Cavaco, Castelo Vide, Pios e Ideologias…

O ex-presidente Cavaco foi dar uma ‘aula’ a um agrupamento de jotinhas, povoado e tutelado pela sombra de alguns barões, que açambarcou um ‘estatuto universitário’ (‘Universidade de Verão!’) para esconder múltiplas insuficiências e, pior, disfarçar carências alimentadas por recônditos apetites com vista a uma almejada carreira partidária.

Trata-se de um tirocínio para a política baseado no arrebanhamento pessoal e na manipulação de putativos candidatos para o exercício de cargos públicos futuros.

Ora, Cavaco foi convidado para botar faladura sobre realidade e ideologia. Temas que - passe o alvitre – o orador não teria grandes pergaminhos ou competência específica, já que todos carregamos às costas um passado.
Ninguém vive numa torre de marfim à margem do Mundo (real é suposto). Cavaco Silva tem uma especial filia para esconder evidências, para não referir as tais realidades que anunciou como castradoras de ‘pios’. Depois de 10 anos como primeiro-ministro e outros tantos como presidente de um partido os portugueses devem recordar-se que quando se apresenta às eleições presidenciais de 2006 pretendeu escamotear a sua condição de ‘político’.
Agora, sendo um homem com um percurso de Direita insofismável, quer esvaziar a doutrina política.
 
Francamente, a pretensa ‘Universidade de Verão’ recorda-nos organizações juvenis que proliferaram nos anos 30 pela Europa  - de que são exemplo a Hitlerjugend, os Fasci Giovanili di Combattimento e por cá a MP - cujos objetivos são hoje bastante claros, estão sobejamente estudados e desmontados.
Não significa que a insólita academia de Castelo de Vide deva ser confundida com as organizações fascistas ou nazis atrás mencionadas até porque o fenómeno das juventudes partidárias é transversal a todo o espectro político.
 
O papel das juventudes partidárias e o processo de formação de quadros políticos continua a ser um assunto em aberto e permanente evolução que se exibe entrecortada por sobressaltos, circunstancialismos momentâneos e derivas (programadas ou acidentais). 
Para além da defesa dos interesses específicos dos jovens (que existem e necessitam de mediação) as juventudes partidárias deveriam ser espaços criativos e de experimentação política, social e cultural e, acima de tudo, uma escola cívica em ambiente de independência, de liberdade e de renovação.
Nada disto é possível sem um substrato ideológico comum e partilhado capaz de cimentar a intervenção coletiva (fim último da política) e sem dogmatizar as questões, encerrando-as, tendo por referência os diktats de uma qualquer cartilha.
E o pior que se pode fazer para conspurcar este ambiente que se quer aberto, límpido e transparente é dar relevo aos ‘maus exemplos’. Foi isso que sucedeu com a ida de Cavaco a Castelo de Vide.
 
Cavaco na sua arenga revela que é a ‘metodologia de doutrinação’ o que está em causa. Resumidamente, trata-se de desenvolver uma ‘mitologia iconoclasta’ para a juventude, tendo como alvo o ‘colapso dos ícones ideológicos’ (de Esquerda, entenda-se). É atirar areia para os olhos dos cidadãos tentar ocultar os motivos agregadores dos cidadãos – e nomeadamente dos jovens - nos diferentes sectores partidários. Eles são sempre ideológicos ou, numa fantasiosa ausência deles, um processo oportunista quando não elitista. Não há outra escolha porque não existem estruturas partidárias inocentes ou imaculadas face ao largo espectro político disponível. A cultura partidária é sempre de compromisso (ideológico).
 
Na verdade, quando a Direita fala de ideologia refere-se ao marxismo e considera que esta é perigosa para o dominante modelo político atual. Primeiro, Marx foi acusado de deformar a realidade. Como a realidade persiste apesar das vicissitudes da aplicação da doutrina marxista pretende-se, no presente, esconder que a ideologia comporta no seu seio relações de dominação. Haverá sempre alguém disposto a escondê-las e escamotear o facto com o encarceramento das ideologias políticas (de Esquerda) na teologia dogmática dos mercados.
 
Na nossa paróquia o diácono para esta novena tinha de ser Cavaco Silva. Na realidade, a simples aceitação para deslocar-se a Castelo de Vide e destilar este tipo de retórica é – per si - um gesto ideológico. Com ou sem pios. Porque desde a sua rocambolesca visita às Desertas que pia como uma cagarra.

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