Congresso do CDS/PP: O ‘passadismo centrista’ a exigir uma 2º. volta de 2011

Este fim-de-semana o CDS/PP realizou um congresso em Elvas ao que supomos com Badajoz à vista e, em sintonia com a canção, assumiu a postura contrabandista, neste caso, em relação à legislatura que está prestes a findar.
 
De uma assentada misturou tudo e todos: "Os portugueses sabem que foi o PS que trouxe Portugal à bancarrota, ao memorando, à `troika` e à dose de austeridade que se seguiu e também à recessão… link".
 
Se fossemos um daqueles personagens dos ‘vistos gold’ ficaríamos com a impressão que neste últimos 4 anos o Governo foi dirigido pelo PS que, na voz do líder centrista, seria o responsável pela austeridade e recessão.
Sempre soubemos que esta coligação nunca conseguiria ter vontade própria. Rejubilou com a vinda da ‘troika’, assinou alegremente o memorando e adoptou o programa externo imposto por instancias internacionais a Portugal. Mais, a única autonomia que conseguiu manifestar em relação ao programa imposto, foi a sua vontade de ir para além do mesmo.

Portugal cometeu erros políticos e de avaliação (nomeadamente da solidariedade europeia) quanto à ‘vaga de financeirização’ que assaltou a Europa (e o Mundo) e colocaram o País vulnerável à chantagem dos mercados. Em 2011 os portugueses foram chamados às urnas para expressarem a sua vontade quanto à política da nova legislatura (resposta aos problemas evidenciados pela 'crise') quando era certo e sabido que estaríamos debaixo de um programa de intervenção externa. Ninguém foi ao engano, nem os eleitores, nem os partidos que se apresentaram nas urnas desconheciam ao que iam e o que poderia aí vir ... 

Nessa altura a actual maioria (de modo individual e autónomo) optou por apresentar um programa eleitoral onde tudo eram rosas e de concreto para solucionar a situação bastaria cortarem nas ‘gorduras do Estado’. Poucos dias após a tomada de posse do Governo de coligação PSD/CDS os países membros da UE, da Zona Euro, o BCE e o FMI deixaram de ser instituições europeias ou internacionais (parceiros) para assumirem o papel de implacáveis ‘credores’. 
E a intervenção externa para corrigir ineludíveis questões orçamentais que alimentaram durante anos a dívida pública transformou-se rapidamente num ‘programa de ajustamento’. Ou no ‘ajuste de contas’ com as socializações do regime nascido no 25 de Abril que, com muitas dificuldades, foram construindo um Estado Social (neste momento em 'maré de esvaziamento').
O Governo adoptou como contraponto a imposição (à revelia constitucional) de uma agenda de liberalização económica e financeira do País a efectuar de modo abrupto e brutal, numa ‘atitude’ de total submissão aos mercados e no plano ideológico (que foi sendo camuflado por pragmatismos saloios), e num indisfarçável alinhamento com políticas neoliberais que reinavam - e ainda reinam - na UE (à volta do PPE) que desde os consulados de Reagan e Thatcher passaram a controlar os organismos financeiros internacionais,  dominam as bolsas, endeusam os ‘mercados’, i. e., capturaram e passaram a manipular o ‘dinheiro do Mundo’ que emprestam aos mais débeis a troco de sevícias políticas, económicas e sociais.

Tudo isso passava por algo que sempre foi escondido pela actual maioria de que o CDS/PP é parte integrante e ‘interessada’: Afinal o ‘ajustamento’ não passava de um brutal empobrecimento da generalidade dos portugueses, o afogamento da dita classe média em cortes de salários e extorsões fiscais, o confisco de reformas e pensões, a parasitária ‘engorda’ dos grandes grupos económicos, o aprofundar de uma recessão que fez disparar o desemprego, o saneamento com dinheiros públicos do sector bancário privado envolvido em gigantescas ‘bolhas especulativas’ e a imolação dos grupos empresariais públicos (estratégicos ou não) no altar do capital internacional. Uma ‘cascata’ de soluções que remeteram o PIB para um ‘crescimento negativo’ (das poucas coisas que aparece como ‘sustentável’ desde 2011) do qual não conseguimos descolar.
O empobrecimento tem destas armadilhas.

Paulo Portas sabe que são as receitas adoptadas pelo actual Governo e os seus resultados que estarão em julgamento no próximo ano. O alibi das 'não-alternativas' foi desmontado pelo tempo (de legislatura). Mas para os seus correligionários e provavelmente na ânsia de apanhar algum incauto vai anunciando que em Setembro ou Outubro de 2015 deverá realizar-se uma 2º. Volta das eleições de 2011. Nas próximas legislativas será muito difícil aos ‘sacrificados’ darem ou apoiarem segundas oportunidades. Todos os agentes políticos e as forças que integram ou lideram vão ser julgados pelo que fizeram e não fizeram segundo o entendimento popular, quer tenham estado no Governo ou nas Oposições. Os escrutínios a realizar no futuro englobam este modelo.
E Paulo Portas sabe-o bem mas prefere, em 2015, divagar sobre 2011. O ‘passadismo’ apresentado como tendo ‘novas’ vestes passa exactamente por mistificações populistas deste tipo.

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