Momento de poesia

Uma canção vulgar

Não sei se estou recordando
Qualquer coisa que ouvi na minha infância.
Poema fácil e brando,
Como o saibo da saudade e da distância…

Eu já li e vi tanto,
Vivi tanto de som e melodia,
Que já nem sei se o poema que hoje canto, Será, acaso, o poema de outro dia.

Uma canção vulgar,
Poderá ser uma onomatopeia
Das ondas, a marulhar,
Em tardes de maré cheia.

Coisas vagas, inconscientes,
Que eu não penso, nem componho,
Com enredos diferentes,
Que construímos em sonho.

Mas seja como for,
Há motivo forte que me obriga
A pôr de lado a dor
E a atirar aos ares uma cantiga:
“Ceifeiras, que andais nas ceifas,
Cantando ao Sol, aos trigais!
Sou eu quem come as regueifas
Do trigo que vós ceifais!”

Que seja velha a trova,
Não interessa a quem na escuta.
A poesia é como a fruta,
Sempre igual e sempre nova.
Haja vontade na gente,
Que em cada vez que se prova,
Tem sempre um sabor diferente.

Armando Moradas Ferreira

Comentários

Aurea disse…
Como sempre uma maravilha de poema

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