Comentário político e incidências ‘familiares’…

Comunicado de José Maria Ricciardi sobre a última homilia dominical do comentador Marcelo Rebelo de Sousa:
“Eu compreendo que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa tenha muita mágoa em não poder continuar a passar as suas habituais e luxuosas férias de fim de ano na mansão à beira-mar no Brasil do Dr. Ricardo Salgado, mas essa mágoa não o autoriza a dizer mentiras a meu respeito e do banco a que presido, conforme fez no seu comentário de ontem…" link.
Este é mais um pormenor (a ser escrutinado) à volta de eventuais promiscuidades entre o comentário político e relevantes factos (de vária ordem) que vão surgindo à luz do dia neste conturbado período de resolução de problemas políticos, económicos, financeiros e sociais.

O cautelar (para o próprio) e ético (para os ouvintes) sistema de ‘declaração de interesses’ não faz caminho em Portugal. No comentário político a ‘organicidade das prestações’ sobrepõe-se a tudo e veste o manto diáfano da seriedade técnica, científica e política (este um denominador comum dos prestadores).
E não é um problema exclusivo de Marcelo já que, com nuances discursivas ou gradientes de exposição, poderá ser encontrado em outros assíduos ‘parceiros do comentário’ nomeadamente na área televisiva: Manuela Ferreira Leite,  Marques Mendes, Bagão Félix, Morais Sarmento, Francisco Louçã e José Sócrates (para falar dos mais mediáticos).
A representatividade deste ‘arco do comentário’ mostra ab initio sinais de iniquidade já que alguns sectores do espectro político nacional são mantidos à margem ou têm actuações esporádicas (como é o caso dos comunistas).
Mas existe uma outra vertente como são os casos de ‘tertúlias de comentadores residentes e associadas’ (Quadratura do Circulo, Eixo do Mal,  Bloco Central, etc.).

Os clãs sociais, académicos, lobistas, […os ‘comentadores instalados’] deveriam ser mais parcimoniosos e mais cautelosos.
Ao ouvinte, ou ao telespectador, espanta como nunca são invocados conflito de interesses para abster-se de palpites e pronunciamentos. Marcelo, por exemplo, dado o entrosamento pessoal e social com a família Espírito Santo, deveria revelar algum pudor no tratamento do monumental escândalo financeiro que está a ser objecto de um inquérito parlamentar. Ninguém o obriga a pronunciar-se sobre tudo e todos.  O comentário político não pode funcionar ao estilo de ‘testemunha abonatória’  ou ser ‘plataforma de lançamento’ para projectados novos voos.

Como conciliar, então, a necessidade de comentar notícias com objectividade, didactismo e a necessária independência?
Difícil sem dúvida. 
Em primeiro lugar, deveriam ser chamados à colação os diferentes partidos políticos através da suas estruturas de comunicação para darem uma ‘imagem institucional’. Seria uma boa maneira de evitar que os mesmos sejam conotados como máquinas exclusivamente direccionadas para a conquista de poder(es). O comentário poderá funcionar - quando utilizado correctamente - como um bom instrumento de 'pedagogia política'.
Mas a intervenção partidária não pode, nem deve, hegemonizar o comentário transformando-o numa produção institucional. A clarificação – que deverá ultrapassar circunscritos academismos sem os excluir - poderá (terá de) passar pela sociedade civil, i. e., por centros de estudo, fóruns de discussão,  grupos de ‘brainstorming’, 'think tanks', tertúlias, etc.
Esta é, todavia, uma questão de política editorial que depende dos conselhos de redacção dos diferentes meios de comunicação social. Assim exista espaço para os mesmos decidirem de modo livre e independente, subordinados a uma política de informação aberta e transparente baseada em critérios jornalísticos e à margem de servidões político-partidárias e pressões económicas (como scores, audiências e tiragens).

O que parece inquestionável é a necessidade do comentário político deixar de ser circular, redondo ou vicioso.
Esta função não deverá ser sistematicamente (ou sistemicamente) entregue a políticos ou ex-políticos e muito menos àqueles que estrategicamente se encontram em período de defeso, nojo ou emboscados a aguardar oportunidade para uma ‘próxima jogada’.

Ninguém se admiraria que, seguindo a lógica do 'sistema', dentro em breve, Durão Barroso renasça como um futuro (próximo) comentador ‘orgânico’. Reúne todas as condições para ser ‘convidado’ a representar esse papel.  Este foi o susto que a 'bordoada' de Ricciardi a Marcelo Rebelo de Sousa veio suscitar.
Afinal, Barroso, também frequentava a casa do Estoril onde, no meio de repastos, se promoviam candidaturas presidenciais link
Com este trajecto fechado e circular, tipo pescadinha de rabo na boca, o comentário político nunca deixará de ser redondo. Afinal, é também para esses lados que fica a ‘Boca do Inferno’. 
Trata-se de mais uma questão de família... a aguardar outras 'insolvências'.

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