Elucubrações político-históricas sobre crises civilizacionais, num fim-de-semana ‘alargado’…

A previsível derrocada do mundo islâmico sob uma tenebrosa e irracional deriva fundamentalista, de que o Estado Islâmico será uma das derradeiras versões (mas não a única), não pode ser desligada de um dramático percurso que vem de longe e contaminou a 'civilização islâmica’. Trata-se de um longo caminho que vale a pena percorrer para melhor entender o impasse actual.

A ‘civilização árabe-muçulmana’ (islâmica) deixou-nos impressões grandiosas. O Domo da Rocha em Jerusalém e a mesquita de Córdova são dois exemplos desse facto e tratando-se de locais de culto mostram bem como essa civilização foi construída à volta do Alcorão. Na Idade Média o livro sagrado dos muçulmanos, bem como o cimento à volta de um idioma comum (a língua árabe), foram factores congregadores civilizacionais que geraram - de certo modo por apropriação de culturas clássicas - uma criativa e profícua introsão pelas ciências que, a par de um conceito globalizante do comércio (desde a Península Ibérica à China), o surgimento de riquíssimos e faustosos ‘impérios’ (Omníadas, Abássidas, etc.). 
As manifestações culturais e científicas deste período áureo – em contraste com as trevas medievais - são impressionantes e vão desde os algarismos à álgebra, aos cânones médicos de Avicena, à astronomia (astrolábio), à óptica que perdurou até Kepler, para falar de alguns exemplos. Neste período, a filosofia islâmica, enraizada na tradição helenística, conseguiu coabitar os dogmas religiosos. Uma infindável sucessão de passos incontornáveis quando se olha a longa caminhada da Humanidade pelas ciências, pela filosofia e pela escrita.
Se é verdade que o Alcorão, na instalada ‘confusão’ da Idade Média, permitiu esses avanços, feitos à custa de mentes brilhantes, visionárias e (no contexto medieval) progressistas, esse mesmo códice religioso, que regulamenta a vida (religiosa, civil e política) continha no seu seio uma terrível armadilha.
 
O Alcorão sendo um documento datado e ‘inspirado’ no cristianismo arcaico (das catacumbas), não reconhecendo um intérprete oficial (uma autoridade central) que ‘pontificasse’ na sua leitura, interpretação e aplicação, depois da ‘onda progressista’ caiu (a par da decadência económica e cultural) nas mãos de espíritos conservadores e retrógrados. Assim, aquilo que inicialmente funcionou como a base de expansão (na Idade Média), foi mais tarde e devido ao imobilismo reinante a causa remota de uma decadência civilizacional bastante recuada (a ‘viragem ortodoxa’ ultraconservadora terá começado no século XII), onde o pensamento criador torna-se incómodo e ‘suspeito’ e é substituído pelos determinismos divinos (inscritos no livro sagrado). 
Esta incapacidade de adaptação e de evolução (que é comum às religiões monoteístas) levou o Islão a ficar prisioneiro de uma vasta casta de clérigos reaccionários, adoradores da imutabilidade e fanáticos defensores do regresso a falsas tradições e a pretensas ortodoxias. A doutrina conservadora e a fanática leitura do Islão baseia-se em que ‘tudo está inscrito no Alcorão’, travando deste modo e irremediavelmente o caminho do progresso e da modernidade e matando a actividade criativa e o avanço das ciências e das artes.
 
Da batalha de Poitiers (séc. VIII) que marca a contenção do expansionismo islamico a Ocidente, sob o califado de Córdova, ao apogeu do Império Otomano (séc. XV a XVI) sediado em Constantinopla e centralizado no domínio do Mediterrâneo, Balcãs, Próximo e Médio Oriente, começa a ser visível o arrastado e lento declínio que coincide com os Descobrimentos (portugueses e espanhóis) e consequentes rupturas dos equilíbrios até então vigentes. 
Primeiro, o colapso da ‘rota de seda’ (variante do Sul que passava por Bagdad e Damasco) eixo comercial (e de ideias) de Oriente para Ocidente (não restrito à seda), que tendo a sua origem no império mongol, veio a ser aproveitada pela expansão islâmica a Oriente.
Depois, a subalternização marítima das ‘caravanas do ouro’, da África subsariana para o Mediterrâneo, assente na islamização magrebina (berbere).
A substituição das até aí convencionais rotas terrestres por alternativas marítimas foi devastadora para a prosperidade do mundo Islâmico e condicionou o seu futuro.
 
Esta situação agrava-se com a entrada na Idade Contemporânea (Revolução Francesa) e concretamente o golpe fatal que marca o início do desmembramento é a libertação da Grécia (século XIX) do jugo do califado otomano. Este acaba por agonizar penosamente até à sua total dissolução (abolição), no pós I Guerra Mundial (em 1922). 
Na verdade, acresce ainda uma outra transformação que desloca o eixo Oriente/Ocidente para um eurocentrismo dominante (que nos dias que correm tenta sobreviver). Trata-se da ‘Revolução Industrial’. Este ‘avanço europeu’ (do Centro e Norte da Europa) é a causa recente mais visível e ponderável do colapso do império otomano e que viria a criar, no Médio Oriente, sob os auspícios das potências europeias ‘colonizadoras’, um conjunto de países árabes (e/ou islâmicos) absolutamente artificiais acantonados num área do Globo (hoje em polvorosa), dominados por ditaduras (régias, tribais ou militares) que os imobilizaram na fase áurea dessa civilização (início da Era Moderna). 
Apesar do declínio das trocas comerciais que afectou a a economia em todo o mundo islâmico estes países mantiveram-se afastados da I Revolução Industrial (fins do século XIX até à II Grande Guerra) e na II Revolução Industrial (no pós-II Guerra) só alguns ‘ganharam’ o estatuto participativo como fornecedores ‘privilegiados’ de matérias-primas, no campo dos recursos naturais (petróleo e gaz), uma riqueza partilhada (usurpada) pelas ‘potências ocidentais’ e localmente açambarcada (desperdiçada) pelas classes dirigentes que investiram em áreas especulativas (imobiliário e financeiro) nos mercados internacionais.
 
A não redistribuição dessas riquezas e a ausências de investimento em novos modelos produtivos trazidos pela industrialização conduziu ao inexorável empobrecimento destes países criando, a par do fausto e da repressão de oligarquias poderosas, corruptas e esbanjadoras, um exército de 'descamisados' (apesar das jelabas e véus) tendo como único motor da esperança e ‘redenção’ a fé. Uma mistura explosiva.
Esta conjugação de factores de declínio revelou possuir ingredientes muito semelhantes aos verificados, há séculos, no Império Romano (assimetrias económicas ditadas por um vasto e ingovernável território que conduziram ao empobrecimento, tensões entre diferentes culturas e povos que incentivaram nacionalismos e secessões, a incapacidade de reformar-se em termos políticos) e o califado há muito que se revelava como um modelo anacrónico de governação centralizada. 
Diferente de Roma - pelo menos no período anterior à ‘conversão’ do imperador Teodósio - será a circunstância (não dispicienda) do cimento religioso estar sempre presente nas conquistas do mundo muçulmano representando o seu poderoso traço unificador e estratégico (político, religioso e militar).
 
Quase um século após a hecatombe do último califado otomano, o ‘novo califado’ (Daesh) não passa de uma vã e desesperada tentativa de regressão histórica. E acontece aqui e agora porque o Ocidente, em contínua ascensão nos séculos XVIII, XIX e XX, dá presentemente avultadas mostras de ter entrado numa situação insustentável cujo desfecho passa pela antecipação de um previsível colapso. 
Face a este problema, verifica-se o regresso do Islamismo ao ultra-conservadorismo político e ao fundamentalismo religioso onde os mullahs, incapazes de evoluir, modernizar e governar, estão remetidos para o trágico papel de serem comandantes de fanáticas hostes de fiéis empurradas para ‘guerras santas’ (jihadismo), onde a histórica civilização islâmica foi implacavelmente submersa e colonizada pela barbárie.
 
A modernidade – historicamente - construiu-se contra as religiões que sempre cultivaram o imobilismo e combateram o Iluminismo, corrente de cultural e de pensamento, que, a partir do século XVIII, fez avançar a Europa e mudar o Mundo. A Europa é um bom exemplo deste facto e o Próximo e Médio Oirente o reverso desta medalha.
A contemporaneidade – inquinada pelo domínio dos mercados - necessitaria de múltiplas e outras aberturas. O ‘novo califado’ nasce de mistura explosiva e, para além da sua vertente reactiva inelegível no presente contexto, o enveredar por cruéis manifestações anti-humanitárias e bárbaras atitudes ‘guerreiras’, mostra como se esgotaram, para povos vítimas de armadilhas que a religião foi construindo e a política regional desenvolvendo, todas as alternativas em relação ao futuro. 
Este dramático percurso histórico não poderá ser ‘apagado’, ou ‘rectificado’, com drones e caças F-18.
 
A resposta ao Estado Islâmico passa pelo reconhecimento da existência de uma crise civilizacional que foi gerada entre a mundialização da ordem política liberal, reforçada pelo fim da Guerra Fria e o fracasso do Islamismo ‘moderado’ e ‘tolerante’ que se revelou incapaz de se afirmar pela integração de modelos políticos do liberalismo ocidental. 
Como acontece na vida real a razão (e a culpa) poderá repartir-se pelos campos em confronto. Será impossível impor – nomeadamente pelas armas - uma ordem internacional liberal e, por outro lado, os islâmicos com o peso e limitações impostos pela religião que adoptaram nunca serão capazes de aceitar (integrar) soluções baseadas nos direitos e deveres individuais e de cidadania do tipo 'ocidental' (os limites da 'liberdade' estão contidos e condicionados pelas 'suras' do Alcorão). 
Terão de existir - e de serem exploradas - outras soluções. Infelizmente não possuímos instrumentos internacionais credíveis e prestigiados que moderem (promovam o diálogo) e tentem abordar o ‘choque civilizacional’ (descrito por Samuel Huntington in ‘Clash of Civilizations’, 1996) em curso.
 
O problema não se restringe à área política, ou político-militar, mas é uma questão civilizacional e como tal têm de fazer parte das necessárias e urgentes soluções outras variantes, ditas culturais. Estas passam por verdadeiras reformas (políticas, económicas, financeiras, sociais e religiosas). Uma tarefa gigantesca. Diria: revolucionária. 

Para esta profunda e eclética mudança não se vislumbram lideranças mundiais fortes e credíveis. De momento, as lideranças existentes (Club Bilderberg, G-8 e G-20) estão apostadas na ‘globalização do liberalismo’, um objectivo estratégico da ‘mundalização’, que se apresenta como nebuloso e distante (contrário?) dos anseios e problemas das pessoas e dos povos (não só islâmicos). 
Este desfasamento poderá ser o rastilho que incendeará os ‘novos tempos’ eternizando soluções que recorrem ao uso da força. 
A História revela que soluções belicistas são uma constante na ‘agonia dos impérios’. E não evitaram o seu colapso.

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