RTP – privatização (ou o esplendor) na (da) 'relva'…


Nos últimos tempos Portugal tem sido brindado por um chorrilho de declarações e escritos provenientes de Luanda que tem uma interessante propriedade: são, no mínimo, intrigantes e, no geral, insultuosos.

As relações luso-angolanas, depois da independência da antiga colónia portuguesa, passaram por  momentos díspares e diversos volte-faces dependentes, em Portugal, do partido de Governo e por outro lado, da parte de Angola, foram durante muito subsidiárias da evolução de uma guerra civil prolongada. A estabilização dessas relações só apareceu, após 2002, com o cessar-fogo que ‘aconteceu’ após a morte lider da UNITA.

Depois, é o que temos vindo a assistir. Angola sai do pesadelo da guerra e segue o seu caminho à sombra das vastas riquezas que possui e, nomeadamente, da exploração petrolífera, que se torna o grande financiador e sustentáculo do Estado. Sobre o uso destes dinheiros sempre pairaram sombras de corrupção e de favoritismo no seio do partido no poder em Luanda (MPLA) que foram sendo parcimoniosamente referidas na imprensa nacional e no estrangeiro (França, p. xº.) .
Recentemente, Portugal aparece envolvido num outro problema: uma investigação judicial dirigida a altos responsáveis do regime  angolano facto que tem alimentado alguma polémica em órgãos de comunicação social e nas redes sociais.

Estando este problema numa ‘fase de repouso’ (investigação), surge hoje um press release da empresa angolana Newshold que, na azáfama de ‘abrir’ caminho para entrar no processo de privatização da RTP, 'adianta' algumas considerações sublinhando possuir “disponibilidade” e “meios” para concorrer (seja qual for o modelo que este Governo venha a adoptar).
Entretanto, o comunicado do CA da Newshold pretendendo ‘esconjurar’ demónios ocultos só terá conseguido 'espevitá-los'. De facto, ao referenciar a sua pretensão de investir em força nos meios audiovisuais portugueses não conseguiu conter-se e 'gritou' que esta sua proposição “não será alterada por quaisquer afirmações de cariz xenófobo, nem tão pouco por processos de intenção ou teorias da conspiraçãolink . Muito directa e primária esta táctica futebolista (do tipo 'a melhor defesa é o ataque') que nem sempre resulta nos negócios. Por vezes desencadeiam-se precipitados e levianos ataques que dificilmente têm recuo.

Pelo andar da carruagem parece ser notório que ninguém terá explicado a essa empresa de capitais angolanos (e ao que parece também portugueses), sediada no Panamá, que a privatização da RTP não é mais um negócio de uma empresa angolana em Portugal. O que poderá estar a ser feito é uma absurda pressão sobre um hipotético negócio que envolve, da parte portuguesa, uma empresa pública obrigada constitucionalmente a prestar um serviço público. Ora, neste contexto, os seus protestos de independência em relação ao mundo financeiro e bancário apresentados como um aval para garantir uma linha editorial e de programação que cumpra um serviço público (ainda não cabalmente definido), são absolutamente despropositados e não conseguem ultrapassar o 'novo-riquismo' que infesta muitas empresas de off-shore...

A empresa diz-se “independente de tiques colonialistas, mas também de complexos coloniais” mas o comunicado do conselho de administração, absolutamente extemporâneo, só pode ser lido como um condicionamento da opinião pública portuguesa que, como a  Newshold devia saber, não é parte estranha, nem alheia ao processo de privatização de uma estação televisiva pública (que tanto quanto sabemos ainda não foi ‘oficialmente’ decidido). Pior, o alienamento ou a concessão da RTP é um assunto polémico e sensível (politicamente), que divide profundamente os portugueses. E meter a foice em seara alheia não é a melhor credencial para mostrar a sua 'independência'.

Sem querer dar conselhos à empresa de capitais angolanos ousaria, à laia de desabafo, lembrar: ‘silence is the most powerful scream’…

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