No rescaldo das Presidenciais 2016: a dúvida metódica (sem Descartes)…

As eleições presidenciais tendem a passar ao lado dos partidos. Contudo, esta tendência é apenas aparente. Neste domingo começaram a desenhar-se alterações que, mais tarde ou mais cedo, terão reflexos partidários.

Em primeiro lugar, e no que diz respeito ao PS, as réplicas podem significar o fim da sensibilidade (um termo que há alguns anos estava em voga) ‘segurista’. Não existe maneira credível de Maria de Belém e a sua entourage evitarem uma colagem aos 'tempos do Tó-Zé'.
Alberto Martins um dos mais visíveis apoiantes da candidatura de Maria de Belém ao considerar que o resultado obtido pela sua candidata é uma “grande derrota para o PS” link, está nitidamente a ‘desconversar’.
Mais do que criticar o facto de o PS não ter apoiado qualquer candidato é pertinente perceber por que razão isso realmente aconteceu. Aparecerem arautos do day-after a perorar sobre uma Esquerda indecisa, fustigada, fraccionada e, evidentemente, derrotada, quando no terreno se assume a bizarra condição de ser “a Direita da Esquerda” é de uma teatralidade shakespeariana (to be or not to be) .

O PS nestas eleições pecou por omissão – isso é uma evidência – mas nada indicia que a candidatura de Maria de Belém fosse a sua (boa) aposta. Mais do que um derrotado o PS foi um grande ausente.

Por outro lado, o PCP foi outro dos derrotados. É tempo de questionar a validade de uma candidatura partidária ao arrepio da possibilidade prática de vencer. As candidaturas de protesto e/ou de vinculação programática e doutrinal conferem coerência à campanha mas dificilmente são mobilizadoras e parecem pouco adequadas ao modelo nacional de eleição presidencial. 'Jogar a feijões' não é (politicamente) aliciante.
A táctica de entrar em campo para não perder por muitos na 1ª. parte e tentar vencer na 2ª. é errada no futebol, mas também não tem grande aceitação na política (passe a melindrosa comparação). 
Os comunistas ficaram reduzidos à sua fiel militância e alienaram votos dos tradicionais apoiantes e simpatizantes. Muitos consideravam aceitável (e viável) apoiar Sampaio da Nóvoa.

Finalmente, a votação no BE aparentemente contradiz esta argumentação mas na realidade trilhou por outros caminhos e reflecte outras condições (objectivas e subjectivas). Assemelha-se a uma eflorescência. E como sabemos essas emergências ficam muito expostas à erosão.

Em resumo, trespassa a ideia que a candidatura de Sampaio da Nóvoa poderia ter sido um bom denominador comum para a Esquerda. Ninguém consegue demonstrar esta asserção mas os factos permitem, à posteriori, enunciar esta possibilidade. 
Metodicamente continua-se a cometer erros e a ignorar verdades cartesianas.

Comentários

Manel disse…
Mais um post lúcido!
Manuel Galvão disse…
Um comunista a sério não vota em padres. Um comunista a brincar prefere votar numa cara simpática e bonita...
Que se cuidem ambos, pois no Quartel de Abrantes está tudo como d'antes...

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