UCRÂNIA: Uma crise a ‘todo o gás’…

No momento em que a Europa vive, com manifesta impotência, a crise ucraniana tende a esquecer-se dos seus próprios problemas e corre o risco de enveredar por posições irrealistas.
O Conselho Europeu, capitaneado pela Srª. Merkel, colocou-se a reboque de posições estratégicas norte-americanas e, irresponsavelmente, está a estudar sanções económicas link.  Todavia, a Europa conhece bem os limites até onde pode ir neste campo. Pelo meio existe o problema energético que a UE não pode dar-se ao luxo de ignorar. A UE a tentar emergir de uma arrastada crise económica não pode voltar a emergir noutra, a reboque do sector energético.

A ‘questão energética’ europeia tem, nos últimos anos, andado movimentada e tropeça com uma diversidade de projectos que estarão na origem remota da actual crise ucraniana, potencialmente capaz de colocar em polvorosa toda a região (Oriente Médio).
Trata-se do 'puzzle dos gasoductos' que se mostra muito confuso e de difícil interpretação em termos políticos e económicos. Embora possa parecer redutor reduzir todos os conflitos à simplista concepção de "war for oil", não é avisado passar ao lado desta perspectiva que se encaixa ou é complementar do xadrez militar em jogo.

A construção do gasoducto Nabucco tenderia – nos próximos anos – a diminuir a dependência energética da Europa em relação à Rússia e mereceu o entusiástico empenho de Bruxelas. As partes ocultas destes problemas são a Turquia e a Ucrânia. De facto, a Europa com o gasoducto Nabucco não adquire a ‘soberania energética’ mas, tão somente, transferia essa dependência da Rússia para a Turquia, contornando a Ucrânia, fonte de problemas à volta da questão energética no Médio-Oriente.
No meio destas manobras surge um novo projecto – à margem de Bruxelas – que acarretará uma reformulação da estratégica energética e alterações (se não o colapso) do projecto Nabucco. Trata-se do Trans-Adriatic Pipeline (TAP) que ligará os gasoductos orientais oriundos do Mar Cáspio (Azerbaijão) à Europa do Sul (Itália, Grécia e Albânia) e daí capacitado para ramificar-se no território europeu.
Este é mais um projecto que afecta directamente a empresa russa Gazprom que, no presente, representa cerca de 30% das importações energéticas europeias e cujo reacção foi colocar no terreno um ‘outro’ projecto – o South Stream.
Interessa referir que um dos principais partenaires do projecto transadriático (TAP) é a Alemanha que através da sua empresa E.On AG se envolveu em querelas (sobre assuntos concorrenciais), dentro da Europa, nomeadamente com Endesa (espanhola) e Enel (italiana).

O mapa de gasoductos da Europa (do Atlântico aos Urais) mostra como a Ucrânia, actualmente marginalizada das trajectórias de transporte poderá, no futuro, ser uma peça importante na rede de distribuição de gaz do Oriente para o Ocidente. Pormenorizando: entre o Médio Oriente e o Norte da Europa (ver figura).
De momento, a Ucrânia - tal como existe depois do colapso da ex-URSS - interpõe-se no trajecto de transporte energético ‘natural’, obrigando os projectos de pipelines a contorná-la.
Para futuro, interessaria remover este obstáculo em nome da ‘eficiência energética’, i. e., de maiores lucros e melhor acessibilidade.
O Mar Negro é um interposto físico (geográfico) entre o Mar Cáspio (onde estão grandes reservas de gaz natural) e o Mediterrâneo (a porta de entrada para a Europa 'consumidora'). A Crimeia (uma república autónoma da Ucrânia) é a ‘sentinela’ do Mar Negro.
Perante este quadro geo-estratégico é - como diria o Engº. Guterres - só fazer as contas… neste caso à vida!

Comentários

Agostinho disse…
Toda a embrulhada que existe é culpa do Criador que pôs o pitrol e o gás fora de alcance dos pacíficos europeus.
Desconfio que vamos ter de pagar cada vez mais à Rússia, mas também à Ucrânia dividida (fatal com o destino) ou subdividida. Os "coitados" deixam passar os tubos mas precisam de se aquecer para aceitar/praticar a democracia da UE.

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