Da Covilhã à Lourinhã, pelos caminhos da vida e da política – Crónica

O tenente Gaspar, farto de perder noites a manter-me detido, a dar-me conselhos, até de madrugada, a advertir-me de que não devia andar com oposicionistas, mudou de tática e ordenou ao 35, conhecido esbirro da PSP, autorizado a trajar à civil, que me aguardasse à saída da pensão, depois do almoço, para me solicitar diariamente a identificação.

Foram dias sucessivos em que o biltre me pediu o nome, filiação, naturalidade, morada e profissão, numa manobra intimidatória que visava afastar-me do grupo do Dr. Raposo de Moura. De tantas vezes repetir o monótono inquérito, de que fingia tomar nota num caderno, a ocultar a vergonha de me encarar, um dia, quando chegou à profissão, acabou o interrogatório a perguntar-me: «o Sr. professor é caixeiro viajante»?

Deixou-me seguir, com os nervos em franja, a explodir de raiva e, ao chegar ao Café Montalto, vi o tenente Gaspar à entrada onde, aos gritos, lhe perguntei quando acabava a perseguição que o 35, a seu mando, me movia; quando veria respeitado o artigo 8.º da Constituição, como se a Constituição de 1933 intimidasse a polícia, e o tenente Gaspar embaraçado, mirado por oposicionistas e outros fregueses do Café, a balbuciar “senhor professor, … senhor professor… o que se passa…” e eu a dizer-lhe que ele bem sabia, que enviava todos os dias o 35 a intimidar-me à saída da pensão, e ele, Gaspar, cobarde e bajulador, a dizer-me… “V. Ex.ª…vou averiguar o que se passa…”, e a esgueirar-se sob os olhares divertidos do Raposo de Moura, João Heleno e Ribeiro dos Tabacos que aguardavam, curiosos, a explicação da minha fúria.

Nessa semana já tinha sido visitado pelo diretor escolar interino, o patife que me queria longe, a lastimar-se por ser preciso ir um padre à minha escola ensinar a doutrina, caso único no seu distrito, e a aconselhar-me a rapar o bigode, para não dar mau exemplo aos alunos, como se as crianças pudessem deixar crescer o bigode que, até em mim, ainda despontava tímido.

Penso que o diretor escolar Silva Mendes e o tenente Gaspar confiavam nas virtudes da intimidação, ao contrário do padre Morgadinho que já advertira a pide da minha total irrecuperabilidade. O padre havia de ser agraciado com o título de cónego, a medalha de ouro da cidade da Covilhã e o nome numa rua, talvez para lhe apaziguar o ódio ao 25 de Abril ou para o premiar das denúncias dos democratas, bondade do autarca Teixeirinha que esquecera a prisão do seu amigo Patacho, que o padre acusara, como era seu hábito, e lhe atribuiu a venera, malhas que a aflição eleitoral teceu para presidir à Câmara.

A canalha fascista era mais agressiva nas regiões do interior do país como notei quando, perante a obstinação com que era acossado, concorri para terras do litoral e fui parar à Lourinhã. Ali, na pequena vila, a pide não dormia mas era mais discreta e as autoridades locais menos politizadas e exuberantes na repressão.

Pude angariar fundos para a rotativa do jornal República que teve como consequência a destituição de dois vereadores que deram 10$00 cada um, do mesmo modo que teriam apoiado uma obra pia se acaso lhes fora solicitado. Até me perguntaram se queria maior quantia, tal era a despolitização, ao contrário do presidente da Câmara a quem também solicitei a contribuição e sorriu ao meu atrevimento. Quando foram afastados de novo mandato, agradeceram-me por tê-los aliviado do fardo, informados que tinham sido do motivo da substituição.
A lista de contribuintes esteve mais de um mês na barbearia do Sr. Bernardino, corajoso oposicionista que logo disponibilizou o seu local de trabalho e angariou donativos.

O «Direito à Informação», se a memória me não trai, publicação de vários católicos, que me chegava de vez em quando, metia-o por baixo de algumas portas, a tremer, a fingir que apertava o sapato, enquanto me atrasava do juiz, do delegado do Ministério Público e do conservador do Registo Predial que, embora democratas, não me dariam cobertura, durante os passeios que fazíamos após o jantar.

Só o delegado António Joaquim Moniz da Maia se manifestava claramente opositor ao regime e, tal como previu, reprovaria no concurso para juiz. O Dr. Carlos Crespo Dias Coelho, apesar de omitir os dois últimos apelidos, era um democrata convicto, primo do escultor Dias Coelho, assassinado a tiro, pela pide, na Rua dos Lusíadas, em Lisboa. O conservador do Registo Predial, António Emílio de Abreu Dantas era outro democrata.

Mais tarde havia de dar conta que a mesma publicação era também distribuída pelo Dr. Afonso Moura Guedes, o único advogado em exclusividade, que o curso de cristandade devolvera ao catolicismo e à crença da mulher, notável senhora que, sendo notária, não podia substituir o delegado do Ministério Público na sua ausência, por ser mulher. Não fora esse defeito, seria substituta legal obrigatória. Moura Guedes viria a ser deputado à Assembleia Constituinte, líder parlamentar do PSD e governador civil de Lisboa.

Eu continuava a adiar a incorporação militar pois aos ofícios do comandante militar de Santarém que regularmente perguntava ao delegado escolar se o mancebo com o meu nome estava, de facto, a frequentar as cadeiras de Latim e Alemão que me faltavam para completar a alínea e) do 7.º ano liceal, respondi sempre ser verdade, em ofício assinado, a Bem da Nação, com o selo branco da Delegação Escolar de que era eu o titular.

Estava convicto de que a guerra colonial acabaria antes da minha incorporação. Como me enganei!

Em outubro de 1965 a ditadura organizou a farsa habitual, que apelidava de «eleições», para a Assembleia Nacional. O mandatário nacional da Oposição foi Francisco Salgado Zenha. No distrito de Lisboa foi Joaquim Catanho de Meneses, futuro fundador do PS e deputado à Constituinte. Na Lourinhã tive o privilégio de ser o delegado concelhio. Não havia o mínimo de condições e o comunicado de renúncia foi o ato com que as agências internacionais denegriram a ditadura. Eu é que fui logo convocado para a mais próxima incorporação militar, janeiro de 1966, apesar de ter adiamento deferido até setembro.

O abuso fascista era inexcedível. A União Nacional (UN), partido único, perguntava em comunicado para que queria a oposição saber as características do seu papel de voto não sendo forçoso ser igual!? Vedados à oposição o direito de resposta e o acesso aos órgãos de comunicação social, era impossível desmascarar o cinismo e denunciar o risco de quem votasse com um boletim diferente do da União Nacional.  

Os votos da UN vieram pelo correio depois de a Oposição, por falta de condições, ter já desistido de colaborar na farsa.

No café Belmar, à mesa do café, na véspera, quatro cidadãos inutilizámos os boletins de voto. Eis os nomes, além do meu: Afonso Moura Guedes, advogado; José Francisco Vacas, professor e Manuel Gentil da Silva Horta, comerciante. O Dr. Macedo Pitta, vice-presidente da UN, assistiu, teve um ataque de raiva e abandonou a mesa comum.

Também o barbeiro Bernardino Anastácio, se não estava excluído dos cadernos eleitorais por zeladores da ditadura, a Dr.ª Filomena, notária, a Manuela Marques Leal, farmacêutica, se inscrita, bem como Marques da Silva, Mariano Vicente, Engenheiro Fernandes ou o escrivão Robim, nunca votariam na orquestra salazarista da UN.

De certeza absoluta, os cidadãos, acima referidos, inutilizámos os boletins de voto.

No dia seguinte, à hora combinada, encontrámo-nos os quatro a votar e sorrimos com cumplicidade. Os resultados eleitorais sufragaram a lista da UN (única) com cerca de 98% dos votos, tendo havido 2 (dois) nulos, em todo o concelho.

Eram assim as eleições fascistas. Surgem discípulos, caluniadores, mentirosos e bufos, nostálgicos do passado, e ocupam os mais altos cargos políticos, mas a fiscalização dos atos eleitorais permanece ainda como conquista de Abril.

Ponte Europa / Sorumbático

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