Síria e o engonhanço de Genebra…

A conferência de Genebra promovida pela ONU (Genebra III) sobre a guerra na Síria é, em princípio, um importante meeting que se debruçará à volta da complexa situação do Médio Oriente.

Este encontro decorre na sequência da resolução nº. 2254 do Conselho de Segurança da ONU, de 18 de Dezembro 2015 link, e atribui ao “Grupo Internacional de Apoio à Síria” importantes responsabilidades na ajuda humanitária às populações civis atingidas pela guerra civil em curso e, ainda, na procura de uma resolução política para o arrastado conflito bélico.

É uma tarefa difícil senão mesmo impossível. A guerra civil síria nasce em (Março) 2011, na senda das chamadas ‘Primaveras Árabes’ e, passados 5 anos, tornou-se numa autêntica balbúrdia, onde ninguém se entende e começa a ser impossível definir onde os problemas começam e acabam.
De uma questão interna entre apoiantes de Bashar al-Assad e opositores, inicialmente congregados à volta do ‘Exército Livre Sírio’, o actual conflito contaminou amplamente o cenário e os equilíbrios políticos e militares internacionais, tornando-se uma inequívoca ameaça para a Paz. Na realidade, o conflito rapidamente alastrou para um contexto regional, onde se disputam lideranças e protagonismos e, hoje, envolve toda a comunidade internacional.

Países directamente envolvidos no contexto regional como o Irão, Arábia Saudita e Turquia, do gupo dos intervenientes próximos e os indirectos tutores  EUA, UE e Rússia, desejam todos ser actores principais mas, na realidade, permanecem de costas voltadas e entregues a fantasiosas e desgastantes 'manobras diplomáticas'
E, no terreno, proliferam os grupos ligados a todos estes intervenientes (regionais ou mundiais) perfazendo uma delegação a enviar a Genebra que integrando largas dezenas de participantes representativas  (mais de 17 organizações) actuam no anárquico teatro de operações (o chamado HNC – ‘alto comité para as negociações’). 
Uma extensa e heterogénea delegação oposicionista que, ab initio, recusa qualquer diálogo com o actual governo de Damasco.

Sabe-se que a ONU rejeita a participação do Daesh e da Frente al Nusra (ligada à Al Qaeda) que classifica como organizações terroristas, mas pretende incluir, sob pressões da Arábia Saudita, o designado ‘Exército do Islão’ liderado por Moamed Alush. O 'Exército do Islão', integra a denominada ‘Frente Islâmica Síria’ e em declarações recentes poucas dúvidas oferece que se trata de uma formação integrada na Al Qaeda link .

Por outro lado, os curdos sírios representados pelo Partido da União Democrática (PYD) foram liminarmente afastados da conferência link, por implacáveis pressões da Turquia, muito embora sejam os operacionais, no terreno, contra o Daesh.
 
Na verdade, quando no remanso dos nossos lares, se olha para esta tragédia assalta-nos uma pergunta: Porquê prosseguir nesta barafunda de protagonismos e representatividades quando a ‘solução’ parece ser outra e estar longe de Genebra?

A conferência de Genebra que mais parece um babélico encontro onde se juntam grupos e grupelhos numa antecâmara e os apoiantes de Bashar al-Assad noutra sala, está antecipadamente condenada ao fracasso. 
Melhor seria reunir à parte os grandes intervenientes EUA, UE e Rússia para trabalhar numa solução política eficaz e concreta. O problema é que a origem de todos os problemas residirá no reino saudita e ninguém quer admitir esse facto frontalmente por interferir com importantes questões geopolíticas de âmbito mundial. Quando se vasculha a 'guerra síria' tropeça-se, sistematicamente, com a Arábia Saudita.

Resta aguardar que a actual crise dos preços do petróleo conduza – por caminhos ínvios - a uma solução expedita.

Em vez de continuar a apostar na encomenda de intermediários para engonhar não seria mais honesto e digno enfrentar realidades que ameaçam tornar-se situações incontroláveis?

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