O pai de Passos Coelho, o fascismo e a intolerância


O pai de Passos Coelho não é um analfabeto embrutecido na paróquia, um salazarista a quem castraram o raciocínio e intoxicaram a mente, um fascista impedido de ler jornais e dedicado a conversas de tasca e a atoardas das alfurjas da reação.

É um reacionário com habilitações, o médico que regressou à Pátria ressentido e que foi o presidente da Comissão Politica Distrital do PSD, em Vila Real. É um político cuja ignorância e ressentimento disputa com o filho, um indivíduo que não deu conta da má independência de toda a África colonial e que bolça alarvidades contra quem não podia já fazer uma descolonização.

Para se conhecer a minha posição republico um texto que escrevi há tempos:

***

Carta sobre a descolonização a velhos fascistas empedernidos

Vocês sabem que toda a gente sabe que vocês sabem que não houve descolonizações pacíficas depois das guerras de libertação e do sangue vertido.

Vocês sabem que toda a gente sabe que vocês sabem que não há um único exemplo de sucesso, que não tenha apanhado pacíficos colonos no vendaval das convulsões e dos ataques, às vezes tribais e bárbaros, que deram início à luta pelo direito inalienável à autodeterminação dos povos.

Vocês sabem que toda a gente sabe que vocês sabem que a obstinação fascista de Salazar, e seus cúmplices, esteve na origem da tragédia anunciada e da inevitabilidade do desastre.

Eu estive lá, nessa guerra absurda e criminosa, enquanto a guerrilha se estendeu a outras regiões de Moçambique. Cheguei com a guerra em Cabo Delgado e Niassa e voltei com ela estendida à Zambézia e a saber que alastraria como mancha de óleo, do Rovuma a Lourenço Marques.

Vocês julgam que não me comovi com o regresso e o drama das famílias sobreviventes, com a chegada de quem tudo perdera, o habitat, os haveres, a segurança e as ilusões? E que não pensei nos que combateram do lado errado e lá ficaram entregues à vindicta dos que, tal como eles, queriam sobreviver num ambiente onde escasseavam a comida e as oportunidades?

Ignoro o motivo por que insistem em responsabilizar quem não foi criminoso e teimam  ainda em branquear a ditadura opressora do povo português e dos povos coloniais. Um país com escassos recursos conseguiu integrar sem discriminações centenas de milhares de retornados numa epopeia de generosidade e inexcedível solidariedade, num momento grandioso da sua História.

Mas há sempre quem olhe sem ver, quem fale sem pensar e dirija o ódio às vítimas em vez de visar os algozes. Há fascistas que não vergam e ódios que não cansam.

Caros fascistas, vocês sabem que toda a gente sabe que vocês sabem como circulam as ideias de quem não compreende a História e ambiciona aventuras totalitárias na ânsia de uma desforra que transmitem de geração em geração e que parece estar a acontecer sob os auspícios de muitos que nunca viram África.

A vossa rede capilar venosa transporta sangue salazarista até à veia cava, que o deposita na aurícula direita (só podia ser a direita). A oxigenação não se conclui como devia. Na circulação pulmonar não liberta o anidrido carbónico do ressentimento e mingua-lhe o oxigénio da democracia, em doses suficientes, antes de chegar ao ventrículo esquerdo (exatamente por ser esquerdo). É por isso que esse sangue bombeado para a aorta ainda leva produtos finais do metabolismo reacionário quando bombeado para as ramificações arteriais que atingem todas as partes do corpo, cego e surdo aos ventos da História.

Há um veneno que vos intoxica enquanto não se libertarem dos resquícios fascistas que empeçonham o país que é de todos.

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