O PS, o Governo e o futuro

A ansiedade da direita pelo poder, com a cumplicidade do PR, que preferiu à isenção a vingança contra Sócrates, criou as condições para que uma figura menor da política e da ética, Marco António, exigisse à figura ainda menor, Passos Coelho, a renúncia ao apoio ao PEC-IV e a abertura da porta à trágica entrada da troika.

O PS, por incúria ou cinismo, permitiu que a direita construísse uma narrativa contra o seu último governo, como se a crise financeira internacional não tivesse existido, enquanto a comunicação social foi sendo confiscada pelo poder económico e financeiro.

Da impreparação de Passos Coelho e da agenda escondida deste Governo sabe-se quase tudo, por dolorosa experiência, pela tragédia que se adivinha e pelas intrujices notórias. Da manipulação estatística dos números do desemprego até à preparação dos cortes das pensões, para depois das eleições europeias, passando pelo anúncio da recuperação que algum dia terá de acontecer, nada de bom se pode esperar deste Governo.

Quando só resta a venda da Segurança Social e a entrega total da Saúde aos privados e à Igreja, a oposição divide-se. O BE entra em dissolução e as vaidades pessoais elevam-se à categoria de partidos. O atual líder do PS, num ato de coragem ou insensatez, acusa os últimos quatro governos com igual severidade, o que parece injusto. Até Santana Lopes é elevado à categoria de governante, depois da interinidade trapalhona que as eleições puniram.

Seguro saberá o que fez. Se ganhar folgadamente as eleições europeias, procedeu bem, isto é, não lhe fazem falta os eleitores que alienou. Se acaso as perde ou as ganha tão escassamente que, transpostas para as legislativas, não pudesse formar Governo, perde as condições para continuar a liderar o PS.

O gesto de António José Seguro em relação a Sócrates, simétrico do de Passos Coelho contra Marcelo, revela que as juventudes partidárias não são universidades da política, são madraças que dão cursos por equivalência.

Cavaco e Passos Coelho também não merecem os lugares que ocupam mas, depois da golpada da posse da ministra das Finanças, para um Governo que não existia, mantêm-se nos lugares, sustentados pela frágil legalidade e duvidoso interesse nacional, unidos numa cumplicidade de contornos mal definidos.

Comentários

Agostinho disse…
O que agora está claríssimo já o está há muito. Os partidos do chamado bloco central continuam reféns das alhadas em que se meteram e os outros jogam segundo as vaidades de circunstância. Assim não há solução para Portugal. Continuará colonizado por interesses exógenos por tempo indeterminado,com tendência para o infinito, pelo determinismo fadístico da Nação?
Quem merece/carece resgate são os partidos a que aderiu a maioria dos portugueses(em que votam), por razões meramente emocionais como quem escolhe, em menino, ser adepto dos clubes de futebol da moda.
Este comentário foi removido pelo autor.
Concordo inteiramente. Mas parece-me que o PS, com a sua indecisão e a sua moleza, tem muito mais a perder do que a ganhar.
e-pá! disse…
AJ Seguro fez ontem um autêntico haraquiri político. 'Escavou' (n)uma fractura (partidária) que, desde há cerca de 2 anos e meio, andava a ser cuidadosamente 'terraplanada'. Agora é que o partido está mesmo 'partido'.
As próximas eleições europeias tornaram-se numa prova de fogo para o líder socialista e as manobras 'sucessórias' não tardarão a conhecer a luz do dia e a desestabilizar o partido.
O espectáculo que a Esquerda 'institucional' oferece ao País (PS, PCP e BE), bem como as 'ilusórias fantasias' da zona 'informal' (3 D e 'Livre') parecem encomendadas pela Direita (que não hesitará explorá-las sob a capa cínica que 'não deseja interferir na vida interna dos outros partidos'...).
O caminho para as eleições europeias vai ser uma autêntica chicana (onde não faltaram assuntos como o amianto, a praxe e quejandos).
Quo vadis?

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