A ‘arenga’ presidencial...

…”É indiscutível que se instalou na sociedade portuguesa uma «fadiga de austeridade», associada à incerteza sobre se os sacrifícios feitos são suficientes e, mais do que isso, se estão a valer a pena. Estas são interrogações legítimas, que todos têm o direito de colocar. Mas, do mesmo modo que não se pode negar o facto de os Portugueses estarem cansados de austeridade, não se deve explorar politicamente a ansiedade e a inquietação dos nossos concidadãos.”… Do discurso proferido pelo Presidente da República na sessão oficial comemorativa do 39º. Aniversário do 25 de Abril. link.

Este emaranhado tecido à volta de uma constatação (premissa) - «a fadiga de austeridade», seguida da abertura interrogativa sobre a sua pertinência - «todos têm o direito de colocar» - para aprioristicamente concluir sobre o dever de ignorar ou preverter outras respostas - «não se deve explorar politicamente a ansiedade e a inquietação dos nossos concidadãos» - mostra a confusão que vai naquela cabeça.

Primeiro, o conceito de «fadiga de austeridade» é imediatamente atropelado com incertezas, entre elas, sobre a sua suficiência e oportunidade.

O homem que há 2 anos questionava sobre os limites dos sacrifícios, agora, coloca – nas interrogações que faz – dúvidas sobre a sua dimensão («incerteza sobre se os sacrifícios feitos são suficientes») e pertinência («se estão a valer a pena»).

Segundo, a «fadiga de austeridade» é apresentada como um acidente. Não é questionada sobre a sua fundamentação política e económica, nem sobre os resultados que tem associados. Surge como uma fatalidade, por ventura, como uma inevitabilidade.

Não vale a pena chorar lágrimas de crocodilo sobre a ‘tragédia do desemprego’ quando se tenta desligá-la da austeridade cega e excessiva. De facto, os portugueses estão fartos da austeridade não por simples cansaço, egoísmo ou incompreensão mas porque os resultados estão à vista: a ‘espiral recessiva’, os níveis de desemprego insuportáveis e os vastos indícios de fracturas sociais.

Terceiro, ao classificar a oposição às medidas de austeridade (claramente excessivas) como um acto visando «explorar politicamente a ansiedade e a inquietação dos nossos concidadãos» exibe um tremendo ‘défice democrático’ e um conceito muito estreito e enviesado da política. Entra aqui um perverso conceito que tem sido vendido no mesmo pacote da austeridade: «não há alternativas!». E assim sendo não há Democracia.

Pior, aqueles que se atreverem a apresentar propostas diferentes são liminarmente acusados de estar a explorar politicamente sentimentos populares que, existindo, deverão – no entendimento do Presidente da República - ser ‘domesticados’ para perdurarem. A “austeridade” deixa, deste modo, de ser um instrumento económico e financeiro para corrigir situações desequilibradas de défice público e da dívida soberana e transforma-se num ‘martírio político’, com inconfessáveis ‘fins regeneradores’ sobre os estilos de vida e definitivamente ‘punitivos’ sobre o moderno conceito social de ‘bem-estar’.

Foi com este tipo de arenga que, ontem, o PR pretendeu construir uma visão ‘objectiva e serena’ sobre os últimos 2 anos. Mais valia permanecer em silêncio. De facto, à iniludível crise governativa não era necessário acrescentar a crise presidencial. Já temos problemas que chegam.

Na realidade, Cavaco Silva enredou-se em silogismos. E incorreu no erro fatal de deixar que os termos intermédios influenciassem as conclusões. Nem tudo se confina aos ditames e dislates económicos. Vale a pena recordar uma frase célebre: há vida para além do défice...

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