Carta de um delator, Marcelo Rebelo de Sousa

Das 6 cartas escritas por Marcelo Rebelo de Sousa a Marcelo Caetano, [documentos]* numerados de 492 a 497, destaco pelo conteúdo pidesco a correspondente ao n.º 495.

Excelentíssimo Senhor Presidente (do Conselho),

Excelência,

Pedindo desculpa do tempo que tomo a Vossa Excelência, vinha solicitar alguns minutos de audiência (...). Seria possível, Senhor Presidente, conceder-me os escassos minutos que solicito? (...) Acompanhei de perto (como Vossa Excelência calcula), as vicissitudes relacionadas com o Congresso de Aveiro, e pude, de facto, tomar conhecimento de características de estrutura, funcionamento e ligações, que marcam nitidamente um controle (inesperado antes da efectuação) pelo PCP. Aliás, ao que parece, a actividade iniciada em Aveiro tem-se prolongado com deslocações no país e para fora dele, e com reuniões com meios mais jovens.

Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades «soaristas».

O discurso de Vossa Excelência antecipou-se ao rescaldo de Aveiro e às futuras manobras pré-eleitorais, e penso que caiu muito bem em vários sectores da opinião pública.

Com os mais respeitosos e gratos cumprimentos,

Marcelo Rebelo de Sousa

(in «Cartas Particulares a Marcello Caetano», organização e selecção de José Freire Antunes, vol. 2, Lisboa, 1985, p. 353)

Nota: Confirmei na Biblioteca Municipal de Coimbra a veracidade desta carta.

Comentários

e-pá! disse…
A delação a par da mesquinhez, da inveja, da hipocrisia, da mentira, etc, foi um permanente instrumento de promoção pessoal, profissional e política.
Mas o caso relatado não abona em prol da decência e verticalidade de carácter do seu protagonista (que ousa no presente querer partir para 'outros voos') e revela notória incapacidade de intuição política, pois em 2013, a quando do Congresso da Oposição Democrática em Aveiro, o 'marcelismo' já não tinha qualquer idoneidade (nem para aqueles que o julgavam um possível sucedâneo e continuador do decrépito Estado Novo).
Na altura da delação já nem os liberais com assento na extinta Assembleia Nacional acreditavam no 'marcelismo' e sofriam consequências políticas dessa incredulidade, nomeadamente a marginalização e o isolamento institucional, para além das diatribes caceteiras do almirante Tenreiro. O infame é tanto mais notório quanto é verdade que o filhote do Sr. Governador Geral de Moçambique, logo após o 25 de Abril, surge de braço dado com um dos rostos dessa ala 'liberalizante', i. e., Francisco Sá Carneiro, como se tivessem sido uns 'compagnons de route'.
Na gíria popular este é o exemplo caricato do querer estar bem com deus e com o diabo (... não vá o 'diabo' tecê-las!)

A delação personalizada, fulanizada e interesseira é tão ou mais mesquinha do que a institucional (daquela que foi 'oficialmente' promovida pela policia política). Ambas intoleráveis porque têm por princípio base no desrespeito pela liberdade dos 'outros' e, ao fim e ao cabo, ambas têm por objecto venal ser premiadas. Ou melhor, ilegitimamente premiadas. Só que a delação personalizada, referenciável e interesseira pode ser rubricada pois aspira a ficar guardada no silêncio dos 'deuses', pretende preservar para futuro a capacidade de ser 'branqueada' e espera passar dissimulada em futuras montagens cénica e ofuscada pelo 'barulho das luzes'.
Todavia, nem sempre o registo documental (histórico) preserva da curiosidade pública, da investigação e do escrutínio os ditos e celebrados angelicais portadores de intangíveis virtudes morais e, naturalmente, bafejadas pelo beático selo cristão.

Algum dia - pode demorar muito - a 'máscara' (a teatral 'persona') cai.
E o delator que andou vários anos a per sonare nas televisões e jornais usando e abusando de uma fictícia clarividência e de uma imaginária inocência... poderá não ser mais do que um insaciável 'comedor' de virtuais vichyssoises.
Agostinho disse…
Note-se a compostura que adoptou para estes "perturbantes" dias de democracia,depois das sessões televisivas dominicais de insuperável erudição, tipo "sabe-tudo", que rodou pelas Televisões como nenhuma telenovela, entrou-se na fase decisiva. O sharing pessoal vai aumentando até às eleições: o senhor professor cresce, agora, em respeitabilidade. A não ser que, num arrebatamento de iluminado, se lembre de chamar as televisões para um bungee jumping na ponte do Tejo a eleição para Belém está no papo.

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