Notas soltas: Junho/2010

Israel – O ataque aos barcos que arriscaram furar o bloqueio a Gaza foi a decisão desatinada de quem arrisca o isolamento enquanto o Irão ameaça com a destruição. Naquela parte do planeta a demência e a fé preparam-se para a guerra.

Ucrânia – A decisão parlamentar de renúncia da adesão à NATO e a confirmação do estatuto de nação «não alinhada» foi uma resolução sensata que diminui as tensões entre os EUA e a Rússia, contribuindo para um clima de paz.

Golfo do México – A fuga de petróleo num poço de águas profundas provocou mais uma catástrofe ecológica que se junta à lenta e persistente escalada com que se vai destruindo o planeta e a vida que o habita.

10 de Junho – Parece que é a nossa morbidez que conduz à celebração da morte em vez da exaltação da vida e à perpetuação das piores memórias da ditadura para alimentar rituais que a higiene democrática já deveria ter banido.

União Europeia – Sem aprofundamento da coesão económica, social e política sucede o mesmo que às bicicletas: quando param, caem. Após 25 anos de tantos êxitos acumulados, a Europa não pode regressar à competição interna e aos nacionalismos.

Afeganistão – A descoberta de importantes jazidas minerais, especialmente lítio, longe de constituir uma esperança para o bem-estar dos cidadãos é mais um motivo para atiçar a luta tribal e a demência religiosa que dilaceram o país e impedem a paz.

Bélgica – Um país em permanente estado de desintegração, longe de contribuir para a estabilidade da União Europeia, a que presidirá no segundo semestre, é mais um factor de perturbação nesta Europa que tarda em encontrar o rumo e os timoneiros.

Madeira – Jardim recusou-se a reduzir 5% aos vencimentos dos políticos como a lei determina como já se negara a reduzir para um terço a reforma de professor de acordo com a disposição legal da República, da autoria de Sócrates. Ninguém o põe na ordem.

José Saramago – Com a sua morte desapareceu a maior referência cultural das nossas vidas, o escritor que levou mais longe a língua portuguesa e o que mais prestigiou a nossa cultura.

Cavaco Silva – A ausência do funeral de Saramago revela a qualidade intelectual do homem que acompanhou o Papa a todas as missas e esqueceu a deferência que devia ao Nobel do nosso contentamento e ao escritor que um seu Governo censurou.

Jaime Gama – Eis outra ausência inaceitável, que não dignifica o presidente da Assembleia da República, com a agravante, neste caso, de ser culto e de ter um passado democrático a que não fez jus na derradeira homenagem a Saramago.

Eutanásia – Considerando que «a vontade expressa do paciente é decisiva, mesmo quando este já não estiver consciente», o Supremo Tribunal Alemão decidiu impor que «médicos, assistentes ou enfermeiros têm de interromper uma medida de suporte da vida, se essa for a vontade do paciente».

Sondagens – A ampla maioria que as sondagens atribuem ao PSD, em eleições legislativas, prenunciam a alternância partidária. Esperemos que, de futuro, a discussão política substitua os ataques ao carácter do próximo primeiro-ministro, seja ele quem for.

Islândia – No dia em que entrou em vigor a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a primeira-ministra islandesa, Johanna Sigurdardottir, deu o exemplo e trocou alianças com a companheira. Foi o primeiro casamento homossexual segundo a nova lei.

Bélgica – As diligências policiais, para investigações em processos de pedofilia, bem como a apreensão de telemóveis e computadores pertencentes a bispos, provocaram a ira do Vaticano que acusou o País de sequestro e profanação.

Alemanha – A proposta de selecção de imigrantes através do Q. I. é uma triste tentativa num país em que a mais leve discriminação traz à memória os fantasmas de experiências que deixaram pesadas marcas.

Crise – A instabilidade económica, política e social tem-se agravado num quadro parlamentar fragmentado enquanto o PR se converteu no líder da Oposição à espera de uma reeleição que não merece.

Portugal Telecom – Ao usar a golden share, para se opor à compra da brasileira Vivo, pela espanhola Telefónica, o Governo cumpriu o seu dever, enquanto os privados portugueses mostraram que apenas os move o lucro, indiferentes ao destino da empresa.

Angela Merkel – Em acentuada queda de popularidade, só conseguiu eleger o novo Presidente da Alemanha – Christian Wulff –, depois de oito horas e três escrutínios pouco consensuais.

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