2015 e a Batalha de Kobani: os curdos, os fundamentalistas islâmicos e os ‘instintos’ ocidentais…

(Imagem da Batalha de Kobani)

Hoje, com o Mundo em trânsito para um Ano Novo, longe dos lares onde festejamos para desejar um melhor provir, uma comunidade curda, na área de transição entre o Médio Oriente e a Europa, tem outra ‘ocupação’. Luta pela defesa sua cidade – Kobani, no Curdistão sírio.
Num mundo conturbado por conflitos regionais e locais e inundado por 'tacticismos' que pretendem escamotear hipocrisias e interesses, os curdos estão a lutar heroicamente contra o Estado Islâmico (porque este é o inimigo do momento).
Ou melhor, mais do que heróis voltam a ser mártires.

A resistência nessa pequena cidade curda (encravada na Síria) desempenha um importante capítulo da sobrevivência dos curdos enquanto povo perseguido e ostracizado pela comunidade internacional.
 
No meio deste infortúnio os curdos são a ‘carne para canhão’ para um Ocidente que decidiu colaborar sem ‘assentar as botas no terreno’. E são também, numa visão de proximidade, o braço escondido de uma Turquia, cheia de contradições internas, onde o secularismo fenece diariamente sob a senda de uma islamização galopante, o tampão da expansão para Ocidente do Estado Islâmico. 

Na Turquia, onde reside actualmente a maior comunidade curda, depois de incessantes diásporas e, fundamentalmente, de sanguinárias e exterminadoras perseguições que há poucos anos sofreram no Iraque (ainda) de Saddam Hussein, joga-se vários destinos em simultâneo. A criação de um Estado Curdo decorrente da contenção de um novo califado que os subjugaria como fez o otomano durante séculos. São, no presente, o maior grupo étnico mundiam que não usufrui de um Estado. 

O ‘Curdistão’ (existirão hoje vários ‘Curdistões’), existiu com alguma autonomia até ao século XVII e sempre teve uma vida atribulada.
Integrados politicamente, mas não subjugados culturalmente, pelo Império Otomano, viriam a ser vítimas das partilhas decididas pelos vencedores decorrentes da I e II Guerras Mundiais. A ‘República de Ararate’ (1927-28), brutalmente esmagada pela Turquia, terá sido a primeira manifestação independentista surgida na sequência do fim do Império Otomano, i. e., da I Guerra Mundial. Em 1946, no Irão, e já na sequência do segundo conflito mundial, a efémera ‘República de Mahabad’, traduz o início da chamada ‘Guerra Fria’, de que terá sido uma das suas primeiras vítimas. 

Em kobani pequena cidade localizada na fronteira entre a Síria e a Turquia está a verificar-se um fenómeno que não deixará de ter consequências futuras, nomeadamente, em relação às aspirações do povo curdo à sua independência. O derrubar de velhas quesílias internas entre curdos, agora unidos contra a ameaça do Estado islâmico, bem como facto de serem no Médio Oriente – apesar de muçulmanos sunitas - a única oposição operacional e fiável a lutar contra o Daesh, terá necessariamente, e no futuro próximo, um preço. E como os curdos põem acima da sua religião a necessidade de uma Pátria é fácil de adivinhar qual será esse ‘preço’.
Por outro lado, grande parte das riquezas petrolíferas do Iraque estão sediadas em territórios da área ‘residente’ curda e esse será o grande apetite do Estado Islâmico, para financiamento da sua mortifera ‘cruzada’ pelo Levante. O desígnio de ser um Estado independente faz com os curdos se oponham terminantemente ao confisco das suas riquezas. Será essa uma das evidentes premissas quanto à fiabilidade da sua luta de resistência. 

Kobani é, em 2014, um marco no contexto do Médio Oriente e da situação mundial. Os curdos protegem o petróleo porque é um bem que lhes pertence.
Os ‘outros’ que publicamente 'choram' o massacre de Kobani buscam o quê?
Com toda a certeza o mesmo petróleo mas com outros ‘instintos’…

O ano de 2015 revelará como é, como poderia ser ou, então, como não foi.

Comentários

O ocidente decidiu colaborar sem pôr as botas no terreno...Sorte a deles,os curdos! Veja-se o que aconteceu em todos os lados o dito ocidente interveio. Um povo determinado,bem e justamente dirigido, vence qualquer força que apareça no seu território nacional.Os exemplos estão aí,por muito que os vendedores de armas (olha o submarino!) digam o contrário.

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