O PR francês e a laicidade

Le Figaro.fr e a AFP informaram que o PR francês, Sr. Macron, recebeu no Palácio do Eliseu, representantes das ‘seis principais religiões’ (i.e., as de maior poder financeiro e peso eleitoral).

Na sequência da audiência concedida, no dia 21 deste mês de dezembro, aos dignitários das Igrejas católica, protestante, ortodoxa, muçulmana, judia e budista, afirmou-lhes que estaria “vigilante” quanto ao risco de uma “radicalização da laicidade”.

Não se admitindo que o PR francês desconheça a matriz centenária da Constituição, que o obriga a defender a laicidade, só a demagogia explica a prometida vigilância, como se a maior virtude e exigência da democracia fosse crime.

Quanto à “radicalização da laicidade”, paradoxo que só pode nascer na cabeça obtusa de um clérigo ou na subserviência torpe de um político sem coluna vertebral, urge explicar que a radicalização da neutralidade, seja no que for, é uma impossibilidade conceptual.

«A França tornou-se oficial e expressamente um Estado laico a partir da promulgação de sua Constituição de 1958, tendo os limites do conceito de laicidade sido positivados desde 1905, na “Lei de Separação”, onde consta:

Art. 1º: A República assegura a liberdade de consciência. Ela garante o livre exercício das religiões.

Art. 2º: A república não reconhece, não assalaria e não subsidia nenhuma religião.»

Macron esquece os deveres a que está obrigado, para salvaguardar o seu futuro político, e hipoteca a vigilância do proselitismo, que dilacera a sociedade, na luta religiosa pela quota ou hegemonia do mercado da fé.

Não há democracia nem liberdade religiosa sem a laicidade, isto é, sem a neutralidade religiosa do Estado, a quem cabe defender todas as crenças, descrenças e anti crenças.

Macron parece ignorar as guerras religiosas que, até à paz de Vestefália, dilaceraram a Europa, e continuam a ensanguentar o mundo.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

Manuel Galvão disse…
Sob a inspiração do lema “um Deus no Céu, um Imperador na Terra”, Constantino proclamou em 313 o Édito de Milão, lei que garantia liberdade para adorar qualquer deus, o que seria fundamental para a futura conversão total do império à religião. “Na prática, o Édito de Milão representou a verdadeira guinada. Teodósio, que instituiu o cristianismo como religião oficial do império romano, apenas consumou um processo de algumas décadas, consolidando a tendência inaugurada por Constantino”.

A religião é importantíssima para controlar a angústia existencial do homem vivendo em sociedade. O poder temporal não tem métodos eficazes de fazer crer aos cidadãos que os homens nascem com dignidades diferentes. Só a religião consegue fazê-lo aceitar isso.

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