sábado, maio 31, 2014

O Incompreensível, o Irrevogável e o Mudo

Enquanto Mariano Rajoy vai aprovar «um plano de US$ 8,6 bilhões na próxima semana para criar empregos e baixar o principal imposto corporativo de 30% para 25%, a fim de tornar as empresas mais competitivas», Passo Coelho e Paulo Portas lambem as feridas de quem não sabe governar dentro da lei e, segundo parece, querem apenas vingar-se.

São marginais à solta com um PR desaparecido e mudo. O incompreensível Pedro disse que não compreendia a decisão do Tribunal Constitucional, que reiteradamente desafia, e cuja decisão qualquer aluno do 1.º ano de Direito antecipava, enquanto Paulo promete estudar o acórdão.

Em Espanha há um plano para resolver problemas, em Portugal há um para desmantelar o Estado. Passos Coelho, rudimentarmente alfabetizado na madraça juvenil do PSD, não compreenda as leis, e Paulo Portas, que as conhece, é cúmplice.

Desolador é imaginar o PR, em estado catalético perante o efeito das eleições europeias, mudo perante os resultados em que também foi julgado, pelo apoio ao Governo, abúlico face ao chumbo do Orçamento de Estado que promulgou sem olhar para a CRP, incapaz de justificar o lugar que ocupa e as funções para que foi eleito.

Com o Governo cego, a maioria surda e o PR mudo, é urgente alijar tais deficientes e mudar o Governo, a Maioria e o Presidente, para regressarmos a um Estado de Direito.

A irrevogável vantagem de ser poder.


Constituição e Governo

Como é possível que o PR proteja um Governo que não consegue elaborar um único Orçamento de Estado compatível com a CRP?

Estamos entregues a gente que, jurando cumprir e fazer cumprir a CRP, a violam com a violência de um malfeitor e a ignorância de um merceeiro.

sexta-feira, maio 30, 2014

30 de maio – efemérides

1431 – Joana d’Arc foi queimada na fogueira. Cinco séculos depois, a fim de estimular o nacionalismo francês, foi transferida para o Paraíso, pelo Vaticano, e canonizada.

1958 – O general Humberto Delgado e Arlindo Vicente firmam o pacto de Cacilhas que viabilizou a candidatura única da Oposição democrática, protagonizada por H. Delgado.

1994 – João Paulo II (JP2), papa misógino, declara um «não irrevogável e definitivo» à ordenação de mulheres, respeitando o significado de «irrevogável» até ao fim.

2009 – Morre Luís Cabral, primeiro presidente da Guiné-Bissau, irmão do grande patriota e anticolonialista Amílcar Cabral.


“The Day After Tomorrow…” [*]



A Direita parece (aparece) entusiasmada com a crise interna do PS. Nas suas contas este acidente de percurso parece encaixar-se perfeitamente no imediatismo táctico que domina a sua visão política nacional. A clarificação que o PS está a tentar fazer dá-lhe ‘espaço’ para alimentar a ilusão de que é possível sobreviver daqui a 1 ano ao escrutínio dos portugueses. 
Ninguém adivinha como e quando os socialistas resolverão o problema criado com os resultados eleitorais de domingo passado. Há, todavia, uma primeira constatação. O PS está a tentar tirar ilações políticas desse acto eleitoral que foi sem margem para dúvidas uma pouco participada, mas significativa, avaliação do resgate ainda em curso. Não adoptou uma ‘política de avestruz’ como fez a Direita.
O problema é que nestas eleições (europeias) não estava só em causa a pública reprovação das escolhas deste Governo para enfrentar a crise portuguesa. 
O âmago da questão seria a compreensão das ‘atitudes’ de diversas instâncias europeias (Comissão Europeia, Eurozona, BCE e Conselho Europeu) e o inventariar outro tipo de respostas que poderiam (deveriam) ter ocorrido por parte do Governo português. A coligação governamental conseguiu escamotear questões que eram à partida decisivas para o nosso futuro enquanto País integrado numa UE em desagregação. Problemas como por exemplo a restruturação da dívida pública foram arvorados em tabus (cá dentro) quando são motivos de análise de políticos (não estou a falar de economistas) estrangeiros convidados a falar sobre Portugal (ver ‘aula’ de Bill Clinton em Lisboa  link).
E o grande erro da(s) oposição(ões) foi embarcar na desvalorização dessa restruturação (da dívida pública e privada) durante a campanha eleitoral.
O PCP e o BE apresentaram 'soluções' que estão [hoje] desajustadas porque só teriam viabilidade se tivessem sido encaradas e decididas em 2011. A saída da zona euro, que largos sectores da esquerda defendem, teria hoje custos económicos, sociais e financeiros incompatíveis com a preservação de um Estado Democrático.
O PS mostrou receio da reacção da Direita muito ciosa dos seus 'ajustamentos'. Esta (a Direita)apressou-se a confundir 'reestruturação' com ‘calote’ e deste modo continuou a alimentar um perverso tabu.
A alternativa democrática às políticas de Direita é, como tem sido referido à saciedade, o crescimento económico, que seja capaz de nos libertar da pobreza ‘induzida’ e, concomitantemente, resolva o problema do desemprego.
A saída do programa de intervenção externa - folcloricamente festejada pela Direita - tem de ser encarada com frontalidade e profundamente avaliada em todas as suas consequências (a curto e médio prazo). Não é possível desenvolver o País com as baias que os mercados nos querem impor. Nas condições negociadas (aceites) por este Governo e que integram a sua ‘estratégia’ (DEO) não sairemos da cepa torta.
A alternativa às políticas deste Governo deve ancorar-se em questões essenciais tais como reestruturação (renegociação) da dívida, o papel do BCE, o Pacto Orçamental, a ‘regra de ouro’, etc., e não em oito dezenas de medidas avulsas, pretensamente ‘compensatórias’ dos malefícios dos últimos 3 anos, para que, no fundamental, tudo continue na mesma link .
 
É preciso não continuarmos a ser ingénuos ao ponto de tentar ignorar o previsível comportamento dos mercados financeiros. Até Outubro de 2015 vão mostrar-se ‘calmos’ e remetidos para uma postura de 'espreita', entremeada com periódicos elogios à nossa capacidade de ajustamento (à pobreza). Após as eleições legislativas – e mais duramente se não correrem bem - vão de novo ‘enervar-se’ e aparecer a fazer exigências, sob o espectro da bancarrota. A saída é portanto um círculo vicioso.
 
A ‘questão interna’ que agita neste momento o PS passa por esta linha fronteiriça. Na verdade trata-se de uma inadiável escolha entre cuidados paliativos que têm sido propostos até aqui e a outra face da moeda, isto é,  a capacidade política de gerir e controlar uma ruptura à volta de reformas democráticas e socialmente inclusivas (‘desenvolvimentistas’).
A via do 'engonhanço' esgotou-se. O tempo é, nestes próximos dias, de fracturas... 

[*] – Filme americano produzido em 2004 por Roland Emmerich, cuja acção decorre num clima gélido (expedição na Antártica) e gravita redor da previsão de dados sobre o aquecimento (global) e acaba por anunciar catastróficas tempestades em vários locais do planeta…

Desabafo:

Acompanho a política há mais de cinquenta anos e, se resisti aos apelos partidários, não abdiquei jamais da intervenção e empenhamento cívicos.

A moção de censura ao Governo, a turma malquista que 72% dos eleitores puniram no último domingo, foi votada pelo PCP, BE e PS, com considerandos capazes de criarem clivagens no seio da esquerda. Dessa moção ficou a retórica incapaz de levar à demissão quem perdeu o tino e a vergonha. Não compreendo a oportunidade e condeno-a.

Com o PR em reflexão profunda pela derrota, que também foi sua, ou desaparecido a remoer a abstenção contra a qual, e bem, se pronunciou, sem que alguém o ouvisse porque o sabem implicado no Governo, é da clarificação dentro do PS e da preparação de uma alternativa que o País carece urgentemente.

António Costa e Seguro estiveram de acordo com a moção. Eu não.


Onde para o PR?

PR procura-se e dão-se alvíssaras a quem der notícias do paradeiro

O país resigna-se com o silêncio, agradece o recolhimento e rejubila quando não está ao serviço da coligação, mas gosta de saber, pelo faceboock, se está vivo.

Com o País em reboliço, não se espera que se desvincule dos 27% de reincidentes que o apoiaram, bem como aos partidos de que é porta-voz. O que o País pergunta é se deixou arrefecer o céu da boca e lá em casa preparam as exéquias fúnebres na clandestinidade.

Depois do apelo veemente à participação cívica dos eleitores, ouvido com o entusiasmo que desperta, como se viu, não mais foi achado. Não apresentou pêsames ao Governo, não saudou o PS nem enviou um telegrama a Marinho Pinto ou ao PCP. Teme-se o pior.

Nesse caso, a senhora presidente da AR deve ser avisada, para passar por Belém, se não tiver algum inconseguimento com a moção de censura ao Governo, que fazia tanta falta como uma viola num enterro.


Marinho e Pinto e as incógnitas do regime

Marinho e Pinto é umo fenómeno que provoca enorme prurido e brotoeja nos aparelhos partidários. Já era uma figura mediática, tornou-se a personalidade capaz de baralhar a aritmética eleitoral.

As duas entrevistas de hoje, na Visão e no DN, mostram que o advogado popular ainda não se tornou populista, mantém-se cauto. Esperemos que não se julgue providencial.

Tudo o que disse pode ser repetido por um social-democrata do PS, com preocupações ecologistas, mas não pode ser aceite por uma direita em contubérnio permanente com o capital financeiro. A direita dos submarinos e do BPN e a que mora na linha de Cascais ou na praia da Coelha não pode subscrever o seu pensamento ou deixar de condicionar o seu combate político.

O PCP, que nunca ganhou um só voto com o satélite ornamental – os Verdes –, não terá capacidade de impedir um partido fora da sua área e que prossiga objetivos  ecológicos. Aliás, faz falta, em Portugal, um partido ecologista autónomo.

Marinho e Pinto ensaia um partido ecologista, republicano e laico, situado na área do PS. No meu ponto de vista será mais perigoso para qualquer outro partido do que para o PS, embora seja aqui que faça mais mossa eleitoral, como certamente acabou de fazer.

Um partido socialista não pode ter no seu seio – como tem –, uma ala liberal, a menos que abandone a tradição histórica da social-democracia. O liberalismo é um ornamento tão prejudicial como a viúva de um brilhante ministro das Finanças ou o bouquet demo-cristão que polui a matriz republicana.

Marinho e Pinto vai fazer o seu percurso e tanto pode ser um fogo-fátuo, que se apague, como um aliado imprescindível. É prematuro, para o PS, ostracizá-lo ou hostilizá-lo. O universo partidário está fragilizado e a Grécia pode ser o próximo modelo de Portugal.


quinta-feira, maio 29, 2014

António Arnaut, doutor "honoris causa"

A Universidade de Coimbra distinguiu hoje o fundador do Serviço Nacional de Saúde, António Arnaut, com o título de doutor “honoris causa”.

É uma dívida nacional que a Universidade de Coimbra paga. Poucos mereceram tanto tão elevada distinção a quem tanto deu sem nunca ter pedido algo.


Ao antigo ministro, «pai» do Serviço Nacional de Saúde, o Ponte Europa endereça os seus cumprimentos e felicitações.

Recorda-se que António Arnaut é um advogado ilustre, escritor, ex-Grão-Mestre do G.O.L.- maçonaria portuguesa -, e uma personalidade de relevo no campo da cultura, da política, do direito e da participação cívica.

Ponte Europa saúda o cidadão impoluto e congratula-se com a justa homenagem. A honra é maior para a Universidade do que para o homenageado.

Ainda no rescaldo das eleições europeias

Como foi possível terem passado três dias e eu ter-me perdido do país? Sonhei que a candidatura ao Parlamento Europeu, que o Governo e o PR patrocinaram, tinha obtido menos de 28% e que os protagonistas andavam felizes!

Pareciam a família do defunto morto no desastre de viação e que, “graças a Deus”, não lhe deformou a face, o que os deixou muito contentes e a rezar uma noveninha de ação de graças.

Esta cultura judaico-cristã que dá graças por quem partiu uma perna, quando podiam ter sido as duas, por ter ficado tetraplégico quando podia ter morrido, é responsável por esta estultícia de quem se julga com legitimidade para governar com menos de 28% dos votos expressos pelos portugueses.

Quando um Governo goza de uma maioria e de um PR e que, todos juntos, não tiveram sequer 28% dos sufrágios; quando o PR entra em retiro espiritual, em rigoroso silêncio, sem tirar conclusões; quando esse Governo julga que governa, só porque sabe aumentar os impostos e o desemprego, entra-se num mundo surreal em que alguém tem de levar, em mão, a Belém e a S. Bento, o resultado das últimas eleições.

É preciso tratar a esquizofrenia e confrontar os estarolas com o sufrágio popular.


A primeira multa e a esquadra de Santa Marta (Crónica)

Em 1970, regressado da guerra colonial, retomei a docência na escola n.º 44, ao cimo da rua da Beneficência, onde tinha sido colocado, por procuração, para estar próximo da faculdade de Direito de Lisboa que, antes da guerra, tinha intenção de frequentar.

O vencimento escasso, razão que me levou a abandonar a função pública, obrigou-me a dar aulas de manhã, a trabalhar como agente comercial, à tarde, e a esquecer o curso.

Com o dinheiro amealhado por quem se manteve em zona de guerra, onde a cantina do aquartelamento era o único sítio para o gastar, fora dos dois períodos de férias gozados entre Nampula e a paradisíaca Ilha de Moçambique, comprei o primeiro automóvel que, aliás, era indispensável nas funções comerciais.

Não tardou a primeira multa. Numa noite de sábado, às três horas da manhã, à saída de uma casa de fados do Bairro de Alfama, estava no para-brisas do carro o aviso da multa, por estacionamento em sítio proibido.

Deixei passar uns dias e, aconselhado e convencido por amigos de que a primeira multa nunca era cobrada, dirigi-me com o papelinho à Rua de Santa Marta, onde um subchefe da PSP me atendeu. Pegou no papel, deixou-o sobre o balcão, e subiu um escadote para tirar de uma estante um grande dossiê onde estavam arquivados centenas de autos que descreviam as transgressões. Enquanto reparava na sala, cheia de gente, via o subchefe a descer com uma das mãos no escadote e a outra com o dossiê.

Arfou primeiro, e leu depois que o automóvel RT-50-46 estava parado no dia X, na rua Y, às 2H30 da manhã de domingo, entre uma placa de estacionamento proibido e outra de fim de estacionamento proibido e, ato contínuo, deslocou o enorme corpanzil para o escadote, a fim de repor o pesado dossiê no sítio respetivo.

Quando regressou, perguntou-me se queria pagar a multa. Disse-lhe em surdina que era a primeira vez, senhor chefe, fica sempre bem tratar um subchefe por chefe, não é meu hábito transgredir, o que era verdade para quem foi multado no primeiro fim de semana com carro, que ganhava mal, como ele, e se não podia perdoá-la. Sobranceiro, em voz alta, disse que ali ninguém perdoava, perguntou se queria pagar ou não, e senti os olhos de dezenas de pessoas sobre mim.

Humilhado, disse alto, para que todos ouvissem, que devia saber que os ordenados dos funcionários públicos não permitiam pagar de uma só vez, se era possível pagar em prestações, como nos eletrodomésticos, e vi-o exasperado a gritar que não, não era possível, e não era problema dele. Ressoou uma gargalhada na ampla sala apinhada e ganhei a simpatia geral.

Para ressarcir-me da humilhação, disse-lhe para me repetir o motivo da multa, não tinha tomado nota, era muito cuidadoso, duvidava da transgressão. Encarei-o sem medo e foi divertido vê-lo de novo no escadote a refazer o trajeto inicial. Mal humorado, voltou a ler-me as razões da transgressão e a citar-me o artigo do código que implicava a multa de 20 escudos, se a memória me não trai. Fui tomando nota num papel, devagar, e a certa altura, balbuciei, sou sempre tão cuidadoso, para, em voz alta, perguntar, ó senhor guarda, despromovi-o então para compensar a promoção inicial, quem me garante que a placa não foi posta depois de eu ter estacionado o carro? Outra sonora gargalhada ecoou na sala e o subchefe perdeu a fala. Tartamudeou depois que não podia ser, que eu estava multado, enquanto dei as boas tardes e o deixei amarrado ao dossiê e ao gozo dos outros infratores e saí.

Com o 25 de Abril, várias visitas papais e numerosas amnistias, penso que a multa de 1973 prescreveu antes da azia do subchefe que engoliu a arrogância.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, maio 28, 2014

A HISTÓRIA SEGUNDO A "DEMOCRACIA" COMUNISTA

Como é sabido, em 1969, pertencendo a então Checoslováquia ao bloco soviético dominado pela U.R.S.S., o Governo checoslovaco, liderado por Alexander Dubcek, tentou liberalizar politicamente o regime, procurando instaurar um sistema de socialismo democrático.

A União Soviética, porém, no mês de Agosto do referido ano, pôs rapidamente fim a esses devaneios democráticos, invadindo a Checoslováquia, destituindo o Governo de Dubcek e pondo no seu lugar outro mais obediente, esmagando assim no ovo essa primeira tentativa de instauração de um socialismo democrático real.

Diga-se de passagem que todos os Partidos Comunistas da Europa Ocidental se manifestaram contra esse brutal esmagamento, com uma única e vergonhosa exceção (já todos terão adivinhado qual...): o P. C. Português.

Dubcek, claro, caiu em desgraça, foi destituído de todos os cargos, e, à boa maneira stalinista,...despareceu das fotografias! Um jornalista, porém, conseguiu passar para o ocidente duas fotografias, numa das quais ele estava entre o Presidente da República e outro dignatário e na seguinte já não estava, só restando dele...a biqueira do sapato! Esse jornalista fez publicar as fotos, a seguir reproduzidas, com a seguinte legenda:

Il est là... coucou, il n'y est plus!

O PS e o futuro Governo

Depois de António Costa ter manifestado disponibilidade para disputar a liderança, dada a sua dimensão política, experiência governativa e notoriedade pública, que ultrapassa a do próprio líder do PS; depois do apelo de Ferro Rodrigues para convocação de eleições diretas; com a escassa vitória das eleições europeias e a imagem frágil que lhe tem sido criada, não resta a Seguro outra alternativa senão ceder e disputar novas eleições no PS.

Refugiar-se nos estatutos para se furtar ao juízo dos militantes é debilitar diariamente a sua imagem e, com ela, a do PS.

As eleições não se ganham com a simpatia do aparelho partidário que, e não será o caso, pode levar a PM um incapaz, como sucedeu ao PSD, mas com alguém que pode causar prurido no partido mas arrasta a confiança do País.

Espero que Seguro saiba tomar a decisão que o momento impõe e os militantes decidam com a cabeça, sabendo ler os sinais dos que, não pertencendo ao partido, são os que lhe dão as vitórias ou lhe impõem as derrotas.

Vai ser fácil derrotar este Governo e o PR que o apoia incondicionalmente, mais difícil é gerar a onda de vitória que leve o PS ao poder sem alianças contranatura com a direita.


No rescaldo das eleições europeias

Aos europeus não imaginam a tragédia que a desagregação da UE origina. Entre utopias e ressentimentos, a União Europeia, que preservou a paz e garantiu o desenvolvimento, pode transformar-se numa arena onde os nacionalismos fiquem à solta e expludam os regionalismos.

A falta do aprofundamento social e político, aliado às severas medidas de austeridade, destruíram a economia e, com ela, a solidariedade social. A União Europeia, um sonho cosmopolita, vai-se transformando num pesadelo que esqueceu os objetivos.

No que respeita a Portugal não sei como podem sentir legitimidade o PR, cujo apelo ao voto parece ter ajudado a abstenção, e a coligação que a alegada a falta de alternativas como álibi para perpetuar a política que só o PR e menos de 30% dos leitores sufragam. Foi, aliás, a votação, com os olhos postos nos problemas domésticos, que inquinou as eleições para o Parlamento Europeu.

Marinho Pinto, o mais popular dos eurodeputados, que, sozinho, vale o dobro do CDS e metade do Governo, tem cultura e passado políticos para não se deixar cair na tentação do populismo. Depende dele e das pessoas de que saiba rodear-se o seu futuro político e um módico de estabilidade nacional. Julgo conhecê-lo bem para me dar tranquilidade e ver quem o acompanha no Parlamento Europeu para a perder.

O PS, ao votar uma inútil moção de censura, segue a reboque do PCP que, desta vez, se deixou excitar com a vitória e avança para uma aventura vazia de consequências, em vez de esperar que a dupla Paulo Portas/Passos Coelho sentisse necessidade da moção de confiança, cuja vitória previamente assegurada, apenas a humilharia.

Os próximos tempos vão ser estimulantes na política e trágicos na economia.  Não se vê como substituir este PR, esta maioria e este Governo. E é urgente. São perigosos.


terça-feira, maio 27, 2014

Factos e documentos


Ecumenismo e marketing

O ecumenismo de que o Vaticano se reclama não é mais do que um golpe publicitário para a hegemonia que procura, a tentativa de reunir forças para liderar a cruzada contra o ateísmo e a laicidade.

Não há ideologia mais odiada do que o ateísmo nem postura que mais descontrole o clero que a indiferença perante os dogmas e as sotainas.

As três regiões do livro são idênticas na sua intolerância, no ódio à liberdade e ao livre pensamento, na obsessão prosélita e na presunção de que cada uma é a verdadeira.

As sociedades ocidentais, na sua luta pela liberdade e emancipação, limaram as garras eclesiásticas, contiveram a prepotência religiosa e empurraram o Papa para o Vaticano.

 Os protestantes, após as guerras da reforma e contra-reforma, em que o ódio cristão explodiu em torrentes de sangue, foram-se reduzindo à liturgia e à oração e perderam o fervor que agora regressa impetuosamente através de seitas cada vez mais agressivas.

O islão, inculto e radical, misógino e beato, impõe cinco orações diárias, o poder do clero e uma legião de dementes submissos às crueldades do Corão - um livro execrável que apela em quase todas as páginas à destruição dos infiéis, da sua religião, cultura e civilização, assim como dos cristão e judeus, em nome de um Deus misericordioso.

Os islamistas não são piores do que os cristãos ou os judeus, apenas se mantêm na Idade Média, com maior medo dos parasitas que pregam nas mesquitas do que do Deus que está no Paraíso com 70 virgens e rios de mel à sua espera.

A tragédia da humanidade não está nos crentes, está na droga das religiões e nos charlatães que as promovem e impõem.

segunda-feira, maio 26, 2014

Eleições legislativas. Que futuro?

Por muito que custe, temos de admitir que o PS, o PSD e o CDS não podem continuar a impor aos portugueses os líderes que os militantes querem mas os que o País deseja.

Sócrates e os derrotados

A parelha Paulo Rangel/Nuno Melo, émulos da calamitosa parelha Paulo Portas/Passos Coelho,  passaram a campanha eleitoral, não a falar da Europa mas a atacarem Sócrates, averbando uma derrota humilhante ao mesmo tempo que involuntariamente reabilitaram o antigo primeiro-ministro.

Não sendo meninos de coro, resta pensar que são o refugo do PSD e do CDS.


domingo, maio 25, 2014

A União Europeia, as eleições e Portugal

Enquanto os nacionalismos e a decadência corroem os alicerces da União Europeia, exacerbam-se os radicalismos, aumenta a desilusão e os eleitores afastam-se das mesas de voto como os muçulmanos do álcool.

Em Portugal, onde a democracia nunca conseguiu ser uma escola de formação cívica, o desinteresse devora a própria democracia. O alheamento do exercício do voto é sintoma de desilusão, mas também, e sobretudo, de quem deixou de acreditar em si próprio.

Temos de viver com os eleitores que temos, com os que ainda se recordam das fraudes eleitorais, do partido único e da perseguição aos opositores e com os que, cumprindo o dever cívico, acreditam que há democracias perpétuas.

Em Portugal, onde a maioria desconhece o reforço dos poderes do Parlamento Europeu e, pela primeira vez, a sua importância, na decisão quanto ao presidente da Comissão Europeia, estas eleições são, sobretudo, a primeira volta das legislativas e o julgamento do Governo e do PR que se transformou em seu porta-voz e assessor.

Quando 70% dos cidadãos que contam, os que se deram à maçada de ir votar, rejeitam o Governo, o PR e o descarado apoio de Durão Barroso, Portugal passa a viver com o PR e um Executivo que mantêm a legalidade mas perderam a legitimidade.

O interesse nacional e a ética republicana mandam que o PR dissolva a AR e convoque eleições legislativas e que, a seguir, renuncie ao seu cargo, que neste segundo mandato, por razões desconhecidas, hipotecou aos interesses da coligação hoje derrotada.

Para lá dos que se esforçam para ampliar as vitórias ou minimizar as derrotas, há uma ilação implacável: este governo, este PR e esta maioria são absolutamente indesejáveis.

A CDU subiu de forma notável, o BE não desapareceu, o Marinho Pinto é um novo partido e o PS ganhou as eleições. A direita passou a ser irrelevante com os atuais dirigentes.

O MELHOR CARTOON DE IMPRENSA DA EUROPA É PORTUGUÊS

E nem a Europa sabe quão verdadeira é a mensagem. Ontem foi dia de loucura ibérica, hoje merece a sua divulgação no Ponte Europa.

sábado, maio 24, 2014

Eterno Domingo – o futebol em oito jornadas (Livro de Ricardo Namora)

A vida tem destas coisas, estes paradoxos inexplicáveis que me levaram a ser íntimo amigo do saudoso Zé Manel, ex-jogador da Académica, meu colega na indústria farmacêutica, com quem nunca falei de futebol e que mutuamente nos procurávamos.

A amizade estendeu-se à mulher e aos filhos que vi crescer e singrar na vida. Duas boas cabeças, dois homens generosos com a bondade do pai, o encanto da mãe e a inteligência de ambos.

O que não esperava era ver um pós-doutorado em Teoria da Literatura a ser também um treinador de futebol, um ex-jogador a ser intelectual de rara qualidade, um humanista a escrever sobre futebol, um habilidoso com os pés a ser tão ágil com a prosa, um escritor a falar da futebol e da repressão franquista sobre os bascos, a fazer rolar bola e a fazer-nos compreender, através dela, como rolam os sentimentos e as ideias.

Ricardo Namora tem o condão, no livro que hoje a Editora Lápis da Memória lançou, de seduzir para o futebol quem sempre lhe foi alheio, brindar com ótima literatura quem aprecia a prosa e inserir um desporto popular no mundo das ideias e da cidadania.

Parabéns, Ricardo.


O 25 de Abril e a obrigação da sua defesa por quem o viveu

Painel de azulejos pintados e colados pelos alunos


Há dias, na sequência de uma palestra, no Agrupamento de Escolas de Pinhel, espantei os leitores, como se isso fosse um caso inédito nas nossas escolas.

Tive a honra de ser convidado por três escolas de Coimbra, Brotero, Eugénio de Castro e José Falcão, numa delas reincidente, tal como em Mirando do Corvo ou Carregal do Sal, umas vezes acompanhado do meu saudoso amigo-major general Augusto Monteiro Valente, herói de Abril, outras com diversos oradores desconhecidos, sobretudo quando o tema em vez do 25 de Abril foi o laicismo e a laicidade.

Fazem parte do currículo estas atividades e, segundo julgo, é mais difícil arranjar quem se disponibilize do que ser alvo do convite.

Quero dizer que é gratificante e não esqueço a qualidade das intervenções de alunos da Escola D. Maria, em Coimbra, ou dos de Miranda do Corvo.

Quando são democratas os professores, «a obra nasce».

sexta-feira, maio 23, 2014

APELO AO VOTO EXPRESSO, VÁLIDO E ÚTIL POR UMA EUROPA DEMOCRÁTICA E SOLIDÁRIA E CONTRA A COLIGAÇÃO QUE OPRIME PORTUGAL

As eleições do próximo domingo são de uma importância vital.

Está mais do que nunca em jogo o destino da Europa.
Está mais do que nunca em jogo o destino de Portugal.
Por um lado, por forma reflexa. Portugal pertence, e deve continuar a pertencer, à União Europeia. Assim, o destino do nosso País está profundamente dependente do destino da Europa.

 Por outro lado, por forma direta e imediata. Impõe-se uma derrota clara e inequívoca da tríade - governo, maioria parlamentar e presidente - que nestes últimos anos vem martirizando o povo português e subvertendo os ideais e as conquistas do 25 de Abril. Só com essa clara derrota se poderá demonstrar de forma expressa e indesmentível aquilo que já é evidente: que essas entidades perderam por completo a legitimidade democrática que obtiveram mentindo descaradamente aos portugueses mas que ainda detêm formalmente.

Por isso, nenhum verdadeiro patriota, nenhum verdadeiro democrata, pode abster-se de votar, ou votar em branco, ou votar nulo, ou votar em listas inócuas de que antecipadamente se sabe que não têm qualquer hipótese de eleger algum deputado. É indispensável que no novo Parlamento Europeu haja uma maioria democrática, que reponha em vigor os ideais fundadores das instituições europeias, a solidariedade entre os países europeus, a liberdade, a igualdade e a fraternidade, e que combata o egoísmo mercantilista que se apoderou de muitos governos da União Europeia e o manifesto retorno da extrema direita. Que lute por uma Europa de países livres e iguais e se oponha às tentativas do atual governo da Alemanha de fazer da Europa um IV Reich, conseguindo pela força do dinheiro o que Hitler não conseguiu pela força das armas. Que lute contra o espúrio racismo de alguns que defendem a superioridade nórdica sobre os povos mediterrânicos, que foram o berço da civilização.

É pois indispensável o voto expresso, válido e útil na defesa destes ideais.

Às urnas, cidadãos!

O Governo, as eleições europeias e Marcelo Rebelo de Sousa

A dimensão de Marcelo, para além do mérito próprio, mede-se pelas horas de exposição televisiva. Sobrando-lhe capacidade e experiência política, deve sentir-se envergonhado com a mediocridade do líder do PSD e ferido com a animosidade do campeão das feiras e do CDS, que sobrevivem em união de facto e de interesses.

O mestre da intriga não perdoou ao lacrau que o picou na televisão e lhe tolheu o futuro político, lembrando-lhe, em direto,  uma pequena mentira que transformou uma sopa, a  vichyssoise, no caldo de ódio mútuo e recíproco.

De Passos Coelho separa-o a inteligência, a cultura e a sagacidade; de Portas a pessoal animosidade e um módico de honestidade intelectual. Apenas a ambição da presidência da República o obriga a suportá-los, e, fazendo jus à irreverência e ao gozo que lhe dão as ferroadas em figuras menores, Marcelo declara que vai votar na dupla que o Governo designou para disputar as eleições europeias. Mas só vota neles «porque isso representa votar em Jean-Claude Juncker», um voto através de figurantes.

Num país onde há quem ovacione um homicida que matou duas mulheres e feriu outras duas, com intenção de matar, à entrada do Tribunal de S. João da Pesqueira, não admira que a coligação ainda mantenha 30% das intenções de voto e o PR seja apreciado por mais de 20% dos portugueses.

Portugal é Valongo dos Azeites em ponto grande.


A União Europeia, as nuvens do presente e o futuro

Entre leitores esclarecidos não há eleitores a necessitar de indicação de voto, motivo suficiente para não cometer a indelicadeza de o sugerir ou de me inibir de opinar sobre o que julgo pertinente.

Penso que devemos ao guarda-chuva da Nato a paz de que a Europa goza desde a guerra de 1939/45, o período mais longo de paz que conheceu, com as exceções localizadas da fragmentação da Jugoslávia e da reincidente cumplicidade na tragédia da Ucrânia.

Também a Alemanha, com o seu apoio financeiro, foi fundamental para a estabilidade democrática em Portugal e para o seu acelerado progresso. A ingratidão não é virtude e o esquecimento não ajuda a interpretar o presente.

Foram outros os que sonharam uma Europa solidária onde os nacionalismos sempre a dilaceraram. É o regresso a esse a sonho que me move numa Europa que desejava como a nação de nações solidárias, em que a economia, a política e a defesa fossem comuns e as assimetrias se diluíssem.

Apesar das nuvens carregadas que ameaçam o sonho europeu acredito na Europa onde a solidariedade se sobreponha aos egoísmos nacionalistas, onde o BCE se comporte como a Reserva Federal dos EUA, sem o colete de forças do equilíbrio orçamental através da asfixia da economia, onde o Parlamento Europeu ajude a Comissão Europeia a libertar-se de quem manobra o Conselho Europeu e que faça do Tratado Orçamental uma leitura menos extremista. No fundo, uma Europa onde um burocrata nunca possa tratar capitais e mercadorias em pé de igualdade com pessoas e possa presidir a um órgão de decisão, uma UE que jamais estigmatize a Grécia, a Irlanda, Portugal, o Chipre ou a Espanha.

A Europa não pode ser o tapete rolante que leve a Nato até à fronteira russa numa deriva provocatória, quando devia, pelo contrário, procurar ter a Rússia como aliada.

Há dois dias o Sr. Le Pen, pai da extrema-direita francesa e da sua atual líder, que fez do perverso partido uma força partidária robusta, declarou que o senhor Ébola resolveria o «problema» da imigração em três meses, numa atitude racista e xenófoba de intolerável provocação. Só lhe faltou apelar à D. Sida como símbolo do humor negro nazi, que não renega a sua matriz genética e a do partido de que é presidente honorário e fundador.

A Grécia, maltratada pelo capital financeiro internacional, abandonada pela Europa que combato, desesperada, gerou um partido que a pode levar, caso a faça sair da UE, para os braços de novos coronéis de que começa a esquecer a dolorosa experiência.

Quando a extrema-direita irrompe como vaga de fundo não é uma Europa alemã que pode fazer-lhe frente mas é uma Alemanha europeia que pode dar um contributo valioso para o dique com que é preciso travar a repetição do ambiente de há setenta anos.

No próximo domingo Portugal pode dar um contributo para essa Europa diferente, para uma União Europeia mais próxima dos sonhos dos pais fundadores no regresso à utopia que se torne realidade, com uma visão progressista e de repúdio do neoliberalismo.


quinta-feira, maio 22, 2014

As eleições europeias e a política nacional

Sou dos que acreditam que não podemos viver sem a Europa nem esta sem Portugal. Os que veem na UE a causa de todos os males esqueceram depressa o que lhe devemos, o país «orgulhosamente só», saído da ditadura, da guerra colonial e do atraso ancestral.

Os que veem a Europa acriticamente, como mero pretexto para a conquista do poder e a satisfação das suas ambições, são incapazes de tentar corrigir-lhe a deriva nacionalista e prevenir os demónios totalitários que despertaram. A diplomacia comum e uma política de defesa integrada são instrumentos de coesão de um espaço que se desagrega, se para, e regressa às lutas intestinas, se teme avançar.

A moeda comum, que parecia o mais difícil e pode não ter sido o mais acertado, é hoje a antecâmara de uma tragédia, se soçobrar. Sair do euro é, para Portugal, como sair de um comboio de alta velocidade, em marcha, é ceder à voragem dos especuladores a cotação de nova moeda e lançar na miséria pensionistas e detentores de vencimentos fixos, cujos aumentos jamais seguirão a inflação. É tornar o país o laboratório de uma nova ditadura.

A paz que se seguiu à devastadora guerra de 1939/45 foi ameaçada pela demência que se observou na desintegração da Jugoslávia, obsessão alemã e vaticana, que os europeus sancionaram e repetiram levianamente na Ucrânia, com desfecho imprevisível e feridas abertas.

Acredito numa Europa que aprofunde a inclusão política, social e económica, que não concorra entre si mas no mundo global, que não seja bombeiro do capital financeiro em risco mas das pessoas em dificuldades.

Se, pelas razões apontadas, se exige uma votação progressista, há razões nacionais que responsabilizam quem não aproveitar a oportunidade para humilhar o Governo, o PR e o presidente da Comissão Europeia, cúmplices de uma política incompetente, malévola e trágica, gente que preferiu ao PEC IV ir além da troika e da capacidade de sofrimento de um país.

Só uma hecatombe dos (ir)responsáveis no poder, poderá obrigar a eleições legislativas antecipadas, impedindo-os de destruir o que falta e retirando o poder a quem os protege.

Está nas mãos dos eleitores, não o futuro radioso que nos prometem mas um módico de oxigénio que nos permita respirar e influenciar a União Europeia, para arrepiar caminho nas políticas que permitiram o crescimento da extrema-direita, a lembrar o ambiente que precedeu a Segunda Grande Guerra.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, maio 21, 2014

O Tratado Transatlântico e a Europa

Quando do anúncio do TTIP (Transatlantic Trade and Investement Prttnership), também conhecido por TAFTA (Transatlantic Free Trade Area), em fevereiro de 2013, não emiti qualquer opinião. Um tratado de comércio, neste caso gigantesco, só por si, não é bom nem mau. As consequências é que o dirão. Podia ter sido um mero detalhe do discurso de Obama sobre o Estado da União onde, pela primeira vez, o referiu.

O apoio entusiástico de Durão Barroso, o mais americano dos europeus, no dia seguinte, pôs-me de sobreaviso. A personalidade tortuosa de um aluno formado nas madraças do maoísmo, em cujo Livro Vermelho terá aprendido a enxergar armas químicas num salão de chá inglês, não foi de molde a tranquilizar-me.

Não tenho dúvida sobre a bondade do Tratado, temo é pelas consequências para os mais pobres. Se Obama e Durão Barroso o acham excelente, os portugueses devem ter medo. Será certamente excelente para o capital financeiro que devia ter sido privatizado, após a falência do banco Lehman Brothers, e não foi. Não podendo os causadores do caos ser responsabilizados, foram os povos, os mais pobres, que amargaram as especulações mal sucedidas dos bancos e são espoliados, até ao osso, para os recapitalizarem.

Com este histórico, com a UE de Durão Barroso e Catherine Ashton, incapaz de avançar para a integração económica, social e política, que sentido faz um tratado entre os países ricos da Europa e os Estados Unidos quando já se viu que as assimetrias não param de aumentar no espaço europeu? Que importa o Tratado que beneficia o capital financeiro, que fará mais ricos os países prósperos e mais pobres os países feridos pelos estilhaços da explosão das dívidas soberanas?

Quem concorre ao Parlamento Europeu deve defender a coesão europeia como condição prévia para um tratado que acentuará a divisão da Europa entre países ricos e pobres, e os europeus entre cidadãos e párias.

Esse tratado, a ser levado à prática, abrangerá 12% da população mundial e representará 50% do PIB.

É de temer que o dinamismo económico que certamente induzirá, acelere a escassez dos recursos do planeta e a poluição, aumente demasiado a riqueza de poucos e a pobreza de muitos, numa manutenção do paradigma económico que acentua diferenças sociais e, se não for politicamente vigiado, levará, na lógica ultraliberal, ao colapso planetário.  


Coimbra - «Perspectivas para uma outra Europa»


terça-feira, maio 20, 2014

A Líbia e as preocupações europeias

A falta de política externa comum da União Europeia é mais um calcanhar de Aquiles do colosso de pés de barro e metástases que dilaceram o corpo que não para de adoecer.

Na Nigéria valeu o enigmático Hollande, de quem é chique dizer mal, a tomar a decisão de intervir em África, sem esperar pelo consenso europeu, para impedir o troglodita e exaltado muçulmano, Boko Haran, de raptar jovens para as converter, tiranizar e casar, poupando-as à escolaridade e à civilização.

Normalmente, a União Europeia tem intervindo para fazer asneiras, desde a Jugoslávia à Ucrânia, do Iraque ao Norte de África, mais interessada no petróleo do que nos direitos humanos, num contágio hórrido com os piores republicanos dos EUA, a quem se alia.

A Líbia, à semelhança da República Centro-Africana e do Mali, entre outros, é perigosa para África, e a peçonha não é contida no Mediterrânio. A Europa preocupa-se agora, depois de ter destruído o País, de o ter entregado a bandos de narcotraficantes de várias proveniências e a tribos de sólidos rancores entre si. Kadafi, depois de ter sido o distinto membro do Eixo do Mal e de ter transitado para o Eixo do Bem, foi obrigado a largar os poços de petróleo e a ditadura, quando os americanos e europeus decidiram inaugurar a Primavera com condições adversas e sem um aparelho militar, político e judicial que mantivesse um mero simulacro de Estado a funcionar.

Surpreende a preocupação europeia ora manifestada pela consequência da sua irreflexão e da errática política que incrementou. O Islão vive bem com o caos mas a Europa, laica e civilizada, não sabe como resolver a unificação de zonas dispersas de narcotráfico que várias tribos e terrorismos de origem diversa perpetuam.

E, tal como o ébola, o terrorismo e a instabilidade, têm um enorme perigo de contágio.


20 de maio de 2014 – efemérides

1498 – Vasco da Gama chegou à Índia, a Calecut, no fim de uma viagem que marcaria o início de uma nova era para o comércio e registaria um feito glorioso na História;

1911 – É eleita a Assembleia Nacional Constituinte da I República portuguesa, por sufrágio direto, um avanço democrático que colocou Portugal na vanguarda política da Europa e do Mundo;

1974 – Américo Tomás e Marcelo Caetano partem para o exílio no Brasil, num ato de grande generosidade dos capitães de Abril;


O medo e a fé

O medo é o mais fiel aliado das religiões e o sofrimento o húmus onde floresce a fé. A aflição e a angústia debilitam o intelecto, mortificam o corpo e tornam consciências lúcidas em farrapos que as religiões enrolam na manta de charlatanismo que tecem.

Todas as religiões se reclamam do Deus verdadeiro, único que tem a chave do Paraíso. Assim se vê que todas as religiões são falsas, menos uma, na melhor das hipóteses, e certamente todas.

Uma doutrina, impostura ou código de valores que obriga a humanidade a prostrar-se, em vez de a ensinar a viver de pé, não dimana de um ser superior, brota da vontade de um sádico, nasce no cérebro de um néscio ou da tentação de um biltre.

É explorando fraquezas, medos e inquietações que a religião aparece como panaceia para o abatimento, remédio para a agonia e bálsamo para todas as moléstias.

O padre é o autor da trapaça, o artífice da fraude, o intermediário do embuste. Deus é apenas uma imagem que o tempo corroeu, uma droga que excedeu o prazo de validade mas que ainda ocupa as prateleiras de uma drogaria à espera de falência.

No vértice da pirâmide está o chefe dos embusteiros, o homem do chicote, o frio juiz que aprecia as vendas, pede esclarecimentos e dita as regras. Umas vezes chama-se ayatollah, outras patriarca, mullah, arcebispo ou papa. São espécimes zoológicos da mesma estirpe, implacáveis prosélitos de livros obsoletos que esmagam a liberdade e zelam pelos rancores divinos.

A fé vive do medo do Inferno, da morte e do insondado. Outrora eram deuses o Mar, o Sol e os Ventos, hoje são outros os monstros e mais sofisticados os atributos. O deus de serviço vagueia à rédea solta pelo Universo a espiar a humanidade e a ruminar castigos para quem abomina os padres e despreza os sacramentos.

segunda-feira, maio 19, 2014

Humor triste


19 de maio de 2014 – efemérides

!790 – A Revolução Francesa aboliu os títulos de nobreza e todas as distinções que estabeleciam a estratificação da sociedade francesa, ato de higiene que as Repúblicas praticariam a partir daí;

1890 – Nasce o poeta Mário de Sá Carneiro, em Lisboa;

1954 – Catarina Eufémia é assassinada a tiro, em Baleizão, por um tenente da GNR de Beja, numa manifestação de trabalhadores agrícolas por aumento de salário, tornando-se uma vitima simbólica da repressão fascista do salazarismo;

2000 – A comissão científica independente que analisou o processo de coincineração recomenda ao Governo a prossecução do projeto em Outão e Souselas, processo que seria contestado, mais por razões políticas do que ambientais;

2006 – O prémio Camões foi atribuído ao escritor Luandino Vieira, que o recusou. Luandino era um preso político, com medidas de segurança, quando a atribuição de um outro prémio levou a agressões contra o Augusto Abelaira e Urbano Tavares Rodrigues, à destruição da Sociedade Portuguesa de Escritores e ao seu encerramento pela ditadura;


Freitas do Amaral e a Direita

Na entrevista de Freitas do Amaral ao DN, ontem, há 4 páginas suculentas onde o rigor e a honestidade rivalizam com a cultura de um enorme político e homem de Estado

O diagnóstico que faz da esquerda portuguesa é certeiro, a sua análise sobre a Ucrânia é de uma integridade intelectual extrema, e acertada a avaliação do Governo. Trata-se de uma personalidade que não é da minha família política, de um conservador inteligente, culto e com muito mundo. Com conservadores destes seriam melhores os progressistas.

Como pôde a direita preterir uma personalidade desta dimensão ética e cívica, em favor de Cavaco Silva? Só a miopia de quem preferiu o poder ao país, a indigência cultural à honrosa representação do Estado e o mundo dos interesses venais às exigências éticas de um cargo carregado de simbolismo, podia trocar os personagens.

Houve na troca de papeis a trágica decisão que conduziu a direita ao suicídio e Portugal ao abismo. Depois, entregue o poder a quem tem da política uma leve ideia, da cultura uma sólida desconfiança e da honradez um medo congénito, só podia escolher para líder do Governo Passos Coelho.



domingo, maio 18, 2014

Desertificação e Reprodução Municipal Assistida (RMA).

Lê-se hoje, no DN, que vinte e uma autarquias dão incentivos à natalidade. De Miranda do Corvo a Mora, passando por Boticas, Castro Marim, Vila de Rei ou Lamego, não se poupam os edis à nobre tarefa de estimular a natalidade autóctone.

Paredes de Coura avança com 500 euros para cada um dos dois primeiros filhos e duplica a gratificação para o terceiro. Póvoa do Lanhoso, repete o estímulo para os dois primeiros, aumenta 50% para o terceiro e esportula 1.000 a partir do quarto, sem limite para a prole.

Com cambiantes que incluem modestas ajudas para fraldas e farinhas pareceu-me que Vila do Bispo, Castro Marim e Vila de Rei são as autarquias mais generosas a instigar a prossecução da espécie, com 750 euros para o primeiro rebento, 1.250 para o segundo e 1.750 para os seguintes, enquanto Gouveia começa com 1.000 euros para o primeiro e não vai além dos 1250 para outros.

O combate à desertificação a que os edis se abalançaram merece solidariedade e todos os estímulos são bons para os beneméritos objetivos.

Só tenho reservas quanto ao facto de se premiar apenas o sucesso ignorando o esforço. Nos municípios mais cristãos, onde o ato sexual seguramente se destina exclusivamente a garantir a prossecução da espécie, parece-me injusto que não se apoiem todos os que, esforçando-se, não logram o êxito de uma gravidez. O facto de as autarquias atuarem apenas a jusante pode desmotivar para os que temem um esforço inglório.

É de louvar a alteração do paradigma em relação ao subsídio matrimonial, já usado sem êxito em algumas autarquias, porque deixava sem incentivo a reprodução, limitando-se a promover cerimónias de nulo alcance reprodutivo. Sem incentivos pecuniários há o risco de os casais se remeterem às delícias da castidade.

Em resumo, são claramente de louvar os objetivos que os criativos autarcas prosseguem e desejar-lhes a renovação dos mandatos e muitos meninos. É a Reprodução Municipal Assistida (RMA).


LÍBIA: de novo na berlinda…


O mundo está confrontado com o ocorrido na chamada ‘Primavera Árabe’ que devastou o Norte de Africa desde a Tunísia ao Egipto, passando pela Líbia.
É deste último país que chegam notícias do reacender de novos confrontos. Agora – e mais uma vez – a batalha trava-se em Benghazi. Segundo a edição digital do Lybia Herald o general Khalifa Hafter iniciou operações militares na capital da Cirenaica com vista a anular a influência de 2 grupos extremistas muçulmanos (Deraa nº. 1 e Ansar El-Sharia) link .

Estas recentes acções militares surpreenderam o Governo Líbio e parecem inserir-se na pretensão publicamente manifestada por este general de tentar tomar o poder através de nova insurreição link. O general revoltoso, também conhecido por Hifter, é um velho colaborador da CIA link desde a sua captura na guerra líbio-chadiana (1987) conflito regional que ocorreu na faixa de Aouzu tendo como móbil a exploração de urânio. De 1991 a 1996 viveu no EUA (Virginia), i. e., nas proximidades da sede desta organização de inteligência americana link.

Para aqueles que pensavam que a guerra civil líbia teria acabado com a queda do regime de Gadhafi e a execução do seu líder, estes mais recentes desenvolvimentos introduzem novos dados para repensar a situação política no Norte de África. 
E, na passada, interrogar sobre qual o papel e os objectivos dos EUA nesta endémica e mortífera ‘primavera’ que se alastra em direcção à África Central (sub-saariana)...

sábado, maio 17, 2014

O Governo, António Borges e as privatizações

O cadáver de António Borges deixou o esqueleto no armário da coligação apostada em desmantelar o Estado, em Portugal.

O homem que Cavaco preferia a Durão Barroso, para PM, foi quem sondou Vítor Gaspar para ministro das Finanças e foi recompensado com a atribuição à sua empresa de consultadoria, ABDL, da gestão das privatizações do Estado.

Os negócios obscuros, entre este Governo e o falecido António Borges, terminaram com a morte do último, em agosto de 2012, “por acordo entre as partes”.

O ministério das Finanças está a usar expedientes para evitar o acesso jornalístico ao obscuro contrato.

A jornalista Fernanda Câncio aguça hoje, no DN, a curiosidade  sobre o contrato cuja caducidade, por morte de António Borges, poupou mais de 25 mil euros mensais ao Estado que não precisou de manter os serviços através de outra empresa.

Estes estarolas vão deixar muitos esqueletos à espera de exumação urgente.


Cavaco - ‘Nunca Mais’…

O Presidente da República pronunciou-se sobre o fim do PAEF sem recorrer ao Facebook.  
Aproveitou a oportunidade de se encontrar no estrangeiro para expressar o seu taxativo desejo que: “Portugal nunca mais se encontre nesta situação e que os portugueses sejam capazes de gerir as suas contas mantendo-as controladas…link.

Não sabemos se esta tirada se encontra em alguns dos prefácios dos seus ‘Roteiros’. Na verdade, é de supor que muitos poucos portugueses tenha a paciência ou reconheçam importância a esses escritos que periodicamente edita para se informarem.
Mas a frase proferia em Macau e onde constam três palavras-chave (Portugal, nunca e mais) é uma revelação deveras interessante.
Os portugueses interrogar-se-ão se o Presidente é um dos ocultos subscritores de um manifesto-petição link posto a circular em Portugal neste momento político (o putativo fim do programa de intervenção externa).

O manifesto-petição “Nunca Mais” subscrito por uma plêiade de indefectíveis apoiantes da actual coligação governamental (António Nogueira Leite; André Azevedo Alves; António Belmar da Costa; Francisco Waldemar D'Orey; Francisco Xavier Bello van Zeller Henrique Diz; João Couto; João Duque ; José Ferreira Machado; Luís d'Almeida; Norberto Pires; Nuno Vaz da Silva; Pedro Botelho Gomes; Pedro Sampaio Nunes; Peter Villax; Rui Paiva; Zita Seabra; etc.) discrimina uma cascata (meia dúzia) de situações que vão em socorro da estafada tese do 'viver acima das possibilidades' que são rematadas com um ‘nunca mais’, mas passa ao lado de questões que estão na génese das celebradas  e adquiridas lições sobre o resgate. Entre elas esqueceu-se, por exemplo, de verberar com o seu estridente NUNCA MAIS o resgate dos activos tóxicos e das especulações da banca com dinheiros públicos (dos contribuintes).  
Finalmente, Cavaco Silva, lá de longe, mostra não querer perder o comboio e resolveu informalmente associar-se a esta iniciativa da sua família política. 
Nada que choque com as suas opções políticas e colida com o suporte que tem oferecido a este Governo. Todavia, deveria ter subsistido o mínimo de pudor de um político que, no exercício do seu poder, recentemente exonerou 2 assessores que subscreveram um outro manifesto (o dos '74') link.
Assim não!
Haverá razão para pensar: CAVACO NUNCA MAIS?

Uma Caricatura do caricaturista Henrique


Marinho Pinto e as eleições europeias

Devo começar com uma declaração de interesse: sou amigo de António Marinho Pinto. Liga-me a ele uma sólida e permanente amizade, começada num café/cooperativa onde se reuniam adversários da ditadura, desde o início do ano de 1973 – a Clepsidra.

Dito isto, e sem qualquer relação com  a minha intenção de voto nas eleições europeias, devo a Marinho Pinto a solidariedade que merece um ostracizado pela comunicação social. Raros candidatos ao Parlamento Europeu terão a notoriedade do ex-bastonário da Ordem dos Advogados, duas vezes eleito. Raros são os cidadãos tão lutadores, frontais  e corajosos.

Quase todo o país o conhece e raras pessoas sabem que é candidato, atitude de que eu, se pudesse, o dissuadiria, mas que ele tomou. Os eleitores merecem ser informados da sua decisão cívica. E não são. É malevolamente ignorado como se não tivesse passado, currículo e credibilidade.

A razão que me leva a verberar a ostracização a que é votado Marinho Pinto é a mesma que uso para o PCP, alheia às minhas convicções políticas, mas que me indigna. O PCP tem habitualmente uma pequena fração do tempo de antena do CDS, partido residual, numa atitude de hostilidade e discriminação inaceitáveis.

Marinho Pinto está a ser ignorado de forma despudorada. É uma vergonha.

Apostila – Rui Tavares é outro caso de boicote flagrante. Por enquanto, até é eurodeputado.


sexta-feira, maio 16, 2014

A frase:

«Bem… o poder isolado do povo não é boa coisa e ainda por cima fechado e com 55 mulheres, o imperador tinha dificuldades em resistir»!

(Cavaco Silva a um jornalista que lhe perguntou, na Cidade Proibida, que ilações tirou daquela visita, sobre o poder).


SHAME ON YOU, U. S. A.

Não sou antiamericano, nem muito menos antiamericano primário – chamo antiamericanos primários aqueles que, por uma espécie de reflexo condicionado que lhes ficou do tempo da Guerra Fria, se aliam a tudo o que é mau (Coreia do Norte, países onde vigora o fundamentalismo islâmico ou quejandas ditaduras, só por ser contra os E. U. A.). Por outro lado, tenho de reconhecer que a América deu e continua a dar ao mundo pessoas brilhantes, cidadãos que muito contribuíram para o progresso da liberdade e da própria humanidade.

Dito isto, considero os E.U.A. um país que ainda não saiu completamente do estado selvagem. Mantêm a pena de morte e a prisão perpétua, condenam como se fossem adultos, a pesadíssimas penas, crianças de treze anos, consideram direito inalienável a possibilidade de cada cidadão andar armado, tratam, isto é, maltratam, os suspeitos, mesmo de simples contraordenações, como na Europa nem os condenados por crimes gravíssimos são tratados, praticam um liberalismo e um individualismo inadmissíveis, continuam, apesar dos progressos feitos nessa matéria, a ser profundamente racistas, e são um dos países do mundo com o maior número de inocentes condenados por erros de julgamento.

Vem isto a propósito de um facto revoltante de que só ontem tive conhecimento: os E. U. A., já em 1952, pela mão do execrável senador McCarthy, a que alguém chamou McCão – que no entanto “trabalhava” com o consentimento, senão sob as ordens, das autoridades superiores da América – expulsou, ou pelo menos recusou o regresso aos EUA, de nem mais nem menos que Charles Chaplin, o grande, o enorme, o gigantesco Charlot, só por este ser de esquerda! Charlot valia mais que mil McCarthys e outros tantos presidentes da América juntos, mas, em vez de considerarem uma subida honra tê-lo no seu país, expulsaram-no! E o povo americano não reagiu!

Este ato, de que os americanos nunca pediram desculpa nem reconheceram como um gravíssimo erro, é, nem que seja apenas pelo seu valor simbólico, bem revelador do espírito selvático de um país e de um povo!

Notícias do dia. Anda tudo ligado






A caricatura como serviço cívico


A Espanha franquista respirou de novo com Aznar

Há hoje em Espanha uma luta cívica das «plataformas cidadãs» contra os privilégios da Igreja católica onde a Mesquita de Córdova se converteu em símbolo.

Em 2006, a diocese registou-a em seu nome por 30 euros, parecendo que o número 30 é a ressonância da alegada traição de Judas.

O problema resulta do artigo n.º 206 da Lei Hipotecária franquista, que converteu os clérigos numa espécie de notários. O referido artigo permitiu registar pela primeira vez em seu nome milhares de propriedades com um processo expedito, que levanta dúvidas constitucionais. Só em Navarra – segundo o  diário El País do dia 10 do corrente mês –, registaram-se 1087 propriedades, com este expediente, das cerca de 4.500, em Espanha.

As plataformas cidadãs pedem o fim desse iníquo privilégio com efeitos retroativos e o Ministério da Justiça apresentou em abril uma reforma da lei que exclui o art.º 206, mas fixa 1 ano para a entrada em vigor, a partir da publicação no Boletim Oficial do Estado.

A Mesquita de Córdova, como é sabido, é Património da Humanidade, há três décadas. Um grupo de cidadãos criou uma plataforma cívica para reclamar a titularidade pública, isto é, para garantir uma gestão laica que evite apagar os sinais islâmicos do monumento – a diocese já chegou  a apagar o nome «mesquita» –, e a Junta de Andaluzia também já pediu informações ao Governo sobre a competência para exigir a gestão e titularidade.

Resta dizer que em 1998, o Governo de José Maria Aznar, ligado ao Opus Dei, estendeu o privilégio concedido pelo Art.º 206, acima referido, aos templos de culto. Dado tratar-se de um edifício religioso, o atual Governo renuncia à propriedade e entrega-a à Igreja, neste caso, tratando-se de uma mesquita, à Igreja… católica.

A gula era um pecado capital mas, para a Igreja espanhola, em proveito próprio, é uma bênção suplementar.    

quinta-feira, maio 15, 2014

Agressões a crianças e jurisprudência

As agressões a crianças, designadas por «castigos paternais», são a herança salazarista do hábito que cabia aos progenitores, por direito divino, e aos professores, por direito legal.

O DN fez-se eco da pedagogia ativa dos pais de uma criança de 11 anos, alegadamente mau aluno, mal comportado e que tinha começado a fumar. O corretivo, à moda antiga, provocou na vítima “três equimoses de coloração arroxeada, outra na face posterior da coxa; e no membro inferior esquerdo, duas equimoses de coloração arroxeada, ambas na região nadegueira”, e dez dias de cama.

A madrinha da criança acusou os pais de “maus tratos” mas, em primeira instância, o douto Tribunal “considerou que tal conduta terá de revestir uma violência de tal ordem (pelo seu período de duração ou pelo mal infligido, etc…) para que se possa concluir pela existência de maus tratos” – diz o jornalista Carlos Rodrigues Lima (13-05-2014).

Apesar disso, o Tribunal condenou os pais  pelo crime de ofensa à integridade física na forma qualificada, crime que não necessita de acusação particular. Ao pai foi aplicada a pena de sete meses de prisão com a obrigatoriedade de entregar, durante o período de suspensão, 350 euros a uma instituição de solidariedade. A mãe, condenada a seis meses de prisão, teria de pagar, também a uma instituição igual, 250 euros. As penas de prisão foram suspensas pelo período de um ano.

O recurso para o Tribunal da Relação do Porto levou os venerandos desembargadores, José Piedade e Airisa Caldinho, a analisar de novo os factos, em que os pais alegavam que a tareia  não era o «reflexo de uma especial censurabilidade ou perversidade», mas um ato «eventualmente desproporcionado, motivado ‘pelo mau aproveitamento escolar do filho’ tendo em vista reprendê-lo e não «como uma mera intenção de lhe causar dor».

A Relação, condenando o ato, entendeu que, «se os pais ignorassem a situação e não procurassem repreender e corrigir o filho, não estariam a cumprir devidamente o dever de assegurar o seu saudável desenvolvimento intelectual e comportamental e poderiam, por isso, também ser alvo – caso o comportamento se agravasse, por não ser corrigido – de procedimento no âmbito do direito tutelar de menores».

Assim, e porque os próprios pais reconheceram ter exercido o poder-dever de correção, «agindo de forma inaceitável à luz da consciencialização ético-social dos tempos atuais, não se justificando a agressão com o cinto», os senhores desembargadores, assinalando que a tareia atingiu apenas as pernas e as nádegas, entenderam que «o comportamento dos pais não merece aquele juízo de reprovação indispensável para o considerar como ofensa à integridade física qualificada».

Exceto o primeiro parágrafo, este texto deve ser creditado ao referido jornalista do DN, num excelente trabalho publicado nas páginas 4 e 5.

Resta dizer que o crime de ‘ofensa simples à integridade física’, como foi qualificado, conduziu à absolvição dos pais, porque não será permitido ao menor recorrer sem a sua autorização, se é que o podia fazer, e lhe minguariam as forças que dez dias de cama lhe retiraram.
Como professor que fui, durante a ditadura, e pai em liberdade, não posso deixar de considerar inaceitável a absolvição, inqualificável a atenuante do local da agressão e injuriosa a referência aos “tempos atuais” para ser considerado intolerável um crime de rara violência e de contornos medievais.

A alegada brandura dos nossos costumes é para com os algozes e jamais para com as vítimas. Que raio de país! Que jurisprudência!

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, maio 14, 2014

Preparando a recepção da matriarca…

Os EUA - segundo tudo indica - não participam directamente nas eleições europeias. Mantêm discreta a sua pressão como grande potência mundial.  Mas não descuidam de arrumar a casa.

Christine Lagarde foi convidada para falar na cerimónia de graduação do Smith College, uma prestigiosa instituição universitária feminina dos EUA, fundada em 1871, sediada em Northampton, Massachusetts, dedicado à formação em 'artes liberais'.  
As estudantes desta instituição denunciaram o “sistema patriarcal” que tem sido usado pelo FMI para impor receitas de austeridade em troco de resgates económicos  link.
Na internet as estudantes escreveram: “O FMI tem sido o principal culpado do desenvolvimento falido consequência das medidas implantadas em alguns dos países mais pobres do mundo. Isto levou ao fortalecimento directo de sistemas imperialistas e patriarcais que oprimem e abusam de mulhereslink.

Bem, nos EUA, C. Lagarde foi obrigada a desistir de botar faladura no Smith College para fugir a um enxovalho público. Mas a mesma senhora estará num desses países referidos como empobrecidos, em 25 de Maio (dia das eleições europeias), para avaliar (louvar) mais um resgate, com o complacente beneplácito da autoridade nacional supervisora do processo eleitoral.
O que não deixa de ser um alinhamento verdadeiramente patriarcal ou, atendendo ao género da dita personagem, matriarcal…

Cavaco Silva na China

Esta é a terceira vez que Cavaco Silva se desloca à China, em visita oficial. Das duas primeiras vezes era primeiro-ministro e falava-se de Macau, um assunto da competência exclusiva do presidente da República.

Nesta, a mais importante, segundo Belém, fala-se de negócios, matéria de política externa, da esfera exclusiva do primeiro-ministro.

A menos que tenha ido em representação do Governo.


O PP e a Igreja

Espanha – A mesquita de Córdova, valioso património artístico, cultural e turístico, foi considerado, pelo Estado espanhol, bem religioso, e, sendo o templo uma mesquita, foi entregue à Igreja… católica, passando a património da respetiva diocese. 

A boçalidade fascistoide e a marginalidade cívica

Ter sido juiz do Tribunal Constitucional é a única “nódoa no currículo” 

(Teresa Leal Coelho, vice-presidente do PSD, nos elogios ao colega de partido)

terça-feira, maio 13, 2014

A ciência e a fé

Há pontos de acordo entre a ciência e a fé, particularmente entre a medicina e as religiões. Coincidem quanto aos benefícios do exercício físico, diferindo na posologia, moderada para os clínicos e sacrificial para os clérigos. Os primeiros chamam-lhe caminhadas; os últimos, peregrinações.

BASTA ! E DEIXEM-ME EM PAZ !

Esta manhã estava eu, como de costume, a trabalhar no meu escritório na rua Ferreira Borges, Coimbra, quando os meus tímpanos começaram a ser agredidos por uns ruídos irritantes provindos da Portagem. Como tais ruídos começassem a tornar-se insuportáveis, vim à varanda e imaginem o que vi: umas escassas dezenas de gatos-pingados agitando ignotas bandeiras e berrando que nem possessos qualquer coisa como "Aliança Portugal".

Como o bando fosse capitaneado por Rangel, Nuno Melo e outros cujos nomes não conheço, logo desconfiei tratar-se de propaganda eleitoral daquela sinistra coligação.

Logo resolvi recebê-los condignamente e fui rapidamente buscar uma targeta a dizer "BASTA" que conservava para o que desse e viesse e que, segurando-a a mãos ambas, lhes exibi da varanda para lhes mostrar o meu "apreço".

À cautela, não venham eles ou outros que tais reincidir na facécia apanhando-me ausente do escritório, resolvi deixar a tarjeta colada na varanda. Tenho é que arranjar uma maior, que aquela vê-se pouco!

É possível que a cena seja transmitida logo no "Jornal da Noite" da SIC. Não percam!

Fátima, terra de fé – 13 de maio

Nascida para lutar contra a República e transformada em arma de arremesso contra o comunismo, Fátima mantém-se como símbolo da crendice popular e caixa de esmolas que sustenta a máquina eclesiástica.

Os ateus são sensíveis ao sofrimento, às aflições, ao desespero e dramas das pessoas que exoneram da sua conduta a razão. Já não têm tanta benevolência para quem convence os crentes do gozo divino com as chagas nos joelhos e as maratonas pias ou com as ofertas de objetos de ouro que atravessaram gerações na mesma família para acabarem no cofre forte da agiotagem clerical.

As cambalhotas solares, as digressões campestres da Virgem e a aterragem do anjo no anjódromo de Fátima não foram originais e exclusivas da Cova da Iria. Foram tentadas em outras latitudes e repetidos em versões diversas até atingirem a velocidade de cruzeiro da devoção popular e o pico da fama que tornou rentável a exploração.

Em 2008, o cardeal Saraiva Martins, um clérigo atrofiado por longos anos de Vaticano, dedicado à investigação de milagres e à pesquisa da santidade, presidiu à peregrinação... contra o ateísmo. Podia ser a favor da fé, mas o gozo do conflito levou a Igreja a deixar cair a máscara da paz e a exibir o carácter belicista que carrega no código genético.

Há militares que regressaram há mais de cinquenta anos da guerra colonial e que, ainda hoje, vão a Fátima agradecer o milagre do retorno, prodígio negado a muitos, vítimas da civilização cristã e ocidental para cuja defesa o cardeal Cerejeira os conclamava.

Perdido o Império, desmoronado o comunismo, o negócio mudou de rumo e de ramo. É o emprego que se mendiga a troco de cordões de oiro, a saúde que se implora de vela na mão, a cura suplicada com cheiro a incenso e borrifos de  água benta. Enquanto houver sofrimento o negócio floresce. Dos bolsos saem os euros dos peregrinos, e os olhos dos crentes marejam perante a imagem de barro que a coreografia pia carrega de emoção.

No próximo ano, no mesmo dia, repete-se o cenário, e os corações dos devotos exultam com fé igual à que os índios tributam às fogueiras para atraírem chuva. Com os joelhos esfolados, pés doridos e o coração a sangrar.

Uma viagem da China

Não entendo a utilidade, no luzidio séquito do PR à China, da presença da inevitável prótese, também conhecida por primeira dama.

Quando o DN disse que Cavaco levou à China 1/5 do PIB português, não se percebe se foi incluída na fração. Os serviços da PR propalaram que esta foi a mais importante viagem de Cavaco Silva nos seus dois mandatos, não se sabendo sob que ponto de vista e em proveito de quem.

A excursão parecia uma romagem de saudade às empresas que foram nossas e espera-se que não seja um ato de vassalagem aos novos donos.


O Pecado de Fátima

              


              

segunda-feira, maio 12, 2014

Anda a paróquia em grande agitação…

Lavra a euforia na paróquia, depois de, em três anos, termos regredido mais de dez, no que se refere a direitos sociais, segurança no emprego e bem-estar, com o SNS em risco, a segurança Social em rutura e o ensino entregue a uma comissão liquidatária que o vai entregando a privados.

O PR, assumindo-se porta-voz de um Governo que só ele admira e cauciona, sabe-se lá por que razões, provocou a oposição com a saída da troika, onde só entreveem ‘limpeza’ os sequazes do Governo. Pareceu repetir no Faceboock aquele discurso inenarrável de vingança e ressentimento na vitória do segundo mandato que o silêncio do primeiro lhe permitiu.

As vuvuzelas do Governo dizem que salvaram Portugal da bancarrota e que restauraram a credibilidade nos mercados. Ainda nos hão de explicar como é possível, com a dívida aumentada em cerca de 50%, em três anos, cantar vitória, já que a alegria dos agiotas se compreende com os compromissos assumidos durante décadas, a destruição da classe média e o empobrecimento dos portugueses metodicamente cumprido.

A euforia que grassa com a «subida» do “rating” da República é um caso de psiquiatria. Para além das dúvidas que as agências merecem, verificou-se que a dívida soberana portuguesa passou de Ba3 para Ba2, ou seja, de 3 níveis, abaixo de lixo, para dois.

Parece que a única coisa que a saída “limpa” mudou foi o odor do lixo, cuja toxicidade passou de 3 para 2, uma alteração que só as pituitárias apuradas conseguem distinguir.

Em época de caça ao voto assiste-se à surpreendente alquimia de transformar em ouro os dejetos de uma governação que apostou em desmantelar o Estado, a matriz dos partidos de que é oriunda e o futuro de um país cuja transformação é sinónimo de destruição.

A inflação das relíquias e a sua cotação (Crónica)

A bolsa de valores pios sofreu, ao longo do tempo, uma lenta erosão, no que diz respeito às relíquias, que orgulhavam os donos e protegiam os domicílios onde jaziam.

Outrora, a exaltação das relíquias deu origem a um próspero negócio e à criação de uma indústria de contrafações cujos produtos rivalizavam com os verdadeiros, a obter graças e a obrar milagres.

Assim se distribuíram por paróquias uma dúzia de braços de S. Filipe, só ultrapassado por Santo André a quem arranjaram 17 para gáudio e devoção de crentes de um número igual de paróquias.

Às vezes eram bizarras as relíquias e não menos inspiradoras de piedade, como sucedeu com o rabo do burro que carregou a Virgem Maria, com a pena de uma asa do arcanjo Gabriel ou com as línguas do Menino Jesus. Mas era a piedade, a imensa piedade, e a raridade de peças genuínas no mercado da fé, que levou Santa Juliana a ter 40 cabeças dispersas, para piedosa contemplação dos crentes.

Nem vale a pena falar do Santo Prepúcio, relíquia comovedora, por ser do próprio Jesus Cristo. Dos vários que houve (prepúcios, porque JC foi único), apenas a um foi passado certificado de garantia e, depois, até esse foi declarado falso. Decidiram os cardeais que JC não poderia ter ressuscitado sem ele e, a partir daí, pairou a ameaça de excomunhão sobre os crentes que se lhe referissem, mesmo para os que tinham obtido graças por seu intermédio.

Enfim, as relíquias da ICAR, quase sempre macabras, pedaços de santos desidratados ou ossos mirrados, são hoje tão acessíveis que arruinaram o mercado das falsificações. Só os fragmentos de santos e beatos criados no pontificado de JP2 exigiriam armazéns imensos e uma rede de frio de enorme capacidade para as conservar. Seria mais cara a manutenção do que o valor da mercadoria. Três cabelos do já santo João Paulo II (JP2) chegaram à Madeira a custo zero.

Na primeira visita que fiz a Itália, em meados da década de 70 do século XX, saturei-me de relíquias e deslumbrei-me com a perfeição das pinturas e esculturas que decoravam magníficas catedrais onde várias vezes regressei, abstraído da fé, fascinado pela beleza.

Foi na primeira vez que, depois de numerosos ossos exibidos, a guia sujeitou o grupo a observar um esqueleto inteiro, em excelente estado de conservação, devido às virtudes que, em vida, exornaram o taumaturgo. Maiores do que as graças que concedia eram os exemplos de piedade que deixara. Era o orgulho da paróquia, uma localidade próxima de Nápoles, habitada por uma pequena comunidade que possuía uma igreja e relíquias a causar inveja a muitas cidades.

Estava a guia empolgada a falar das virtudes do santo, cujo esqueleto mostrava, quando alguém lhe perguntou de quem era um esqueleto pequeno que se encontrava próximo. Sem titubear, respondeu de imediato:

 – Era do mesmo santo, quando jovem.


domingo, maio 11, 2014

O Paraíso não é barato


Os meandros de uma saída 'limpa' para uma entrada 'suja'...

Não terá sido só um resgate com desfecho "limpo".
Foi uma verdadeira 'barrela'...

Anda a paróquia em grande agitação…

Lavra a euforia na paróquia, depois de, em três anos, termos regredido mais de dez, no que se refere a direitos sociais, segurança no emprego e bem-estar, com o SNS em risco, a segurança Social em rutura e o ensino entregue a uma comissão liquidatária que o vai entregando a privados.

O PR, assumindo-se porta-voz de um Governo que só ele admira e cauciona, sabe-se lá por que razões, provocou a oposição com a saída da troika, onde só entreveem ‘limpeza’ os sequazes do Governo. Pareceu repetir no Faceboock aquele discurso inenarrável de vingança e ressentimento na vitória do segundo mandato que o silêncio do primeiro lhe permitiu.

As vuvuzelas do Governo dizem que salvaram Portugal da bancarrota e que restauraram a credibilidade nos mercados. Ainda nos hão de explicar como é possível, com a dívida  aumentada em cerca de 50%, em três anos, cantar vitória, já que a alegria dos agiotas se compreende com os compromissos assumidos durante décadas, a destruição da classe média e o empobrecimento dos portugueses metodicamente cumprido.

A euforia que grassa com a «subida» do “rating” da República é um caso de psiquiatria. Para além das dúvidas que as agências merecem, verificou-se que a dívida soberana portuguesa passou de Ba3 para Ba2, ou seja, de 3 níveis abaixo de lixo para dois.

Parece que a única coisa que a saída “limpa” mudou foi o odor do lixo, cuja toxicidade passou de 3 para 2, uma alteração que só as pituitárias apuradas conseguem distinguir.

Em época de caça ao voto assiste-se à surpreende alquimia de transformar em ouro os dejetos de uma governação que apostou em desmantelar o Estado, a matriz dos partidos de que é oriunda e o futuro de um país cuja transformação é sinónimo de destruição.

Eu também não


Provocação partidária no ‘Faceboock’:

«O que mais me vem à memória no dia de hoje são as afirmações perentórias de agentes políticos, comentadores e analistas, nacionais e estrangeiros, ainda há menos de seis meses, de que Portugal não conseguiria evitar um segundo resgate. O que dizem agora»?

(Cavaco Silva, na falta de Marco António, no dia da alegada saída «limpa» da troika, na sua página de FB).


sábado, maio 10, 2014

China, Cavaco e a ‘veniaga’…


O anúncio da visita de Cavaco Silva à China link, acompanhado de uma vasta comitiva (cuja dimensão causa espanto), traz à memória a embaixada que D. João V, em 1725, enviou ao imperador chinês Yongzheng e que visava, em primeiro lugar, sublinhar a presença portuguesa no Oriente e salvaguardar os nossos interesses estratégicos em Macau. Paralelamente, o rei português pretendia defender o Padroado do Oriente em consonância com a missionação que os jesuítas desenvolviam nessas paragens. 
Hoje, desfeita toda a nossa saga oriental e declinada toda a influência cultural do 'orientalismo' a motivação é outra: 'externalização' da economia portuguesa face à globalização.

Na verdade, a missão de D. João V não é a primeira embaixada portuguesa enviada ao Império do Meio. Tal incumbência coube a Tomé Pires, em 1517, como enviado do rei D. Manuel e, como sabemos, traduziu-se num tremendo fracasso, visto os portugueses terem ignorado os contornos da milenar cultura oriental e levianamente alimentado incidentes e conflitos que se revelaram inultrapassáveis e fatais. Este episódio terminou com a prisão e morte do régio enviado e consequente expulsão dos portugueses dessas terras.
Só mais tarde – em 1554 – foi possível normalizar as relações sino-portuguesas com o célebre “Assentamento” subscrito por Leonel de Sousa, um oficial da marinha portuguesa e foi, de facto, o ‘acto fundador’ da nossa presença em Macau que viria a durar, com muitos sobressaltos pelo meio, até 1999.
Seria útil que a actual embaixada chefiada por Cavaco Silva tivesse em consideração o secular lastro histórico-cultural que informa e modelou as sempre difíceis e subtis relações com Pequim.

Na verdade, os tempos actuais são substancialmente diferentes dos contactos pioneiros e historicamente marcados com a China. Mas os portugueses devem ter particulares receios que, mais uma vez, por ignorância e sobranceria a presente embaixada nacional venha a cometer os erros de antanho e afronte a actual ‘cultura chinesa’. A retórica neoliberal, que infesta o poder em Portugal, pode revelar-se inapropriada e contraproducente. O poder político chinês que controla toda a vertente económica e comercial deste imenso País continua a valorizar a sua ancestral tradição cultural e os órgãos de direcção continuam a ser meticulosamente requintados, tremendamente elaborados, educados e pacientes. É de levantar sérias dúvidas sobre as declarações produzidas pelo presidente português que referiu “…somos um parceiro construtivo e um amigo da China e sabemos quão benéfico é para a União Europeia aprofundar as relações comerciais e de investimento com a Chinalink tenham o mínimo de substância e impacto para ‘impressionar’ os dirigentes chineses.

O Presidente Hu Jintao quando, em 2010, visitou Portugal afirmou que o Governo da China não só “incentiva as empresas competitivas a operar em Portugal”, como “dá as boas vindas às empresas portuguesas para participar inteligentemente na concorrência do mercado chinês, para que cada vez mais os grupos portugueses competitivos possam entrar no mercado da Chinalink. Actuar de acordo com o conceito de ‘participação inteligente’ - subtilmente introduzido nesta declaração - poderá ser, dadas as características do líder da nossa embaixada, um verdadeiro empecilho na medida em que os paradoxos dominam os relacionamentos da China com o Mundo. Por outro lado, um dos aspectos mais intrigantes deste País é a caracterização da sua economia. Torna-se muito difícil entender (mesmo para um economista) aquilo que é frequentemente denominado, no Ocidente, por ‘economia de mercado socialista’, ou o conceito de ‘um País, dois sistemas’.

Nos primórdios das relações sino-portuguesas foi introduzido no nosso léxico o termo ‘veniaga’, originário do sânscrito (vanijaka) e que traduz a intenção de negociar, traficar.
A visita de Cavaco Silva à China deverá ser, portanto, o revisitar inteligente dessa histórica ‘veniaga’…
A folia da ‘externalização da nossa economia’, a todo o gás, deixa-nos sempre apreensivos.
A ‘pressa’ e o imediatismo nas relações entre a China e outros países (e não só com Portugal) tem-se revelado como um factor acrescido de dificuldades ou até um contratempo. 

A fé custa dinheiro

O Vaticano também aproveita o apoio financeiro de corporações quando se celebram eventos como o da canonização de papas. A cerimónia do passado domingo foi patrocinada por multinacionais, petrolíferas e bancos.