POSSE de CAVACO SILVA: "navegando" entre o crucial e o marginal…

Várias forças partidárias expressaram públicos votos no sentido de que o segundo mandato presidencial de Cavaco Silva decorra sem sobressaltos, ou melhor, seja um prolongamento do anterior. Todavia, estas declarações denunciam a convicção [dessas forças políticas] de que não será assim. Nunca vivemos, no Portugal pós-Abril, um segundo mandato presidencial como uma simples replicação do primeiro. E não só porque a habitual recandidatura dos presidentes condiciona o exercício presidencial [no 1º. mandato]. Na verdade, o protagonismo presidencial perante o desempenho do Executivo, num segundo mandato, tende a acentuar-se, por uma dinâmica política própria. A reiterada confiança expressa pelo eleitorado, ao conferir o 2º. mandato, transmite ao titular do cargo a sensação do reforço e alargamento do campo de manobra político e, ao País, um sentimento de estabilidade. Temos vários exemplos disso, ditados por circunstâncias diferentes, na nossa História recente. E, no presente caso, foram sendo lançados ao País sinais que isso poderia acontecer. Passamos de uma "cooperação estratégica" [anunciada perante um Governo com maioria absoluta] ao anúncio de uma “magistratura activa” [num Governo de maioria relativa].

O discurso de posse do Presidente da República [link], não transmitiu a concreta ideia do que será essa “magistratura activa”.

De facto, Cavaco Silva, de manhã, visitou o navio-escola Sagres e, na sessão solene da AR, navegou do crucial ao conjuntural, aportando - aqui e acolá - em questões essenciais e outras marginais.

Crucial, foi a resenha sobre a evolução dos indicadores económico-sociais dos últimos 10 anos (as taxas de crescimento da economia e do rendimento nacional bruto, a deterioração do saldo da balança de rendimentos, a recessão da taxa de poupança, o desemprego e o risco de pobreza e exclusão social, etc.);

Essencial, terá sido o apelo à participação cívica (“despertar os Portugueses para a necessidade de uma sociedade civil forte, dinâmica e, sobretudo, mais autónoma perante os poderes públicos…”), o reconhecimento público de clivagens socais determinadas por desigualdades e pela pobreza, à humanização das políticas (“A pessoa humana tem de estar no centro da acção política…”), etc. ;

Balançando entre marginal e o circunstancial, foram as explanações, com claro posicionamento doutrinário (que obviamente dividem os portugueses) relativas ao investimento público, à educação, à família, etc., em que, pondo de lado a coesão nacional, confrontou concepções ideológicas da Esquerda (latu sensu) e, sem surpreender, feriu, com especial acutilância, o Governo. (Para quem seguiu em directo o discurso estas foram as passagens entusiasticamente aplaudidas pelas bancadas parlamentares do CDS/PP e PSD).

Finalmente, registo uma questão enigmática porque tratada superficialmente, talvez, levianamente. Foi patente, no discurso, um inusitado tom panfletário de estímulo à participação dos jovens na política:
“Façam ouvir a vossa voz. Este é o vosso tempo. Mostrem a todos que é possível viver num País mais justo e mais desenvolvido, com uma cultura cívica e política mais sadia, mais limpa, mais digna. Mostrem às outras gerações que não se acomodam nem se resignam.”
Estas questões como todos sabemos (incluindo os jovens para quem a mensagem foi dirigida) são mais profundas. Ultrapassam a vontade, a capacidade e a necessidade de participação na vida pública e não se dirimem pelo estímulo aos confrontos geracionais.
Muitos portugueses terão ficado na dúvida se este incitamento (oratório) se dirigia à anunciada manifestação da “Geração à Rasca”, marcada para o próximo sábado…[link]

Comentários

Há no discurso um apelo à revolta contra as permutas de terrenos, os negócios de acções mal esclarecidos e as escutas abusivas ou inventadas.

Ou não percebi bem !
De Boliqueime,também sou eu/mas não alinho com Cavaco/sou filho da Plebe,sou plebeu/sou um algarvio de pataco.
e-pá! disse…
CE:

Há este parágrafo (de circunstância)que, numa parte peca por defeito, noutra é redutor:

"...Em vários sectores da vida nacional, com destaque para o mundo das empresas, emergiram nos últimos anos sinais de uma cultura altamente nociva, assente na criação de laços pouco transparentes de dependência com os poderes públicos, fruto, em parte, das formas de influência e de domínio que o crescimento desmesurado do peso do Estado propicia..." (discurso do PR hoje na AR).

É, no supracitado texto, retirar o sublinhado "com destaque para mundo das empresas" A actividade nociva não se circunscreve às empresas atinge, também, aqueles que beneficiam de negócios de favor e de compadrio político que, mais tarde, todos os contribuintes vão suportar.

E quando se refere aos "laços pouco transparentes de dependência com os poderes públicos" é extender as dependências ao poder financeiro (e ao "mercado" bolsista).

O "discurso de posse" do "novo" PR é um longo´e faccioso ajuste de contas com o poder executivo, fruto de um momento triunfalista que vive o Centro-Direita, a sua base de apoio político e a sua "família" para os negócios. Não foi tão desastroso como o "discurso de vitória" mas como escrevi no post, "navegou"...
Posso acrescentar: ...por águas turvas!
E-Pá:

O meu post pecou pela generosidade mas a CRP só me obriga a respeitá-lo. Não me impõe que o leve a sério ou que o aceite como líder.
e-pá! disse…
CE:

De acordo!
Todavia, o PR é uma instituição do Estado democrático ocupada por um titular eleito.
Podemos discordar do modo como é exercido o cargo, criticar o perfil político do seu titular, o seu tipo de intervenção na vida pública, o seu comportamento ético (ética republicana, entenda-se), etc,. Logo, não o reconhecer como líder.
Mas a Instituição, em si mesma, não pode deixar de ser levada a sério, qualquer que seja o seu efémero titular...
Manel disse…
Dentro de 5 anos passrá à história.

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