Ziguezagueando sobre o Islão e a liberdade

Se perseguirmos os que divergem de nós abdicamos do respeito que exigimos. Temos o dever de proteger os islamitas da xenofobia que grassa na Europa onde a direita política começa a ter como única alternativa a extrema-direita, caucasiana, cristã e nacionalista.

A defesa dos crentes, de quaisquer crentes, não exige cumplicidade com as crenças que os intoxicam. Não faz parte da cultura humanista, que nos moldou, dar a face incólume à bofetada igual à que nos desfeiteou a outra.

Quando trocamos princípios por benefícios acabamos por perder uns e outros. Por mais que me esforce para entender uma religião que não se limita a impor normas aos crentes e quer impô-las aos outros, não o consigo.

A tradição, frequentemente invocada, remete-nos para usos erradicados pela civilização. Continuo a respeitar os crentes mas a ser intransigente para com todos os totalitarismos, seja qual for a sua natureza.

A libertação da mulher, o fim do esclavagismo, a abolição da tortura, a democracia, em suma, o respeito pela Declaração Universal dos Direitos Humanos não se pode submeter à vontade de Deus interpretada pelos funcionários de quaisquer religiões.

As teocracias que florescem no Islão não permitem a liberdade de culto de outra religião e exigem que as mesquitas sejam erigidas na Europa pluriétnica. Impõem o respeito que negam aos outros. Não há respeito mútuo sem reciprocidade.

A mais boçal caricatura de uma sociedade civilizada é o Estado Islâmico e a perversão mais ousada do proselitismo encontra eco na organização Daesh, a nova Al-qaeda cuja derrota ameaça espalhá-la em células terroristas à escala planetária.

Quando a religião se transforma num caso de polícia, na ameaça global, no proselitismo boçal, o combate na defesa da civilização é uma exigência dos que recusam submeter-se ao despotismo de um monoteísmo implacável e criminoso.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

Jaime Santos disse…
O multiculturalismo tem sido objeto de contestação contínua desde que a noção se popularizou nos anos 80-90. Com todas as suas imperfeições, ele representa a resposta da sociedade ocidental à entrada no nosso seio de credos e etnias muito distintas daquelas que aqui existiam habitualmente e cuja convivência foi tudo menos pacífica num passado não muito distante. Pode ser uma tentativa trôpega, mas aqueles que se declaram verdadeiramente Laicos devem, como diz, resistir (e combater) a tentação de dizermos a outros, 'não podeis viver entre nós'... Quanto à questão da construção das mesquitas, ela é uma de liberdade de culto que existe aqui e não nos Países Muçulmanos (e como tal deve ser denunciada) e não de suposta reciprocidade... A Liberdade segundo Voltaire obriga a Tolerância mesmo para com os Intolerantes. Mas Tolerância e Vigilância não são conceitos antagónicos...
Jaime Santos:

Não me parece que a divergência seja grande. Subscrevo facilmente o seu elegante e ponderado comentário, quiçá devido à influência dos mesmos autores e idêntica postura cívica.

Agradeço o comentário e a reflexão a que me obriga.
Jaime Santos disse…
Sim Carlos, a divergência entre nós é pequena. Mas recordo que a minha posição não é nova. Já Afonso Costa, creio, dizia que o Estado Laico é a melhor garantia não só de Autonomia do Estado em relação à Religião, como também das religiões em relação ao Estado. O que podemos esperar é que depois da ICAR ter aceite tal ponto de vista após o Concílio Vaticano II, o Islão como um todo o possa igualmente um dia acolher como parte da sua doutrina. Conseguir tal coisa obriga simultaneamente a inflexibilidade relativamente a aspetos essenciais das nossas leis (elas valem para todos, existe igualdade entre os géneros, não existem privilégios para religiões particulares, todos têm direito à saúde e à educação mas o ensino é igualmente obrigatório) e gentileza relativamente às particularidades e suscetibilidades dos recém-chegados. A Extrema-Direita disfarça por trás da contestação ao Islão um ódio bem mais simples, o ódio ao estranho cuja cor da pele não é branca... É por isso que assistimos ao curioso facto de ver a Sra Le Pen a defender o Estado Laico, quando historicamente a Extrema-Direita Francesa sempre alinhou com o Ultramontanismo...
Jaime Santos:

Aqui ficam duas opiniões que perfilho.

«O Estado também não pode ser ateu, deísta, livre-pensador; e não pode ser, pelo mesmo motivo porque não tem o direito de ser católico, protestante, budista. O Estado tem de ser céptico, ou melhor dizendo indiferentista» Sampaio Bruno, in «A Questão religiosa» (1907).

«O Estado nada tem com o que cada um pensa acerca da religião. O Estado não pode ofender a liberdade de cada qual, violentando-o a pensar desta ou daquela maneira em matéria religiosa». Afonso Costa, in «A Igreja e a Questão Social» (1895) R & L
Jaime Santos disse…
Eu subscrevo igualmente essas duas opiniões. Reconheço, no entanto, que não é fácil estabelecer um equilíbrio para a ação do Estado entre não ferir a liberdade do crente (ou do ateu ou agnóstico) na sua relação para com ele e simultaneamente não criar uma condição de privilégio com a justificação (legítima) de que não queremos ferir suscetibilidades particulares. Pela minha parte, eu admito que um muçulmano ou um cristão possam recusar um médico de um género diferente do seu, mas não admito que se coloque em causa a co-educação para não ferir a suscetibilidade dos pais de meninas muçulmanas. Por outro lado, admito que colégios privados possam fazer segregação de género, mas não admito que incluam nos seus programas as teses criacionistas em aulas de Biologia (podem ensinar o criacionismo à vontade nas aulas de Religião, não lhe chamem é Ciência). São opções e como tal discutíveis.
Mais um comentário seu que subscrevo integralmente, Jaime Santos.

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