Belém e o 'espectáculo' de hoje….

O presidente da República dedica-se, no meio de uma crise política, a fazer aquilo que todos verberamos: ‘encanar a perna à rã’.

Já não basta a evocação por parte da coligação de Direita de um oportunista ‘Consenso Constitucional’ para sustentar o Direito ‘natural’ do Centro Direita em eternizar-se no poder, para estarmos agora confrontados com um espúrio ‘engonhanço’ presidencial.

O passatempo a que o inquilino de Belém dedicou ontem será muito semelhante a uma prática que tem uma marca política indelével e vergonhosa mas também longa (foram quase 48 anos!). Trata-se do jargão corporativista que definia o auscultar das ‘forças vivas da Nação', num período de perseguição ou proibição de partidos políticos. 

Hoje, quando se observa o corrupio em Belém de banqueiros (ou de administradores de bancos) assalta-nos a dúvida sobre o verdadeiro estado da Nação. A última vez que os vimos nestas romagens foi em 2011 quando o País foi cercado e posteriormente capturado pelos ‘credores’. A substancial diferença na romaria a Belém de ontem e a de há 4 anos é a ausência de Ricardo Salgado, reconhecido promotor político do actual Presidente. Esta ausência é reveladora da promiscuidade política que poderá estar a 'infectar' o regime.

Será que a anunciada recuperação económica, o equilíbrio orçamental, a diminuição do desemprego, a dívida sustentável, os 'cofres cheios', etc. são números confeccionados que não passam de um mito construído a martelo? 
Se a resposta for sim está plenamente explicada a histeria da Direita à volta da constituição de um Governo saído das eleições de 4 de Outubro. Nesse entendimento de ocultação a crise deverá prolongar-se porque objectivamente serve interesses muito específicos, mas pouco transparentes. Evita o desmascarar das múltiplas fragilidades que lateralmente têm sido anunciadas.
Se a resposta for não, se o País efectivamente se reencontrou com a normalidade (democrática), se recuperamos a soberania, se ganhamos credibilidade, urge perguntar do que estamos à espera?

Voltando ao 'espectáculo' que o País, através dos meios de comunicação social, teve oportunidade de assistir durante esta quarta-feira, será difícil compreender a 'calma' que tomou de assalto o palácio de Belém.
Quando se convocam os representantes dos principais bancos com praça em Portugal para definirem o ‘interesse nacional’ está tudo dito sobre a ‘financeirização’ da política e ficamos plenamente esclarecidos dos métodos que o Presidente da República utiliza para a tomada de decisões.

Comentários

Manuel Galvão disse…
Começou muito antes, no tampo de Guterres. Era a isso que ele se referia quando falou em pântano. O Champalimaud queria vender uma companhia de seguros (ou seria um banco) e os banqueiros portugueses não queriam, tendo feito fila com seus carrões no Terreiro do Passo...
e-pá! disse…
A financeirização, no caso da vida dos cidadãos, foi recentemente desenvolvida através do cartão de crédito e atingiu o seu auge na década de 80-90, a par e passo com uma anunciada 'globalização', colocando as pessoas e as famílias perante o crédito fácil e nas mãos dos credores.

Na vertente da financeirização política, na Europa, é muito mais recuada e basta olhar para a cidade-Estado de Veneza dos doges ou para a Flandres dos usurários para tirar conclusões. Portugal, decorrente da saga dos Descobrimentos - que alterou radicalmente o comércio mundial - que nos trouxe o acesso a consideráveis fontes de riqueza, fez-nos chegar a meados do século seguinte completamente endividados (perante o incipiente 'sistema financeiro' de então).

O esquema montado que gira à volta da influência do sistema financeiro na política é ancestral tendo muitas vezes acarretado desastrosas situações de insolvência aos Estados, acabando por colocar em risco a sua soberania e tornando-se no motor de cíclicas guerras, mas conseguiu persistir incólume durante séculos, raramente tendo sido questionado ou regulado. E se digo raramente é por respeito para com os pensadores filosóficos, políticos e económicos a começar pelos socialistas utópicos desde Saint-Simon a Robert Owen, passando por Engels e Marx e acabando na conciliatória 'escola keynesiana'.
Com o advento do monetarismo e do neoliberalismo (Reagan, Thatcher e Blair) tem sido a total 'desbunda'.

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