Coragem, cobardia & oportunismos…

O Sr. José Carlos Pinto Coelho [assim por extenso para, nominalmente, o distinguir de José Pinto Coelho, dirigente do Partido Nacional Renovador e especialista em outdoors ultranacionalistas], é presidente da Confederação Nacional de Turismo [CNT] e, nesta qualidade [de parceiro social], esteve em S. Bento, com o 1º. Ministro, para opinar sobre as novas iniciativas [exigências] sugeridas por Bruxelas para combater a “crise portuguesa”.

À saída de S. Bento com a câmara em frente e o microfone à mão não se coibiu de, a par do “esfola-se” oriundo de Bruxelas, pugnar pelo nacional “mata-se”.
Para o citado dirigente associativo da indústria turística, a liberalização legislação laboral, a redução dos salários e outras medidas anti-sociais, são a pedra de toque para a retoma económica.
Nada de novo acrescentou às tradicionais posições vindas das confederações patronais. Só não se percebe [mas a vida surpreendo-nos…] como um cidadão tão apostado em destruir a coesão social passa por um parceiro “social”.

Adiante.
De inovador foi a sua labiríntica linguagem. Acérrimo defensor do “empreendedorismo” [“palavrão” criado pelo economista Joseph Schumpeter para qualificar inovação e criatividade] julga que a geração de riqueza passa [obrigatoriamente] pela desvalorização do "mundo do trabalho".
Até aqui nada de inovador. Eis senão quando, na referida prestação televisiva, revela uma debilidade empresarial anódina. Os empresários sentem, segundo sublinhou, falta de coragem para investir… porque os “papões” dos trabalhadores [com as suas “mordomias” sociais e salariais] os intimidam...

Utilizou, repetidas vezes, a expressão “falta de coragem” para justificar a inação empresarial e a consequente debilidade da nossa economia. E o que faria [aos empreendedores] tornarem-se corajosos?
- … a liberalização legislação laboral [possibilitando os despedimentos “fáceis” e a supressão de indemnizações…], a redução dos salários, etc.

Na verdade a perda de coragem dos empreendedores, perante situações económicas e financeiras mais complexas, revela uma insolente perda de confiança do sector empresarial, na capacidade dos seus próprios associados em desempenhar um papel económico e social.
Revela, ainda, que [o sector empresarial que temos] só é capaz de agir [e reagir] longe dos processos de uma real competitividade que, para o público, tanto apregoa. Prefere conquistar melhores índices de produtividade à custa da desvalorização do “mundo do trabalho”. Não tem “coragem” para outros feitos. E, em Bruxelas, têm quem os entenda.

Shakespeare, escreveu:
“Os cobardes morrem várias vezes antes da sua morte; O homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.”
Na verdade, hoje, na TV assistimos a uma dramática [teatral] representação deste aforismo.

Comentários

ana disse…
O que este pretende já tem barbas e também já se faz através dos recibos verdes, essa praga. Mas ele é um homem sério e quer tudo preto no branco. Assim, os nossos "empresários", cheios de qualificações a todos os níveis, seriam livres de contratar por menos de € 475 e despedir sem justa causa e sem indemnização, essa coisa horrível que não os deixa dormir descansados. Ah, aí sim, aí estes corajosos criariam muito emprego nojento e sem regras. E é esta a mentalidade que rege os nossos "empresários", "empreendedores" e "investidores" que só na selva estão bem. Mas em cima da árvore e de arma apontada, claro.
FH disse…
medida profilactica contra os falsos recibos verdes era acabar com o subsidio de férias e de natal aumentando as retribuições pelo trabalho em 1/6. Claro está que a precariedade no emprego para os falsos recibos verdes mantinha-se, mas a pouca vergonha de ter falsos recibos verdes para não pagar estes subsidios porventura acabava.

Se calhar as pequenas empresas, agradeciam para não terem os rombos de tesouraria nesses meses pagando o dobro aos seus trabalhadores, os trabalhadores agradeciam porque viam o seu salário "aumentado" (recorrendo menos ao crédito para ser pago aquando dos subsidios, com incuprimentos sucessivos e bem taxados no juro), e menos passível de haver entidades patronais esquecidas de efectuar o pagamento desses subsidios. Os falsos recibos verdes viam pelo menos os seus direitos salariais garantidos. Quanto aos verdadeiros recibos verdes tudo na mesma pois claro.

Ainda não pensei bem nos contras, confesso.

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