Notas soltas: Setembro/2010

Casa Pia – Quando já acreditávamos na vitória da justiça e na punição dos crimes, surgiram dúvidas e a dolorosa suspeita de que às vítimas a quem destruíram a juventude se podem ter juntado inocentes a quem negaram o sossego na velhice.

Irão – A condenação à morte, por lapidação, e a reincidência nas chicotadas, fizeram de Sakineh Ashtiani, condenada por alegado adultério, o símbolo da humilhação feminina pelas teocracias e a bandeira da civilização contra a barbárie.

Laicidade – Estão a nascer movimentos clandestinos nos países muçulmanos que, apesar do risco de tortura e morte, exigem a separação entre o Estado e a Igreja, reclamam liberdades e exigem o fim das teocracias corruptas e criminosas.

ETA – O anúncio de tréguas da organização terrorista basca seria uma excelente notícia se o seu passado não fosse uma sucessão de promessas traídas e acordos rasgados numa deriva cruel que perfaz 829 mortos.

Protestantismo – O pastor evangélico que ameaçou queimar o Corão, no dia 11 de Setembro, é um demente que ignora que o Deuteronómio e o Levítico condenam à lapidação a mulher adúltera. É um talibã da concorrência.

França – A manifestação xenófoba contra os ciganos é um acto desesperado de Sarkozy que pensa, assim, neutralizar a extrema-direita de Le Pen e acaba por dar uma imagem de intolerância racista que fere o espírito europeu.

Turquia – A vitória do referendo para alterar a Constituição, que tanta alegria levou a Bruxelas, lembra o referendo da Constituição Política de 1933, em Portugal. Esperemos que o regime laico não se transforme numa teocracia.

Suécia – A eleição de 20 deputados da extrema-direita é o arrepio que nos chega de um dos mais tolerantes países europeus, a lembrar que não há democracias eternas nem regimes vitalícios.

CRP – Se há instrumento que em Portugal tem servido a alternância do poder e a consolidação da democracia é a Constituição da República. Pretender alterá-la ao sabor das lutas partidárias não é só inconsciência, é entrar num PREC de sinal contrário.

Cavaco Silva – Gere os silêncios e os ruídos com notável eficácia, para que os eleitores esqueçam este mandato e lhe confiem um segundo, mas não tardará a ter de despir o fato de PR para responder a perguntas que o respeito pela função tem impedido.

SCUT – Não se percebe a insistência do PS em prolongar a manutenção de vias gratuitas, contrariando a posição correcta do PSD. Face às dificuldades orçamentais para quê manter uma discriminação que beneficia os mais ricos das regiões mais pobres?

TGV – A suspensão da via de alta velocidade vai isolar Portugal, mais uma vez. A linha ferroviária que deve ligar-nos à Europa é fundamental para o nosso futuro e para evitar que fiquemos, de novo, orgulhosamente sós.

Deduções fiscais – Face às necessidades orçamentais não se percebe o recurso a outras fontes sem abolir os benefícios fiscais, em sede de IRS, que favorecem quem mais ganha sem deles poderem beneficiar os que auferem baixos rendimentos.

Coreia do Norte – O partido único designou como sucessor do ditador Kim Jong-Il, de 68 anos, o filho mais novo, Jong-Un, de 27 anos, preparando-se para dar sequência à sucessão dinástica do exótico Partido [Comunista].

Banco do Vaticano – A morte suspeita de João Paulo I e a negação da extradição do arcebispo Marcinkus, favorecem as acusações sobre a lavagem de capitais reveladas no livro «Vaticano, S. A.» e agora investigadas pelas autoridades italianas.

Brasil – A vitória de Dilma Rousseff para a presidência não resulta apenas do prestígio de Lula, é um sintoma da evolução civilizacional do País nos dez anos do carismático presidente, que permite colocar uma mulher no mais alto cargo do Estado.

Al-qaeda – O rapto de cidadãos europeus e os resgates obtidos financiam novos raptos e a escalada de terror que a mais implacável organização terrorista prossegue ao serviço do crime e da difusão da fé.

Venezuela – A lei que fez com que os votos das zonas rurais valham mais que os das zonas urbanas é uma exótica concepção de democracia mas as eleições provam que o pluralismo é a única certeza de eleições livres.

Portugal – Só a total falta de noção do risco financeiro ou o fanatismo partidário podem ter levado destacadas figuras a afirmações irresponsáveis e dirigentes políticos a perderem a compostura.

Reino Unido – A vitória tangencial da ala esquerda do Labour parece uma boa notícia mas o Partido é ingovernável com uma maioria sindical contra os militantes e deputados, como se provou no passado com o longo afastamento do poder.

Orçamento de Estado/1911 – Já importa menos saber se é justo do que saber se é suficiente.

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