Jerusalém: cruzadísticos enigmas …


Desde 1981 que Jerusalém (a cidade antiga) é património da Humanidade. Tal distinção não a tem poupado de três situações: primeiro, pertence ao grupo de património mundial em perigo; depois, sendo uma cidade santa para as 3 religiões monoteístas vive sobressaltada pelos recorrentes conflitos, finalmente, é no presente a centralidade de uma acérrima disputa entre dois povos (judeus e palestinos). Na realidade, um explosivo caldo de culturas (civilizações) e religiões.

Jerusalém tem sido uma cidade historicamente atribulada e repetidamente violentada. Provavelmente foi fundada pelos semitas mais de 2000 anos antes do início da era cristã, mas a tradição religiosa afirma que foi fundada por antepassados do profeta Abraão, elo comum do judaísmo, cristianismo e islamismo. Ora, os semitas são considerados um conjunto de povos com uma raiz linguística comum que sendo originários da Arábia (ou da antiga Mesopotâmia) teriam migrado, dispersado e construído diferentes identidades pelo Médio Oriente e Mediterrâneo numa interminável busca de terrenos férteis. Aparentemente distantes de qualquer contexto religioso.
 
A ‘diversidade rácica’ que chegou até ao presente teria origem nestas derivas e nestas múltiplas diásporas. Essa diversidade foi integrando, no longo percurso histórico, um cocktail de povos que vão desde os fenícios, os hebreus, os amoritas, os cananeus, os sírios, os arameus, os árabes e os hicsos.
Em resumo, no Médio Oriente residem uma multitude de povos que, hoje, e após séculos de vicissitudes históricas, dá origem a enfrentamentos baseados essencialmente na fixação (ocupação) de territórios físicos, geográficos, que constantes conflitos bélicos foram ao longo de tempo definindo. Jerusalém não escapou a esta saga. Antes pelo contrário, será um dos focos de conflitualidade no Médio Oriente que há mais tempo permanece em atividade.

Se nos reportarmos ao domínio romano que, no período bizantino, veio alienar o controlo da cidade aos ‘filhos de David’ e, imperialmente, incrustou aí o cristianismo arredando os cultos hebraicos (judaicos), temos a noção que essa ‘mudança’ teve o intuito de transformar Jerusalém (e a região) numa ‘Terra Santa’. Verificamos que, após o período de ocupação romana, aquando da conquista de Jerusalém pelos muçulmanos (Saladino), começaria um dos períodos mais conturbados da história do Ocidente que se prolongou por grande parte da Idade Média (dois séculos) e ficou conhecido pelo período das ‘Cruzadas’.

Na realidade, quando pensamos em Jerusalém a primeira imagem que nos assalta é a saga das cruzadas. Estas movimentações bélicas de inspiração cristã sucederam-se umas atrás das outras (nove segundo a tradição) desde o século XI ao XIII, havendo modelos para todos os gostos. Provavelmente, as cruzadas são a matriz de atitudes 'preconceituosas' contra os judeus que foram compulsivamente compelidos a subsidiar estas peregrinações armadas de índole cristã, imbuídas do fanático espírito de libertar Jerusalém dos ‘infiéis’ (pagãos segundo a terminologia oficial) e preservar (para o Ocidente) os lugares sagrados de eventuais profanações.

As Cruzadas redundaram num enorme fracasso porque os europeus eram aí ‘estranhos’, desconhecedores do terreno e, ainda, manifestamente ignorantes da situação concreta do modus vivendi das populações que aí residiam. Foram intrusões. Roma (sede do papado) não tinha qualquer estratégia de consolidação para estes 'lugares sagrados'. Tanto, as muralhas de David relíquias do judaísmo, como o mítico ‘Santo Sepulcro’ para o cristianismo, foram destruídos pela hordas dos sucessivos ‘invasores’ e para futuro ficou, nestas paragens, o domínio muçulmano e resquícios históricos do passado.  Em Jerusalém o que – por enquanto! - permanece intacto é a imponência da grande mesquita de Al-Asqa.

No presente, Donald Trump parece apostado no lançar no terreno uma nova cuzada (evangélica?) que vem muito a propósito das vicissitudes da política americana. A primeira das cruzadas de triste memória e absolutamente desastrosa para o Ocidente ficou conhecida como a dos 'pobres' (também denominada 'cruzada popular ou dos mendigos'). A 'neocruzada de Trump', mais consentânea com um atropelo civilizacional, provavelmente, entrará na História como a dos ‘pobres de espírito’.
Fugir do emaranhado de suspeitas lançadas pelas investigações sobre ligações da sua campanha com a Rússia recorrendo ao agudizar dos conflitos latentes no Médio Oriente não é inovador e muitas vezes só adia o descalabro. Poderá ser um passo tático, prisioneiro de estafadas estratégias de conservação do poder, isto é, criar um conflito externo para aliviar as dissensões internas é um efémero estratagema.

Encurtando razões constata-se que depois do fim da II Guerra Mundial - confinadas a duas vertentes em permanente oposição e disputa: árabes e judeus. Jerusalém esteve no cerne da ‘Guerra de 1967’ tendo a sua zona oriental, onde vive uma população maioritariamente palestina, sido ocupada por Israel, com a promessa de liberdade de acesso das diferentes religiões aos seus ‘santuários’.
Mais tarde (2000), nas malogradas negociações de paz de Camp David (a toponímia diz alguma coisa) estabelece que a Palestina poderia usar parte da zona oriental para instalar aí a futura capital de um Estado. Só que a solução da coexistência dos dois Estados na mesma região, consensualmente defendida no seio da ONU, nunca mereceu a aceitação de Israel e, por outro lado, é para muitos palestinos a abdicação do território histórico que consideram inalienável. Esta dualidade tem levado, na prática, à radicalização bilateral do conflito.
Ambos os povos (judeu e palestino) caíram na armadilha do ‘tudo ou nada’ e a confrontação entrou na rotina dos dias transmitindo a noção de que o conflito israelo-palestino é insolúvel, para desgraça dos dois povos.

No meio disto, existirá uma vertente cristã à volta deste problema, neste momento relativamente silenciosa - apesar de declarações formais e de princípio do Vaticano -, e esta contenta-se com garantias de acessibilidade aos chamados ‘lugares santos’, qualquer que seja a situação da Palestina, desde que o ‘turismo religioso’ funcione. Quando se explora este ‘qualquer que seja’ deve entender-se que implicitamente o Ocidente está a aceitar a ocupação israelita efeituada em 1967. Os cristãos não reivindicam qualquer estatuto regional e não fazem propriamente ‘peregrinações’ a Jerusalém, quando muito passeiam pela mítica terra santa, tiram selfies e rabiscam postais ilustrados e colocam mensagens e fotos no facebook.

O confronto israelo-árabe tem razões profundas e traduz o grave problema existente entre dois povos e a definição dos seus territórios ancestrais que soluções políticas foram desenhando à volta de sucessivas e intercaladas ocupações quer sejam árabes (desde o fim do Império Otomano), quer judias (Movimento sionista do final do século passado) e a mais recente tempestade tecida à volta da questão de Jerusalém - que Trump veio novamente empolar - é o último (e desastrado) contributo para a exacerbação de um arrastado processo de conflitualidade.

Trump está a dar mais um passo de uma caminhada prenunciadora do desastre e absolutamente denunciadora do fim das imposições imperiais. O Mundo apesar de todos os alinhamentos mostra – apesar de tudo – algum rebuço em rasgar acordos internacionais. E o mais recente ‘diktat americano’ sobre Jerusalém não tem qualquer sustentabilidade política (mesmo entre os tradicionais aliados dos EUA) e o único fruto expectável à volta desta inusitada resolução de Trump será a intensificação do conflito latente na região. Agravamento que escapará – para futuro – ao controlo da tradicional (e infrutífera) mediação que Washington sempre quis desempenhar (para salvaguardar as aparências).

A atual ‘crise de Jerusalém’ já tinha sido anunciada há algum tempo atrás quando Trump entregou a condução das negociações de paz ao seu genro Jared Kushner, descendente de judeus, herdeiro de negócios da promoção imobiliária e, o mais importante, um olímpico ignorante dos meandros diplomáticos. O que parecia um caldo de cultura para o insucesso virou numa vil provocação aos palestinos e, indiretamente, ao Mundo.

A decadência eminente sempre contou com mutações traumáticas e o jargão da “America, Great Again” não esconde a premonição de um acelerado declínio. De facto, a posição da Administração de Donald Trump sobre Jerusalém prenuncia – sem apelo nem agravo - o ocaso de um período imperial em que os EUA mediavam tudo e todos e ‘mandavam’ no Mundo. O que verificamos hoje é um agonizante estrebuchar à volta de velhas hegemonias, na realidade, um espetáculo degradante que custará um incomensurável número de vítimas.

O problema é o que se segue. Temos a noção de após a queda de um império há sempre um novo que emerge. Falta descortinar os contornos desta evolução.

Comentários

Sem o enquadramento histórica, que e-pá aqui deixa, de uma forma sistematizada, não é possível compreender o que se passa na Palestina, na actualidade.
Deixo aqui o meu modesto contributo:
.
.
Jerusalém deveria ser uma cidade internacional, administrada pela ONU

Mexer em Jerusalém, é mexer numa ferida que ainda sangra. Ela pertence ao mundo do imaginário das três grandes religiões monoteístas, e não pode ser reivindicada, em exclusividade, como capital de um qualquer Estado, cujos fundamentos assentem numa das doutrinas dos Livros Sagrados (Antigo Testamento, Evangelhos e Alcorão).

Jerusalém deveria ter um estatuto único, universal e independente, sob a administração da ONU, que garantiria a liberdade de culto e o acesso dos crentes aos seus lugares sagrados.
...
Vai fazer um século, que a Palestina, pela Declaração de Balfour, sofreu um rude golpe, ao permitir que o sionismo internacional lançasse a primeira pedra do seu plano, de longo prazo, de recuperar para os judeus o Estado e o território que perderam há dois mil anos, em consequência da sua integração no Império Romano. Se o mundo todo começasse a reivindicar direitos históricos milenares, o caos, a desordem e a guerra surgiriam por todo o lado.

Quem poderá invocar o direito histórico, em relação à Palestina, será o povo palestiniano, um povo que resultou da natural evolução demográfica da região, depois da época do Império Romano, e que foi traído, em 1948, pela comunidade internacional, quando esta aprovou, na ONU, e ainda sob o efeito emocional dos crimes do nazismo alemão sobre os judeus, a constituição do Estado de Israel, naquele território, entretanto islamizado, ao longo de sete séculos. Foi a mesma coisa que lançar gasolina para o meio do fogo. E a gasolina foi oferecida pelo poderoso lobie sionista, que os grandes banqueiros judeus, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, sustentam, alimentam e estimulam.
Alexandre de Castro
.
http://alpendredalua.blogspot.pt/2017/12/jerusalem-deveria-ser-uma-cidade.html
Sem o enquadramento histórica, que e-pá aqui deixa, de uma forma sistematizada, não é possível compreender o que se passa na Palestina, na actualidade.
Deixo aqui o meu modesto contributo:
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Jerusalém deveria ser uma cidade internacional, administrada pela ONU

Mexer em Jerusalém, é mexer numa ferida que ainda sangra. Ela pertence ao mundo do imaginário das três grandes religiões monoteístas, e não pode ser reivindicada, em exclusividade, como capital de um qualquer Estado, cujos fundamentos assentem numa das doutrinas dos Livros Sagrados (Antigo Testamento, Evangelhos e Alcorão).

Jerusalém deveria ter um estatuto único, universal e independente, sob a administração da ONU, que garantiria a liberdade de culto e o acesso dos crentes aos seus lugares sagrados.
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Vai fazer um século, que a Palestina, pela Declaração de Balfour, sofreu um rude golpe, ao permitir que o sionismo internacional lançasse a primeira pedra do seu plano, de longo prazo, de recuperar para os judeus o Estado e o território que perderam há dois mil anos, em consequência da sua integração no Império Romano. Se o mundo todo começasse a reivindicar direitos históricos milenares, o caos, a desordem e a guerra surgiriam por todo o lado.

Quem poderá invocar o direito histórico, em relação à Palestina, será o povo palestiniano, um povo que resultou da natural evolução demográfica da região, depois da época do Império Romano, e que foi traído, em 1948, pela comunidade internacional, quando esta aprovou, na ONU, e ainda sob o efeito emocional dos crimes do nazismo alemão sobre os judeus, a constituição do Estado de Israel, naquele território, entretanto islamizado, ao longo de sete séculos. Foi a mesma coisa que lançar gasolina para o meio do fogo. E a gasolina foi oferecida pelo poderoso lobie sionista, que os grandes banqueiros judeus, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, sustentam, alimentam e estimulam.
Alexandre de Castro
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http://alpendredalua.blogspot.pt/2017/12/jerusalem-deveria-ser-uma-cidade.html



Desculpem-me a duplicação da publicação, pois não tinha compreendido as respectivas instruções, em relação à validação do comentário.

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