Das guerras, dos guerreiros & das analogias…

Passos Coelho compara situação portuguesa a uma "guerra"… link

Pedro Passos Coelho classificou esta guerra como «intensa que às vezes nos parece (porque é) tão injusta, como a Guerra do Ultramar, que produziu este resultado». link.
Mais adiante, acrescentou: “É uma guerra diferente em que precisamos de encontrar em cada cidadão um soldado que esteja disposto a lutar pelo futuro do país”… link

O primeiro-ministro fala à toa, sem ‘tino’ e adopta 'atitudes quixotescas'. Socorre-se de tudo o que lhe ocorre no momento e acaba por fazer afirmações, tecer comparações e, finalmente, 'fabricar desígnios', absolutamente estapafúrdios.

É claro que a situação porque passa o País – e já agora no sul da Europa – pode ser encarada como uma ‘guerra’ mas ao enveredar por esse caminho devem ser explicitadas as notórias diferenças e efectuados os desejáveis distanciamentos. Não fazê-lo é alimentar confusões, criar dúvidas, gerar equívocos .

Enquanto a guerra colonial (do ‘ultramar’ como sintomaticamente referiu) entrou para a História como uma justa luta desenvolvida pelos povos africanos em prol sua independência, num contexto pós II Guerra Mundial, o conflito que Portugal, presentemente, enfrenta será, no essencial, resultado de jogos de poder em que os invisíveis beligerantes – ‘os mercados’ – concertam posições e usam como arma a especulação financeira para submeter, aos seus ‘ocultos’ poderes, povos atirados por desequilíbrios de desenvolvimento e sucessivos erros políticos, para uma situação vulnerável ficando, deste modo, à mercê de todo o tipo de predadores.

O campo de batalha, o atoleiro, no presente desafio (será mais apropriado do que chamar-lhe ‘guerra’), joga-se através outras ‘armas’ (imposições) como sejam, ferozes constrangimentos financeiros, ‘ajustamentos recessivos’ das economias e, finalmente, graves perturbações da organização e coesão do tecido social (no campo laboral, do emprego, das prestações, da educação, da saúde e da segurança social).

Tudo tão diferente para ser comparável. Se existe uma marca indelével da guerra colonial é a luta pelo fim de seculares tutelas impostas aos povos (africanos) por países (por vezes ‘Impérios’) sediados no Ocidente, i. e., no ‘mundo desenvolvido’.
Hoje, o Governo português, não está empenhado em lutar por qualquer autonomia ou independência (política, financeira ou económica) e os tempos são de grave – intolerável – subjugação a ‘soluções’ ditadas de fora sem qualquer adequação à nossa identidade nacional e apresentadas aos portugueses como ‘sem alternativas’. Ou melhor, a ‘alternativa’ permanentemente agitada é o descontentamento dos ‘credores’ perante qualquer ‘desvio’ e uma consequência punitiva ‘imediata e inexorável’: a ameaça de bancarrota. Se existisse alguma coisa a destacar no campo dos ‘paralelismos’ históricos, ou mesmo circunstanciais, seria o facto de o Governo estar empenhado em colocar o País no papel de ‘novo colonizado’ (todos sabemos por quem).

Provavelmente, o pretendido pelo primeiro-ministro seria socorrer-se da ideia de ‘mobilização’. Seria a versão pós-moderna de: ‘... para Angola rapidamente e em força’. A intenção de lançar os portugueses numa nova e trágica 'epopeia', com outros ‘ventos’, noutro contexto que, não sendo formalmente bélico, não deixa de ter laivos de inaudita violência económica e social, é – na boca de Passos Coelho – peregrina, para não dizer insultuosa. O primeiro-ministro mostrou, ao lançar-se em fúteis 'comparações', desconhecer as dramáticas condições - e os traumas - que rodearam a ‘mobilização’ de centenas de milhares de ‘mancebos’ (essa  a designação militar) para as ex-colónias.

Com o fim de apelar a uma pretendida ‘mobilização’, precisaria de mudar de táctica (as guerras têm sempre um forte conteúdo táctico) e fazer-nos sentir fortemente ameaçados do ‘exterior’. Ora, o Governo tem uma postura oposta. Aceita, complacente, tudo o que é imposto de fora e colabora com o ‘inimigo’. Somos, nos tempos que correm, uma espécie de ‘neo-república de Vichy’.

Mais uma vez outro colossal dislate. Durante a guerra colonial a ‘mobilização’ foi, como sabemos, compulsiva, ‘por imposição’ (de um regime ditatorial) e, apesar dos lancinantes apelos ao ‘patriotismo’, deu os desastrosos resultados previstos e que o distanciamento histórico nos deveria permitir aquilatar com responsabilidade, serenidade e lucidez. Sem fanfarronices 'guerreiras'.

Os portugueses sabem que a guerra colonial foi uma saga inútil, imposta e, à partida, perdida, isto é, contra os ventos da História. Foi o estertor de uma caduca visão colonialista do Mundo que o terminus da II Guerra Mundial definitivamente encerrou, nos idos anos 40.
A guerra colonial sacrificou, no altar de pretensos ‘valores da civilização ocidental’, o que de melhor tínhamos – uma fatia importante e promissora dos nossos jovens. Só uma dezena de anos depois desta impetuosa, forçada e trágica ‘aventura’ voltámos, com custos fabulosos em vidas, estropiados e perspectivas de futuro, a acertar o passo com a História, a regressar ao convívio das Nações e a conciliar-nos com a Europa.

Existem feridas – em lento processo cicatricial - que não devem ser escarificadas com ligeireza. O primeiro-ministro não tem essa noção. Tudo serve para justificar a saga (ideológica) que faz mover este Governo. A comparação entre o ‘resgate financeiro’ do País e a ‘guerra colonial’ tem incontornáveis pontos de contacto (na asneirada) com aquela ‘boutade’ que ousou classificar o recente êxodo massivo de portugueses para o estrangeiro deveria ser encarado como uma ‘oportunidade’ gerada pela crise…

Enfim, a retórica bacoca e balofa não tem fim, nem limites. De definitivo e provavelmente de comparável será a crescente constatação que a insistência neste modelo de ‘guerra de ajustamento’, com os já conhecidos resultados desastrosos que têm fustigado o País, conduzirá, de facto, a um outro tipo depeleja’: à mudança de políticas e à renegociação do acordo de ‘resgate’. Essa a verdadeira ‘batalha’ que mobilizará o País, nos tempos próximos.

Mas sobre esse assunto, Passos Coelho, prefere passar ao lado, manifestando uma olímpica insensibilidade acerca do sofrimento e do ‘pulsar’ do povo português.

Comentários

Mesmo aceitando a metáfora da guerra, o problema é que Passos Coelho e o seu governo posicionam-se nela no lado errado: no lado dos "mercados" e contra os portugueses.
AHP:

Para o estarola PPC é a «guerra do ultramar». Ele vivia numa colónia ultramarina.

Mensagens populares deste blogue

Cavaco Silva – O bilioso de Boliqueime

Tunísia – Caminho da democracia ou cemitério da laicidade ?