MadalenaGate
Carissimos (as),
Assisti ontem à conversa, na RTP1, da jornalista Márcia Rodrigues com convidados sobre a nova "questão mariana", das relações de Maria Madalena (MM), Jesus Cristo (JC) e o Código Da Vinci.
Entre os convidados, registei o exemplo vivo do que é, nos nossos dias, o fundamentalismo católico: as intervenções de J. César das Neves, tão fundamentalista quanto interessante economista. Estavam também presentes, uma estudiosa da questão, um universitário teólogo e o Padre Carreira das Neves que, com a sua simplicidade e realismo, acabou por ser o mais tolerante e humilde na análise sobre o êxito do livro de D.Brown.
Sobretudo, fiquei surpreendido com as dificuldades da Igreja em lidar com tal questão. Li o livro este verão. Na minha linha da praia, recordo-me, lia-se o livro em 5 dos 10 toldos. O livro já vendeu 20 milhões de exemplares em todo o mundo. Gostei da trama, interessei-me pela estética, mas confesso que o livro não abalou as minhas convicções sobre o assunto. Há questões sobre as quais tenho muitas dúvidas, como a eventual descendência de JC, de que não haverá provas; mas há outras que, por terem algum fundamento, nem vale a pena discutir, pois não se devem ignorar existências como as da Maçonaria ou a Opus Day.
Sempre tenho acreditado que a figura histórica de JC seja real, mas que foi obviamente trabalhada, ao longo do tempo, para garantir a sua pureza e a longevidade da mensagem religiosa. Claro que parte desse trabalho poderá ter consistido em suprimir a vida íntima de JC, incluindo a sua vida sexual. Suspeito disso. A face humana de JC é evidenciada sempre que interessa, à luz do Sol, mas outras partes são completamente submersas na luz da escuridão. Foi esse o trabalho da Igreja, ao longo dos séculos.
Já me surpreende a completa incapacidade da Igreja para lidar com o caso. O livro, em meu entender, não ataca a Igreja, nem põe em causa o discurso ou o papel de JC, nem tão pouco a sua mensagem religiosa. Pelo contrário, o livro é uma reafirmação clara dos propósitos terrenos e da boa nova espiritual, vincando a autenticidade da história de JC, se dúvidas houvesse.
Agora, não conta é a história que a Igreja conta. E conta uma outra, em que a Igreja limpou, rasurou higienicamente, a figura de MM e as relações desta com JC.
E o mais curioso, hoje, é descobrir que, pela primeira vez, a Igreja não tem resposta para um simples romance, uma peça literária vendida no supermercado à velocidade dos livros do Harry Poter. Agora, é esta incapacidade da igreja que começa a tornar o livro interessante!
Comentários
Quanto à resposta aos problemas do nosso tempo, a ICAR tem resposta. Infelizmente é má e retrógrada.
Basta ver o livro «Memória e Identidade» um monumento de reaccionarismo na sequência de Pio IX.
A este respeito vale a pena ler o Editorial do Público citado no meu artigo http://www.ateismo.net/diario/arquivo/2005_02_01_index.php#110962886709653668