Israel, Palestina, Anti-Semitismo e Anti-Sionismo

A pedido do Carlos Esperança, publico agora como post um comentário que tinha feito a um post anterior do André Pereira.

O status quo actual aconselha algum pessimismo. Os EUA apoiam e apoiarão incondicionalmente Israel, enquanto a Europa, por muito unida que alguma vez venha a ser, nunca tomará posição contra Israel, devido ao seu indelével complexo de culpa por causa do Holocausto. A "Shoah" decorreu na Europa, pelo braço da Alemanha Nazi, mas com o auxílio, muitas vezes espontâneo, das populações dos países ocupados e aliados (salvo algumas excepções como a Dinamarca, em que a população auxiliou espontaneamente em massa a fuga dos judeus para a Suécia, e a Finlândia e a Bulgária, que sendo aliados do Reich, protegeram as suas populações judaicas), facto que elimina qualquer peso político que a UE alguma vez possa vir a ter nesta questão. Para mais, Israel tem um trunfo muito poderoso na manga: a bomba atómica.

Quanto à velha questão do anti-sionismo e anti-semitismo: anti-semitismo é normalmente empregue, frequentemente de forma errada, para definir condutas xenófobas contra judeus. O conceito "semita" surge em finais do século XVIII, introduzido pelo linguista alemão Schlözer para caracterizar o grupo de línguas que abrange, entre outras, o árabe, o hebraico, o etíope, o aramaico (e o maltês, que é língua oficial na UE). Em meados do século XIX, o conceito é empregue por De Gobineau, para fins de propaganda xenófoba, que posteriormente se tornou lugar-comum nas várias filosofias racistas e fascistas desde então.
Ora, sendo os árabes semitas, não poderão nunca, logicamente, ter condutas anti-semitas contra os judeus. Este é um erro comum muitas vezes cometido por políticos e jornalistas.

O uso do termo anti-sionista é mais complexo. Em que consiste concretamente o sionismo? Na alegada conspiração sionista que frequentemente serviu de pretexto para pogroms e massacres e que ainda convence muitas pessoas por este mundo fora? Ou outrossim num mecanismo organizado de solidariedade entre judeus no sentido de preservação da sua etnia e construção de um Estado judaico?
Ora, na realidade, há várias correntes no sionismo, umas mais inclusivas, outras mais elitistas (Israel para os israelitas vs. Israel para os judeus). Algumas pacifistas, outras belicistas. Umas laicas, outras ultra-religiosas.
Todas estas matizes encontram ressonância na política israelita: entre o sionismo pacifista, esquerdista, laico e inclusivo do partido "Meretz" e o sionismo fundamentalista religioso e belicista do "Yisrael Beiteniou" e do "National Religious Party".

Parece-me que, o sionismo não é intrinsecamente mau. Tem aspectos positivos: permitiu a um povo perseguido e quase exterminado organizar-se e constituir-se num Estado viável. Foi e é um instrumento ideológico essencial para a construção do Estado de Israel, uma das suas traves-mestras. No entanto, algumas tendências do sionismo são perigosas e merecedoras de crítica: o já referido sionismo expansionista, religioso e belicista. Concordo com o André quando diz que o "anti-sionismo é em si um mal": o que é preciso combater não é o sionismo, mas sim o belicismo, o expansionismo e o fundamentalismo religioso- e condenar esses fenómenos- sem recorrer a etiquetas panfletárias e lugares comuns tais como "anti-semitismo" e "anti-sionismo".

Comentários

Anónimo disse…
Os sérvios merecem a mesma atenção dos judeus por causa da 2GM... afinal eles também sofreram 1 "shoah".
os ciganos e homossexuais também.
e-pá! disse…
Ainda, sobre esta polémica, sugeria aos leitores do PE o visionamento de um interessante artigo no blog "Um Homem das Cidades" , sob o título:
"Sionismo e Anti-Semitismo: uma estranha aliança através da história" link

Da autoria de Allan C. Brownfeld, colunista e editor associado do Lincoln Review, um jornal publicado pelo Lincoln Institute for Research and Education, e editor do Issues, um jornal trimestral do American Council for Judaism, com tradução livre de "Diogo", o "postador" do referido trabalho, refere, entre outras coisas, a convicção de muitos comentadores, que julgam:
"o sionismo tem uma relação estreita com o nazismo."...
Caríssimos,

Embora não venha a propósito deste post, aqui fica uma informação que pode interessar a alguns de vós:

Às 17h25m de hoje, o Sorumbático faz 4 anos, o que será comemorado com a oferta de mais de uma dúzia de livros, de entre os quais saliento:

«O Cheiro da Madeira» (Galopim de Carvalho), «Bica Escaldada» (Alice Vieira), «Livro de Assentos» (Joaquim Letria), «Cantos Falados» (Pedro Barroso), «Morte na Picada» (Antunes Ferreira), «Assim Acontece... na Rádio» (Carlos Pinto Coelho), «Cão Velho Entre Flores» (Baptista-Bastos), «A Matemática das Coisas» (Nuno Crato) e «O Natal do Sinaleiro» (J. L. Saldanha Sanches) - ver [aqui]
Anónimo disse…
http://www.ig.com.br/paginas/igler/especiais/finkel/entrevista.html

http://www.vho.org/aaargh/port/norman.html
Rui Cascao:

O anti-semitismo é, como a palavra indica, o ódio aos Semitas mas até o dicionário já consagrou a utilização como especialmente dirigida aos judeus.

Continuo a pensar que o Islão e o Cristianismo são igualmente anti-semitas, i.e., odeiam os judeus - uma atitude racista que o Corão e o N.T. estimulam.

No entanto a erudita explicação do Rui Cascao será uma referência a ter em conta na utilização dos vocábulos semita, sionista e nas palavras compostas e/ou derivadas.

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