destruído, desigual e socialmente injusto, em resumo, sem futuro.

Perante os destroços deste incontestável falhanço resta tirar as devidas consequências. Os portugueses não esperam deste Governo – e desta maioria – mais nada ou outra coisa.

José de Anchieta, os milagres e a santidade

José de Anchieta, espanhol de famílias ricas, amigo de Inácio Loyola, depois de várias peripécias, acabou a evangelizar o Brasil, que é a forma com que se designa a conversão à força, naqueles tempos em que se levava numa das mãos a cruz e na outra a espada.

O padre Anchieta ensinou latim aos índios, língua que não os fez eruditos mas os tornou cristãos. O padre José de Anchieta, com outros jesuítas, começou o difícil trabalho de conversão, catequese e educação com índios tapuias, pouco dados à cultura e à devoção, sobretudo devido aos assassinatos e pilhagem das suas aldeias, bem como às tentativas de escravização das tribos indígenas, ao longo da costa, pelos colonos portugueses.

José de Anchieta, em defunção desde 9 de junho de 1957, tornou-se padroeiro do Brasil e, dadas as funções, entendeu João Paulo II, quando agilizou a indústria da santidade, elevá-lo a beato, em 22 de junho de 1980.

Os brasileiros, isto é, o cardeal arcebispo de Aparecida, contente com a distinção, quer agora a canonização do ex-aluno do Real Colégio das Artes de Coimbra, ora património da Humanidade. O padroeiro popular do Brasil não pode ser menos do que o indefetível apoiante de Francisco Franco, Santo Escrivà e numerosos defuntos de duvidosa virtude. Nisso têm razão.

O processo de canonização do beato Anchieta, encalhado à espera de um milagre, está a acelerar, após a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ter mandado uma carta ao papa Francisco pedindo que o Apóstolo do Brasil seja declarado santo. Desta vez vai, porque «O prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, cardeal Angelo Amato, pediu que seja encaminhada, no mais breve tempo possível, a Positio, texto com a biografia de Anchieta, a relação de prováveis milagres e provas de fama de santidade» – lê-se na Tribuna do Norte, de ontem.


Ora, fama de santidade é o que mais tem. Venha o proveito.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Negócios...


Aguentar o ‘fartar vilanagem’…

“Às vésperas do Natal, a Autoridade Bancária Europeia (EBA, na sigla em inglês) ofereceu novo presente aos bancos que deveria monitorar, principalmente, depois do rombos orçamentários que causaram à região para que fossem salvos. A EBA informou que os banqueiros que ganhem até 1 milhão de euros por ano podem pedir aos reguladores nacionais para serem excluídos de uma limitação mais dura aos seus salários…link.

Chama-se a ‘isto’ brincar com o fogo. Esta tirada acerca da “limitação mais dura aos seus salários” é uma autêntica pérola. Segundo é ligitimo entender estaremos de falar de  'provocatórias' (será este o termo?) remunerações de mais 1 milhão de euros/ano. É aqui que poderá residir um terrível equívoco. Esta quantia não é propriamente um salário. Será, antes, uma prebenda retributiva pelo exercício de um exigente apostolado financeiro… Isto é, uma rebuscada 'técnica de captura’.

O que se está a passar é muito simples e linear: gestores financeiros, ocupando cargos de direcção nos bancos, são pagos principescamente e, por esse modelo retributivo, transformam-se em accionistas dessas instituições. ‘Alavanca-se’ (para usar um termo do economês) a transição de gestores a banqueiros. Que, em Portugal como no resto do Mundo, são selectiva e cuidadosamente ‘enxertados’ na estrutura accionista ou na reduzidíssima prole constituída pelas tradicionais - e incólumes – ‘famílias de banqueiros’ e assim dar continuidade e ‘estabilidade’ ao ‘projecto’ financeiro. Que hoje se resume numa frase: a submissão do poder políticos aos seus interesses. Quando somos confrontados com os pornográficos vencimentos dos banqueiros – situação que se pretende a todo o custo salvaguardar - é para este ‘peditório’ que estamos a dar (através dos depósitos e todo o tipo de outras operações bancárias).

Em contrapartida, os cidadãos podem esperar sentados porque novos resgates no sistema bancário devem vir a caminho. Com (ou ainda sem) o ‘modelo’ tentado - e parcialmente conseguido - em Chipre: o ‘esbulho’ dos seus depósitos, isto é, das suas poupanças. O estatuto de banqueiro - enquanto pessoa que assentou ‘banca’ - será uma ocupação (e não propriamente uma profissão) em vias de extinção semântica. De futuro, poderão ser considerados como uns novos sátrapas. De facto, além de recolectores e zeladores dos rendimentos dos cidadãos, são juízes em causa própria, nomeadamente sobre as suas sumptuosas retribuições. Apesar de tudo esta indignação poderá parecer supérflua. Não tardará o dia em que estes ‘marajás’ reivindiquem o self-service e avancem, sob os atónitos e indignados olhares dos cidadãos, em intensivas manobras de locupletação. De futuro – para evitar confusões e devassas dos cidadãos – deverão começar a passar pela caixa e levantar ad hoc o dinheiro que desejarem para governarem a 'vidinha' e promover os consequentes ‘investimentos’ (estratégicos, claro está!). Será um modelo - para uso exclusivo dos banqueiros - de uma retribuição 'libertina' inserida num incensado 'mercado livre'.

Quem deve saber explicar isto é o ‘apóstolo do aguenta’. Isso mesmo: o inefável Sr. Ulrich!. Que, certamente, um dia destes - do alto da sua sapiência - descodificará toda a imoralidade e infâmia deste imbróglio com aquilo que agora é usual e vezeiro: o estado de excepção. Uma excepcionalidade que poderá ‘justificar’, no entender do regulador europeu, a manutenção de majestáticas remunerações. A absurda confusão entre estas últimas e ‘limitações duras aos seus salários’ é a última acha para a fogueira no sentido de preservar uma ignominiosa situação de ‘morgadio financeiro’, que desde há muito se mostra um indisfarçável motor da crise em que vivemos na Europa (nomeadamente no Sul).

E, finalmente, porque a excepção prevista pela entidade reguladora europeia não consegue ultrapassar a mesquinha retoma de um dueto histórico medieval: a dos ‘ricos-homens’ e do ‘fartar vilanagem’…

As crenças, os crentes e a convivência pacífica

Há uns tempos fui convidado para um colóquio realizado sob os auspícios do «diálogo inter-religioso», circunstância que me fez refletir sobre a oportunidade da presença ateia num simpósio onde as conferências seriam proferidas por um budista, um judeu, um católico (padre), um protestante evangélico e um ateu.

Refletindo sobre o amável convite e, depois de ter pensado se a conferência de um ateu faria sentido, no âmbito de um diálogo inter-religioso, cheguei à conclusão de que, se alguém estaria a mais, seriam os crentes.

Lembrei-me do automobilista que ia em contramão na autoestrada e que, ao ouvir pela rádio que um condutor circulava do lado errado, pensou que eram todos. Acontece que no pensamento, tal como na condução, a verdade não se determina pelas maiorias. Não era por todos pensarem que o Sol girava à volta da Terra que Galileu estava errado ou a Terra interrompia o movimento de rotação.

Seja quem for que detém a verdade, aspeto que agora enjeito, pensei, e penso, que é mais fácil o diálogo entre quem não tem qualquer crença e mudará de opinião, se os factos ou a ciência o justificarem, do que entre os crentes, com verdades absolutas, irrevogáveis e eternas.

Os crentes estão cheios de certezas e os ateus crivados de dúvidas. Como método, parto do princípio de que todos podem ter razão ou de que esta não asiste a ninguém. Por isso entendo que a verdade não é passível de escrutínio. Esta postura serve-me no ateísmo e na política. A liberdade foi excomungada por Pio IX, o Islão julga-a obra de Satanás e os totalitarismos um furúnculo que corrói o poder absoluto.

Sem prejuízo das convicções profundas que me animam não abdico do contraditório. A intolerância nasce das verdades absolutas e da certezas eternas.

No fim desse colóquio, enquanto um dos crentes se furtou ao almoço, levando consigo o ódio, e outros crentes me olhavam com azedume, eu olhei-os com bonomia porque não combato os crentes, batalho contra as crenças.


domingo, dezembro 15, 2013

15 de dezembro – efemérides – o melhor e o pior

O melhor:

1640 – D. João IV é aclamado rei de Portugal;

1949 – A Alemanha Federal é abrangida pelo Plano Marshall;

1989 – O Prémio Pessoa é atribuído à pianista Maria João Pires.

O pior:

1914 – A Sérvia é tomada pelas forças austríacas (Grande Guerra 1914/18)

2005 – Cavaco Silva formaliza a candidatura à presidência da República;

2010 – Morre o jornalista Carlos Pinto Coelho, após uma operação à artéria aorta, no Hospital de Santa Marta. O Sr. «Acontece», grande comunicador televisivo e divulgador cultural, morre aos 66 anos.


A deterioração ética e as juventudes partidárias

Vão maus os tempos para a moderação e o compromisso, embora todos os cenários se adivinhem piores sem eles.

No pós 25 de Abril, as juventudes partidárias começaram por ser escolas de formação cívica e aprendizagem política, onde a generosidade se misturava com a intensa vontade de transformar Portugal, onde se discutiam ideias e o futuro do País. Jovens de ambos os sexos faziam currículo para o serviço público se, acaso, a ele fossem chamados.

A decadência moral alterou os partidos sem que estes, em vez de espelharem a realidade social, a transformassem, e os novos ricos exoneram depressa a ética, esquecendo, ainda mais rapidamente, a origem.

Assim, a formação cívica transformou-se em ambição pessoal e a preocupação com o País em sede de poder, acabando o currículo convertido em cadastro. A fraternidade partidária deu lugar a projetos pessoais de assalto ao poder e de confisco de sinecuras. Passaram a exigir quotas de deputados, benefícios sociais e isenção do Serviço Militar Obrigatório (SMO), uma rara oportunidade para pagar um tributo à Pátria, alargado a ambos os sexos, como instrumento de formação cívica e cimento da coesão nacional.

Há talvez nesta apreciação uma generalização excessiva, injusta para as exceções, em especial para Juventude Comunista, a única que votou contra o fim do SMO, quiçá na previsão de umas Forças Armadas mercenárias cujos problemas financeiros reduzem a uma perigosa caricatura.

Hoje, fica-nos a impressão de que as juventudes partidárias são as madraças onde medra o oportunismo, se aprendem os jogos do poder e se inicia uma carreira política através de conivências obscuras que reúnem bandos de assalto ao poder, convicção que o último Governo acentuou.

Depois da dolorosa experiência governativa em curso, o eleitorado tenderá a privilegiar as pessoas que fizeram currículo extrapartidário, em relação aos que começaram a colar cartazes, passaram por perfis falsos na Internet, se associaram em bandos de malfeitores e acabaram a sobraçar pastas ministeriais.

Nas próximas eleições não devemos confiar o futuro a quem não deu provas no passado.

sábado, dezembro 14, 2013

Uma 'luminosa' equidade...

Preço da electricidade sobe 2,8% em Janeiro para clientes domésticos. link.

A privatização a dar os seus ‘bons’ resultados. Ou a EDP a controlar – em tempo real - os eventuais ‘danos’ anunciados pelo vice-primeiro ministro sobre os produtores de energia, a inscrever no OE 2014. link

Para enfeitar, a cândida cumplicidade da entidade reguladora do sector (ERSE) que não tardará a aparecer na praça pública a anunciar aos trabalhadores que auferem o ordenado mínimo e à heterogénea e agonizante 'classe média' - cujos vencimentos foram congelados ou reduzidos - que os ‘salvou’ de um aumento brutal.

Por fim, o habitual e recorrente: caridosos ‘benefícios’ para os ‘mais’ desprotegidos, enquanto os esbulhos prosseguem, implacáveis, sobre tudo o que (ainda) existe (ou resiste).

A fé, a esmola e o poder do clero

O Islão, o mais implacável dos monoteísmos, insiste no 3.º pilar, “Zakat”, a obrigação de dar esmolas aos pobres, devendo cada muçulmano dar 2,5% dos seus rendimentos, se os tiver. Não é novidade do Islão, é herança judaico-cristã acolhida na cópia medíocre do cristianismo feita pelo arcanjo Gabriel, que voou junto a Maomé, entre Medina e Meca, em numerosas  viagens, durante 20 anos, até o obrigar a decorar o que viria a ser o Corão, enquanto conduzia camelos. Que seria das religiões sem pobrezinhos?

Não tenho aversão à esmola, tanto mais que tenho estado do lado de quem a pode dar e não do de quem é obrigado a solicitá-la, mas não tenho ilusões sobre o facto de se tornar a indústria de quem a administra, para evitar a luta de quem a recebe, e um instrumento para a conquista do poder.

Os Irmãos Muçulmanos estão na origem da sobrevivência de multidões onde a religião não deixa florescer um Estado laico, justo e solidário. Depositários da verdade única, tal como as duas religiões que copiaram de forma primária, resolvem as carências básicas na educação, saúde e alimentação. A liberdade, o álcool e o toucinho é-lhes vedado, mas o martírio, o Paraíso e o tapete para as cinco orações diárias ficam garantidos, enquanto as esmolas e o Corão impedem a modernidade.

Em Portugal, enquanto o Governo, com fortes motivações ideológicas, vai reduzindo o povo à miséria, não falta com o cheque às escolas privadas, pondo em xeque as públicas e a igualdade de acesso à educação. No que diz respeito à saúde e à assistência está em curso a transferência para privados, sobretudo IPSSs, com dinheiros públicos e gestão das Misericórdias. Os Irmãos Católicos, sem necessidade de recorrerem aos suicídios, até porque lhes falta o estímulo das 72 virgens e dos rios de mel doce, vão ocupando o espaço público, com fortes ajudas estatais, generosas doações pias e benefícios fiscais.

Em breve. não será possível encontrar um lar de idosos, um centro de reabilitação com internamento ou um hospital, que não tenha uma pia de água benta, à entrada de um doente, e um turíbulo a queimar incenso à saída do defunto.

Aposto duplo contra singelo que o Hospital de Santo António, no Porto, não tarda a cair nas mãos da Misericórdia, a grande proprietária imobiliária do país. Depois será fácil ao prestigiado Instituto Abel Salazar, mudar o nome honrado para o de um santo qualquer, e transformar-se na ambicionada Faculdade de Medicina da Igreja.

Por todo o País, enquanto se destrói o SNS, à sorrelfa, espreitam as Misericórdias, os Melos e o Espírito Santo, o do banco.  Os velhos, doentes e pobres serão a mercadoria que dará dinheiro ou garantirá indulgências.

Espero que os nossos netos respeitem e amem o Afonso Costa que um novo ciclo há de gerar.    

Apostila: Os Irmãos Católicos chamam-se Irmãos Mesários.

sexta-feira, dezembro 13, 2013

Factos e documentos


A inépcia é o paradigma deste Governo que prejudica a saúde, o ensino, a economia e tudo aquilo em que toca.

PASSOS COELHO: uma entrevista para iludir a necessidade de eleições…

O primeiro-ministro ‘concedeu’, ontem, uma extensa entrevista à TSF/TVI link que foi amplamente comentada pelos partidos políticos e comunicação social. link

O ‘timing’ da realização desta entrevista não é um assunto menor e muito menos inocente. O País está sob mais uma avaliação externa (da Troika) e, no plano interno, a instabilidade campeia quando, parte substancial do ‘plano’ governamental tecido à volta do equilíbrio orçamental está dependente de decisões do Tribunal Constitucional.

Deste modo, a entrevista foi dominada por um emaranhado de questões, contradições e indefinições de quem, desesperadamente, tenta manter o País em suspenso. Tudo começa pela tentativa de vender de mais uma ilusão (para quem quiser comprar). Condicionar os tempos futuros ao programado fim do programa de intervenção, definido nas condições que têm sido analisadas e criticadas no ‘memorando’ assinado em Maio de 2011, é mais uma manobra de diversão, para não lhe chamar um embuste.

De facto, em Maio do próximo ano, segundo tudo indica, o País não conhecerá qualquer ‘libertação’. A rábula do ‘fim do protectorado’ só serve para alimentar mais ilusões a incautos.

Alcançado o tempo calendarizado como o fim formal do programa de estabilização financeira pairam no ar duas inquietantes interrogações:
-A primeira, é se o País ao longo destes 3 anos de intervenção externa adquiriu, na realidade, a estabilização financeira ou se continua dependente dos apetites dos mercados, das instituições financeiras e dos grandes grupos económicos.
- A segunda, é mais simples e directa: do discurso governamental (e das palavras do seu primeiro-ministro) não se divisa qualquer indício de mudança política e estratégica no pós-troika, pelo que os portugueses só esperam (ou podem contar com) ‘mais do mesmo’.

Ontem, este rumo foi recorrentemente confirmado. Passos Coelho enunciou, aqui e acolá, um longo período de ‘resgate’ (10 ou 15 anos) em ‘contra-pé’ com os irresponsáveis festejos que promoveu à volta de um mirífico fim do ‘protectorado’ financeiro e um desmedido empolamento subsidiário de ténues e anémicos (pontuais?) sinais de recuperação económica.

Deu para perceber que o fim formal do programa só poderá trazer mudanças e resultados se existissem substanciais alterações das políticas (nacionais e europeias). E essas alterações – nos modelos democráticos – ‘acontecem’ com eleições. Finda a entrevista esta terá sido a ‘impressão’ residual e duradoura que esta última ‘jogada de marketing’, protagonizada pelo primeiro-ministro, acabou por suscitar. Isto é, o proclamado fim (desta fase) do programa de intervenção externa e a sua execução interna deverá têm de ser avaliadas nas urnas (e não em entrevistas ‘programadas’).

A entrevista tornou evidente o público e o notório. Não existe mais legitimidade democrática para caminhar em frente, depois de Junho de 2013, sem passar por um escrutínio. Depois de todos os dramáticos percalços que, ao longo destes 3 anos, fracturaram e desestruturaram profundamente a sociedade portuguesa surge, no presente, como incontornável o recurso ao veredicto popular.