Notas avulsas sobre o Congresso do PSD

A diferença entre a orquestra afinada do Coliseu e o País é abissal. No País não há lugar para ninguém, no Coliseu havia lugar para todos. Cá fora, houve vaias à entrada do PM; lá dentro, só houve palmas.

Quando PPC afirmou que «estamos hoje muito melhor do que há dois anos», surgiu a ovação genuína. Era notório que estavam lá os desempregados que tinham conseguido emprego, ao contrário de centenas de milhar de portugueses que o perderam e que não são congressistas.

Lembrei-me da Loja dos Pássaros onde um papagaio que dizia palavras em português custava 500 euros; outro, que as dizia também inglês, custava 1000 euros; um terceiro, 2.000 euros. Um cliente, estranhando o preço, inquiriu quantas línguas falava o último. O dono da loja advertiu que nada dizia mas que os outros o tratavam por Presidente. No Coliseu todos chamaram Presidente a Passos Coelho.

Enquanto fustigou os presentes, com banalidades e números que ninguém pôs em causa, afirmou que o PSD era um partido social-democrata. Foi uma hora entre sócios, onde só faltou, para salvar as aparências, o Prof. Cavaco. Disse que nos últimos 10 anos, antes dele, isto é, do dilúvio, «a dívida duplicou, crescendo 10% ao ano», como se uma dívida que cresce 10% ao ano, durante dez anos, só duplicasse.

Passos Coelho atribuiu ao PSD a democracia julgando que o partido a precedeu, sem se dar conta de que, antes, não sentiu necessidade. Falou de 40 anos de luta pela liberdade, omitindo o tempo que ainda falta até 6 de maio e os dias que Abril já levava quando o PPD sentiu necessidade de existir.

Desconseguiu convencer os portugueses dos rios de mel doce e das virgens que reserva aos que votarem no PSD nas próximas eleições, mas os presentes, atentos, veneradores e obrigados, acenaram que sim, levantaram-se ordeiramente e aplaudiram-no, de acordo com o que lhe devem, quando, feliz, saiu pela crença natural.

O espetáculo, onde os adversários o desprezaram com a ausência, vai prosseguir no fim de semana. Até à chegada de Paulo Portas, o rival que mais o assusta, Passos Coelho pode dizer o que quiser e o seu contrário que a orgia de felicidade vai continuar.

Cá fora, o tempo frio, a chuva e a desolação não atrapalham o circo mediático encenado no Coliseu. Passos Coelho continuará a dizer que foi ele que tirou o País da forca e não confessa que o conduziu ao cadafalso.

Comentários

e-pá! disse…
De facto, o Congresso do PSD transformou-se num ritual celebrativo da actual saga governativa e que elegeu como tema a desvirtuação da história (do partido e do País).
As ruidosas ausências dos 'barões tradicionais' enfileiram com as reservas da facção dita 'social-democrata'.
Sem qualquer ordem ou preferência (às vezes difícil de estabelecer) não deixa de ser relevante, para o exterior deste partido, o 'distanciamento' físico e ideológico (quando não o vil
desprezo de desfilar fugazmente e em silêncio) de algumas 'personalidades' como, por exemplo, Manuela Ferreira Leite, Marcelo Rebelo de Sousa, Pacheco Pereira, Marques Mendes, Angelo Correia, etc..
Este é, de facto, um 'ambiente de fim de ciclo' que adquiriu características 'globais'. Isto é, o fim deste ciclo político (governamental) e partidário (da geração de 'jovens turcos' que há 4 anos tomou conta do PSD).
Um ensurdecedor sinal das mudanças ainda na forja - mas que já 'pontificam' nas cabeças dos congressistas - será a 'majestática' indiferença de Rui Rio que na frontal recursa em participar na liturgia partidária, mostra aos militantes (e ao País) existirem 'outras soluções', neste momento, inconciliáveis (com a actual direcção partidária)...
Por fim o humor (negro) da noite de estreia do concílio partidário esteve na afirmação produzida por Passos Coelho: "O PSD não é hoje menos social-democrata do que nasceu"... link
Uma objurgação sobre os 'ausentes', os 'resistentes' e os 'tresmalhados' que terá, necessariamente, um elevado preço político-partidário, não obrigatoriamente imediato...
septuagenário disse…
Os barões dos partidos (de todos os partidos)já mostraram o que valem.

Levaram o país aos jovens Sócrates e Passos.

Um dia também os Sócrates e os Passos serão barões.
Ricardo Amaral disse…
Sim senhor,se o nosso país agora fosse apenas um grande stand-up comedy(vi o resumo do discurso do Marcelo ontem sábado) o congresso do psd teria afinal uma grande solução estratégica para Portugal.Triste herança a de Abril quando pensamos na mudança de regime e vemos os resultados práticos de tal mudança,e o pior é que nenhum partido no parlamento é capaz,alguns decidiram que a solução era individar,outros vender a pataco(e proteger os amigos) e empobrecer e outros pensam que ainda estão em 1989.

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