Momento zen de segunda_03_03_2014-03-03


João César das Neves (JCN) deu o título de «Gambozinos» à homilia de hoje, no DN, começando por definir os animais imaginários com que se ludibriam os pacóvios, como «animais nocturnos, ariscos e fictícios, caçados em grupo nos bosques portugueses», à imagem e semelhança dos anjos, lobisomens, profetas, virgens e demais fauna mística que povoa a sua imaginação pia.

A homilia começa por afirmações triviais sobre economia, de que é destacado mullah no madraçal* de Palma de Cima, para logo lhe fugir o pé para a chinela, com a boca seca da eucaristia, o coração dorido do martírio do seu deus, o corpo debilitado pelos jejuns e a alma atormentada pelos ensinamentos do Concílio de Trento.

De prudente mullah da economia passa a talibã romano, a execrar a coadoção por casais do mesmo sexo. É a obsessão de quem troca o amor pela abstinência, o êxtase do corpo pela martírio da alma, a felicidade humana por uma assoalhada no Paraíso.

O domingo é um dia difícil para JCN. Depois do êxtase místico, das genuflexões pias da missa, das orações prolongadas e do jejum, é obrigado a aliviar o cilício para cumprir a publicação do dia seguinte, no DN, e, quiçá, a penitência a que o confessor o condenou.

É dessa penitência, com a auréola da santidade e os dedos condenados à tendinite, que emerge o desvairamento com que execra a aprovação da lei da coadoção por casais do mesmo sexo. Atira-se às teclas com o furor de Santiago aos mouros, com a raiva de um cruzado aos infiéis e a metódica tortura de um inquisidor aos hereges.

Afirma JCN que a referida lei «alterou o multissecular conceito  natural do matrimónio» como se os adjetivos fizessem jurisprudência, como se o esclavagismo e a tortura, por serem também multisseculares e naturais, fossem justos ou toleráveis.

Exoneradas a inteligência e a razão, ao serviço do seu Deus, JCN considera irrisório que «nos três primeiros anos foi realizado um total de 914 uniões, 0,8% dos casamentos do período. Seria mesmo uma necessidade relevante?». 

Que raio de argumentação! Se houvesse 914 pessoas em risco de se afogarem, apenas 0,8% dos afogamentos, discutiria JCN se seria relevante salvar essas 914 pessoas?

Depois do ruido criado pelo líder da JSD, com a proposta do referendo inconstitucional, agora que a proposta de lei, que já devia estar aprovada, voltou à A.R., JCN  afirma que «Desta vez discutem a co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo…» e adita em pura retórica: «No meio dos dramas nacionais, os deputados sentem-se livres para caçar gambozinos».

Para JCN, a afirmação dos direitos individuais é comparada cinegeticamente como uma «caçada aos gambozinos». «Bem-aventurados os pobres de espírito…» 

*’Madraçal’ é a palavra correta. ‘Madraça’, como costumo escrever, já foi substituída por ‘madrassa’. Também JCN não abdica de permanecer um ‘talibã’ romano.

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