Portugal não sai nem limpo nem sujo. Sai à deriva…

A notícia vem do Financial Times: “Saída será limpa”… link.
Bem, este anúncio - vindo donde vem - mostra como está a ser gerido uma putativa saída do programa de resgate.

Os portugueses já perceberam que por mais malabarismos retóricos que sejam utilizados pelo actual Governo a propagandeada saída (qualquer que seja o modelo) é uma ilusão que escamoteia uma enorme perversão.

Ao fim de 3 anos de tractos de polé o ‘motivo’ que levou a solicitar um PAEF permanece ou, melhor, agravou-se. Se Portugal foi ‘ostracizado’, a partir de 2010, dos mercados financeiros por possuir uma dívida soberana excessiva a verdade é que a mesma nos últimos anos não parou de aumentar. Razão pela qual este item passou para 2º. plano nas avaliações internacionais. O 'programa' era outro!
Cá dentro o Governo acossado pelos ‘credores’ e com plena convicção (satisfação) ideológica prontificou-se a fazer o trabalho sujo (esmagamento das funções socais do Estado, desvalorização salarial, desregulação do mercado de trabalho, etc.) sem ter em conta as consequências (destruição do tecido económico, desemprego galopante, profunda recessão económica, bloqueios confrangedores no acesso ao crédito, etc.). 
Desta miscelânea de opções, medidas e opção ideológica resultou o empobrecimento endémico do País, a expansão de bolsas de fome e miséria, isto é, tudo aquilo que tem sido designado por ‘um retrocesso civilizacional’. No meio disto tudo tem sido esgrimido como um sacrossanto objectivo o controlo das despesas públicas como meio para reduzir o défice orçamental o que têm vindo a ser parcialmente conseguido por um caminho pejado de ‘sangue, suor e lágrimas’.

O ‘ajustamento’ – necessário face às novas condições da ‘globalização’ – foi concentrado no sector público. Do lado da iniciativa privada foi para os ditos empreendedores relativamente facilitado pois processou-se à custa de uma profunda desregulação do mercado de trabalho e da criação de um exército de desempregados que não trouxe qualquer acréscimo de competitividade (prometida) mas pelo contrário uma brutal contracção dos salários e a insegurança (sob o ardiloso nome de ‘flexibilização’) e um longo período recessivo. Se, neste momento, existe uma réstia (esboço) de crescimento económico, anémico e essencialmente projectado para o amanhã é pela simples razão de que em 3 anos caímos a pique, tendo a economia esbarrado realidades impostas do exterior (nomeadamente a obstrução ao financiamento) e os portugueses com o paredão da sobrevivência. Ora, quando, por exemplo, uma bola bate no fundo de um poço ela após tocar essa superfície ‘saltita’, por instantes, para voltar a cair. Esta a imagem que encaixa na situação portuguesa. Portanto, nada do que foi aparentemente adquirido aparece como ‘sustentável’.
Na verdade, perpassa a sensação de que estamos a viver um tímido ‘pinchanço’ (referido na imagem do poço) já não sendo possível mascarar, por mais tempo, que o ‘programa de ajustamento’ não foi concebido e executado de modo a permitir um crescimento económico adequado à situação que motivou a intervenção externa. Na realidade, a resposta à crise da dívida soberana passaria por um sólido crescimento da economia, de modo também soberano, i. e., ‘resgatador’ da dependência financeira que, entretanto, se aprofundou. Isso não existe no actual contexto global e mundial.

Em Maio sairemos - formalmente repita-se - do programa de auxílio económico e financeiro (PAEF) para nos lançarmos na aventura dos mercados que manifestam uma voracidade crescente. Até aqui existiu um auxílio financeiro (as 'tranches libertadas’ trimestralmente pela troika) mas no plano económico nada de ‘estrutural’ foi feito para além de falências em catadupa e privatizações avulsas.

Após 17 de Maio o País confrontar-se-á com um autêntico vazio estratégico financeiro e económico. A única certeza é uma calamitosa destruição da coesão social que vinha sendo construída há 4 décadas. 
Numa Europa em permanente desmembramento, sem projecto para futuro, sem coesão política, sem o mínimo de força institucional, a dependência económica do País agravou-se. Não existe neste momento qualquer modelo de crescimento na calha e muito menos ‘sustentado’. A realidade mostra que se tornou mais difícil escapar da pobreza, para onde fomos [deliberadamente] atirados, do que a necessidade de ter de recorrer, no futuro próximo, a novos e humilhantes ‘resgates’. 
Esta a verdade oculta atrás do anunciado ‘fim do protectorado’ e que revela a enorme volatilidade das ‘conquistas’ do programa de ajustamento em curso.

Portanto, Passos Coelho só pode anunciar – após 3 anos de tremendos sacrifícios - um tipo de saída: à deriva!

Comentários

épá há deriva andamos nós há 900 anos

se bem me lembro desde 1981 ando na deriva migratória logo ide encontrar poesia no viegas tá?

não tá?
atão aguenta aguenta ó taveira

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