O PR, os fogos e as previsões

Daqui a duzentas e catorze missas, uma mensagem de Ano Novo, uma gripe, seis beija-mãos episcopais, quatro mil e seiscentas entrevistas, declarações e comentários e outra hérnia, estaremos a escutar Marcelo, à saída da missa de sufrágio por novos mortos dos incêndios que vierem, a dizer que nada aprendemos com as tragédias do ano anterior.

É fácil, a quem não governa, e a quem as desgraças aumentam a reputação e o afeto, ir ao encontro de um país que espera sempre um D. Sebastião nos dias fumegantes de cada incêndio que se repete.

Agora, quando a chuva e frio nos fustigam, apesar do aquecimento global e da escassez de água para repor os lençóis freáticos, é a altura adequada à reflexão sobre as tragédias vindouras, antes de acusarmos os suspeitos do costume.

É agora que convém indagar o que sucede aos pirómanos filmados pela PJ; o que fazem os autarcas, que nos custam uma fortuna, na prevenção dos incêndios; o que faz a EDP para evitar que as linhas de alta tensão façam curto-circuito com árvores e ateiem novos incêndios; quem lucrou com os fogos; quem instigou a precipitação nas indemnizações, sem tempo de avaliar os prejuízos e a incúria; que fará a JAE para limpar as bermas das vias de circulação; que coimas se aplicam a quem tem árvores a menos de 10 metros das estradas ou a menos de 50 das casas de habitação; quem se opõe à utilização de terrenos cujos donos se ignoram; quem avalia a eficácia das corporações de bombeiros e quem tem a coragem de enfrentar os líderes corporativos.

No ano que virá, talvez mais quente e calamitoso, com eucaliptos a baloiçarem ao vento e a oscilarem sobre as estradas, com os matos a crescerem até junto das habitações e as pessoas a evitarem os seguros, à espera do Estado, sem os incendiários julgados, a EDP punida, os donos dos terrenos responsabilizados, os autarcas preocupados e os cidadãos cada vez mais crentes na senhora de Fátima, não haverá milagre para os incêndios que aceleram o deserto em que as terras escassamente produtivas se transformaram.

Como ninguém fiscaliza orçamentos para a reconstrução, com a possível concertação de preços entre empreiteiros, nem a qualidade das obras, sob a forte pressão mediática e os constrangimentos sociais de localidades em que todos se conhecem, as tragédias de muitos e o benefício de poucos vão repetir-se em sítios diferentes, onde o país voltará a arder.

Quem avalia os custos/benefícios de uma reconstrução cuja qualidade não é vigiada e a necessidade ponderada? Quantos resistirão ao êxodo que se quis travar e ao luto que se impediu com o ruído que não para e a repetição de imagens que reabrem feridas?

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