A Turquia e a laicidade traída (2) - Comentário de «e-pá»

Por

É -Pá

Depois dos confrontos de Junho passado que começaram em Istambul e sacudiram muitas outras cidades da Turquia despertando a consciência dos turcos - e do Mundo - para a paulatina subversão do regime laico e concomitantemente para a sua substituição por uma califado.

O silencioso projecto cresce (e alimenta-se) à sombra de um vasto programa de corrupção política e económica (nomeadamente do sector imobiliário) que se instalou na Turquia mas terá longos braços espalhados pelo 'Mundo muçulmano'.

Estaremos, nos recentes acontecimentos, perante réplicas de problemas que não foram, efectivamente, resolvidos há 6 meses e que se agudizaram com a aproximação de actos eleitorais e a necessidade de consolidar os ganhos na trajectória de 'islamização'.

Os receios pairam, agora, sobre o poder judicial que ousou interpor-se na 'grande e misericordiosa caminhada para a islamização do poder' e poderá sujeitar-se a uma nova e sangrenta purga em paralelo com o recente afastamento de mais de 50 oficiais da polícia.

Perante estes indícios seria avisado começar a entender (e ver) o Estado turco como perdido para salvar a laicidade instituída - a ferro e fogo - por Atatürk, facto determinante para a aproximação deste País (verificada essencialmente durante a guerra fria) ao 'Ocidente'.

E sem alimentar qualquer tipo de discriminação religiosa avaliar a solidez das alianças estratégicas, ditas orientadoras para o 'Mundo Ocidental' (leia-se NATO) e que entraram definitivamente em choque (colapso) com a 'primaveril' evolução política dos Estados do Médio-Oriente e Norte de África, em progressiva e profunda islamização institucional e política.

Homero - se fosse vivo - e tentasse 'rescrever' a Odisseia constataria que Ankara não dista muito de Tróia. E, nos dias que correm, o cavalo deixado às portas do cidade pode muito bem chamar-se Erdogan.

Ou então, poderemos (só) estar perante coincidências resultantes de 'irmandades' (históricas, claro está!)..

Comentários

josé neves disse…
Caro,
A Odisseia é a viagem de regresso de Ulisses, e suas lutas ciclópicas com o mar, os gigantes, as sereias de mar e terra e os pretendentes passadas após a vitória de Tróia.
O acontecimento do mito do Cavalo de Tróia dá-se, como o nome indica, durante a guerra de Tróia e esta é contada-cantada na Ilíada.
Manuel Galvão disse…
Quem leu "O Museu da Inocência" do turco Pamuk viu nas entrelinhas o que se passa realmente naquele país: cidades grandes ocidentalizadas e laicas, arrabaldes e província com dois séculos de atraso. A suportar esta contradição, existe um exército à lá
egípsia...

O pior é que o nosso amigo americano quer forçar a entrada desta gente na Europa Civilizada...
JORNAL ECO disse…
Qual é a nacionalidade desse escritor E-pa? Portugal tem um Português diferente do brasileiro? Tive dificuldades para entender boa parte do texto.
e-pá! disse…
Caro José Neves:

Escolhi a Odisseia e não a Ilíada - embora ambos os textos versem sobre Tróia e o seu mítico cavalo - porque considero que mais do que uma batalha, nas terras do império otomano que colapsou estrondosamente no pós I Guerra Mundial, está definitivamente em curso uma 'viagem' de regresso à época pré Ataturk...
O que nos tempos pós guerra foi caracterizado pela ocupação pelos exércitos vencedores está paulatinamente a mudar para as mãos de um novo(velho) 'ocupante' que ditatá 'todas' as leis: o islão.
Pelo meio ainda existem (subsistem) esparsos resíduos da República fundada em 1923.

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