Cavaco e as próximas eleições presidenciais

As eleições que se avizinham correm o risco de ser as mais desinteressantes e apáticas do período democrático, quer pelo perfil dos candidatos, quer pelo desassossego geral, quer pelo ar dissimulado com que o recandidato Cavaco parte para a campanha.

Tendo sido o único PR que nunca se insurgiu contra a ditadura, e para cujo fim nada contribuiu, é o mais beneficiado, cultivando uma imagem de isenção que não condiz com o seu percurso cívico ou, melhor dito, com os solavancos do seu oportunismo.

A manifesta falta de cultura e de coragem não lhe tolheu a ambição com que pautou as palavras vagas e os silêncios pesados com que derrubou os adversários. Balsemão foi o primeiro a sucumbir perante a sinuosa marcha da sua avidez. Fernando Nogueira e Santana Lopes vieram a seu tempo, sem nunca desistir de transformar o PSD na correia de transmissão dos seus interesses, adjudicando fidelidades de incondicionais.

Na última segunda-feira, numa conferência com jovens da Universidade Católica, não se coibiu de afirmar que «os mais qualificados colocam-se de fora dos cargos políticos e dão lugar aos menos competentes e, consequentemente, aos menos sérios…». Não foi a auto-crítica pelo nebuloso caso das escutas, cuja invenção partiu de Belém, para colocar em xeque o primeiro-ministro, nem pelas mais-valias das acções da SLN, acções cuja aquisição, forma de pagamento e decisão de venda já devia ter explicado ao País. Foi a habitual suspeição dos demagogos sobre a classe política de que é um lídimo expoente.

Depois de um lastimoso mandato onde se calou perante as diatribes de Jardim e usou de inqualificável grosseria perante a Assembleia da República, no caso do Estatuto dos Açores; em que não teve um módico de dignidade para responder de forma adequada à caçoada de Vaclav Klaus sobre a gestão lusa do défice, em Praga, mas não lhe minguou despudor para presidir à comissão de canonização de Nuno Álvares Pereira, rubricando o milagre da cura do olho esquerdo de uma dona de casa, queimado com óleo de fritar peixe; em que se calou perante as violações cirúrgicas do segredo de justiça, as ameaças dos exóticos sindicatos dos magistrados ao Governo e à AR e o registo de escutas sem relevância penal, demolidoras para a luta partidária, aparece agora a dizer que se recusa a ser “arma de arremesso” de partidos políticos, quando os usa em seu proveito.

Os demagogos e hipócritas começam sempre por imputar aos outros os seus próprios defeitos e reivindicar a isenção de que se julgam ungidos. Os que estão na política são «os menos competentes e os menos sérios». Vão longe os glorioso tempos em que Dias Loureiro, Arlindo de Carvalho, Sousa Lara, Costa Freire e Oliveira e Costa  faziam parte dos mais competentes e sérios, quando não havia deslizes em obras públicas e o Centro Cultural de Belém e os fundos comunitários eram modelos de gestão.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

ana disse…
Tal e qual, sem tirar nem pôr.

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