Cavaco Silva, entre a devoção e a Constituição

Cavaco, no seu pardacento ocaso, é um piedoso crente que busca a salvação da alma e para quem o jurado cumprimento da CRP pode ser quebrado por uma assoalhada no Paraíso.

Sabia, por experiência antiga, que as leis sobre a IVG e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, lhe seriam devolvidas, ‘ipsis verbis’, pelo Parlamento, depois do inútil veto, numa afronta que bem mereceu e a que devia furtar-se.

Não lhe permitiu o ressentimento conformar-se com a inutilidade do gesto e tem agora oito dias para a promulgação ou para se demitir. Não há bicarbonato que lhe mitigue a azia. Nenhum partido, dos que foi cúmplice, lhe deu o conforto da unanimidade. Até a pouco recomendável dupla, Pedro e Paulo, fugiu à votação.

O mais reacionário dos PRs deixa a sua assinatura em leis que abomina e, para quem se julgou líder da direita, acaba como menino do coro a estrebuchar sozinho.

Até Marcelo, ao convidar Eduardo Lourenço, António Guterres, Marques Mendes, Lobo Xavier e Leonor Beleza para conselheiros de Estado se distanciou da estreiteza do antecessor, tornando-se, antes da posse e parafraseando Ricardo Araújo Pereira, o melhor PR dos últimos 10 anos.

A auspiciosa chegada de Marcelo não se deve a quem vem, é merecimento de quem vai. De vez.

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