Política internacional e as Caraíbas dos tornados...


O restabelecimento de relações diplomáticas (e não o fim formal do bloqueio) entre os EUA e Cuba é, aparentemente, uma medida de distensão política regional (nas Caraíbas), no continente americano  e, obviamente, com abundantes reflexos internacionais que surpreenderam o Mundo link.
Mais de meio século (52 anos na prática) de afastamento entre os dois países, uma situação eivada de medidas punitivas e de respostas dúbias caiu estrondosamente sob os escombros de variadas evidências liminarmente foram reconhecidas como sendo um falhanço.

Existirão várias causas para a escolha deste momento. Uma delas será a próxima Cimeira das Américas a realizar em Abril de 2015, no Panamá, em que o governo anfitrião decidiu convidar Cuba. Este convite colocava a administração em Washington com dificuldades. Os EUA não podem ‘desistir’ do continente americano por fortes razões históricas e estratégicas muito menos num momento em que a supremacia económica ianque está ameaçada noutras partes do globo.  Era necessário desbloquear algo para que desaparecessem entraves artificiais alimentados por uma brutal inércia. E a arrancada começou pelo 'quintal'.
Claro que o processo já vem de longe e, por exemplo, à sombra de muita discrição e alguma hipocrisia têm-se desenvolvido trocas comerciais entre os dois países, desde o fim da guerra fria, por exemplo, no domínio dos produtos agrícolas, que Cuba necessita de importar. 

Agora que os Republicanos desejam colocar todos os entraves possíveis a esta ‘abertura’ seria oportuno recordar que previamente, no campo dos negócios, no século XXI, a administração de G.W. Bush que apareceu publicamente a endurecer o embargo político  tornou-se um activo praticante do laxismo (travestido de ‘humanitário’), no campo das trocas comerciais, sempre que estas significassem ‘exportações’ americanas.

A par de necessidades imediatas e evidências económicas existiu algum trabalho político e esforços diplomáticos. O passo mais visível (mas não o único) foi o funeral de Nelson Mandela. A partir dai e apesar de todos os desmentidos oficiais passou a pairar algo no ar. O incompreensível é o reconhecimento - por parte de Obama na comunicação ao País - de que o bloqueio a Cuba foi um fracasso link quando, no presente, está empenhadíssimo em arquitectar medidas idênticas em relação à Rússia.

Os EUA, aparentemente, optaram por uma outra estratégia. Abandonaram as acções políticas visando o prioritariamente derrube do governo de Havana. Apostam em alterações emergentes no modelo económico cubano, aguardando que estas induzam mudanças políticas. O embargo (‘bloqueo’ para os cubanos) que efectivamente se iniciou em 1962 na sequência da ‘crise dos mísseis’ (J. F. Kennedy) só foi oficialmente consagrado em 1996 (Bill Clinton) na célebre ‘Lei de Helms-Burton’ que carrega o nome dos dois senadores relatores. Ambos republicanos, Jesse Helms faleceu em 2008 e Dan Burton terminou funções em 2013 dedicando-se actualmente a actividades lúdico-sociais no Tea Party.

Para Barak Obama – apesar do domínio republicano no Congresso – a difícil situação política internacional criou espaço para actuar administrativamente na questão de Cuba.
Para Raul de Castro as dificuldades económicas de Cuba necessitam urgentemente de ser superadas em nome da sustentabilidade do regime.
Um encontro de vontades com um desfecho em suspenso do qual dificilmente os dois países conseguirão sair vitoriosos. A médio prazo entenderemos melhor o que esta semana foi anunciado. Mas, sem sombra de dúvida, ambos os dirigentes deram um passo em frente. 

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