Paris, 2015.

O gravíssimo atentado terrorista em Paris, no passado fim-de-semana, atingindo o coração da Europa, levanta muitos problemas para além das questões imediatas de segurança.

Interessa, em primeiro lugar, entender quais os objectivos do Daesh ao levar tão longe esta bárbara e selvática agressão. Não basta prometer uma resposta dura e exemplar, entenda-se, de 'retaliação'. 

Deve o Mundo civilizado ir mais além e orquestrar um plano de emergência internacional que clarifique e responda a esta crítica situação introdutora de altos níveis de perturbação na vida dos cidadãos. 
Não devemos cometer os mesmos erros, despoletados pelo atentado contra as torres gémeas em Nova Iorque, e que levaram a uma abrupta intervenção bélica no Médio Oriente, com os resultados que hoje estão à vista. 

O ‘jihadismo’ não é fácil de combater porque a dita ‘civilização ocidental’ tem dificuldades em o entender. Existe a sensação que fomos colocados perante um violento recuo à Idade Média lançando sobre a Humanidade um período de profundas trevas. Saber que uns grupelhos de fanáticos suicidas são capazes de infundir um terror tão vasto é preocupante.

A França será – no meio desta tragédia – provavelmente o país que mais ‘experiência’ terá no lidar com períodos de terror. Será a sua remota herança de Robespierre. Mas os tempos são outros e sabemos que, agora, não haverá um ‘Comité de Salvação Pública’. O momento exige medidas para além das manifestações de solidariedade aos franceses, como sucedeu recentemente no atentado do Charlie Hebdo, e a extrema gravidade da situação deverá deslocar o centro de decisão de Paris para a Nova Iorque - ONU. 

A bárbara saga jihadista não pode ser combatida somente pelos agredidos, pelas vitimas directas quando, de facto, estamos todos sob a mira de uma guerra sem quartel e sem tréguas. 
As medidas a tomar com a maior urgência terão de abranger um vasto leque de iniciativas (políticas, sociais económicas e financeiras) e não podem ser confinadas a duras represálias. 
Uma anunciada escalada de violência poderá suster temporariamente o terror, enquistando-o, mas não resolverá o problema de fundo.
Será necessário, por exemplo, conhecer como os jihadistas armam e financiam este terror e aí surgem imensas dificuldades. 
E saber como e porquê a religião adstrita ao dinheiro a rodos tem, no actual momento, um terreno de fácil germinação e uma vasta capacidade de recrutamento.
A ignorância é a mãe de todos os fanatismos e o berço de todas as desgraças, não sendo fácil de reverter. 
E, por outro lado, as desigualdades sociais são factores potenciadores de toda esta escalada de terror.

A questão fulcral reside no acumular de erros no Médio Oriente desde o final de I Guerra Mundial quando os vencedores procederam ao desmembramento do Império Otomano. A ‘balcanização’ desta região deu origem a uma ‘espiral de subdesenvolvimento’ que ainda perdura. Mais tarde, na sequência da II Guerra Mundial, introduziu-se um outro factor de perturbação com a criação do Estado de Israel. As estas mudanças, nem sempre muito justa e ponderada, será necessário acrescentar um outro facto de relevante importância estratégica - o petróleo. 

O Médio Oriente tornou-se desde meados do século passado um ‘pivot energético’ altamente condicionador do desenvolvimento das sociedades ocidentais e da sua industrialização, mas praticamente indiferente para as economias locais seja pela corrupção, nepotismo dinástico e incompetência. Não é tranquilizante – nem oportuno – ter uma cada vez mais nítida percepção de que o Daesh é uma consequência diferida da invasão do Iraque.

Pensar que é possível resolver qualquer problema ignorando, ou passando ao lado de erros e intervenções ocorridas no passado será contornar e adiar questões emergentes (variadas) de que actos bárbaros e terroristas – como o verificado em Paris neste fim-de-semana - são uma trágica expressão visível e chocante, mas não a única. 
Ninguém está apostado na justificação do injustificável mas a percepção das causas poderá ser fundamental para dar boas e atempadas respostas. Hoje, temos a certeza de que dentro de uma multiplicidade de respostas possíveis (e isso ninguém ignora) a mudança de políticas por parte do Ocidente (do Mundo) em relação às questões do Médio Oriente é inadiável. Por isso a centralidade dessas respostas deve ‘deslocalizar-se’ de Paris para a ONU. Se Bush em 2003 tivesse adoptado esta elementar postura no âmbito internacional a situação no Médio Oriente poderia ser substancialmente diferente. 

E, finalmente, o bárbaro atentado terrorista de Paris deverá ser analisado e enfrentado com a serenidade que o momento exige, deixando pousar as (naturais) reacções emotivas, que permitam evitar a transformação do Mundo num espaço concentracionário. 
Se as medidas preventivas que entretanto deverão surgir, ficarem pela manu militari e uma drástica limitação dos direitos e garantias dos cidadãos é fácil de perceber que o terror acabou por colher frutos, na medida em pode vir a determinar um enorme recuo civilizacional. 

Comentários

Sarkozy já propôs a pena de morte. É esse recuo civilizacional que assusta tanto quanto a demência islâmica.

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