Os diferentes ‘timings’ europeus, o discurso do Presidente, a crise governamental e os champôs …

O PR abandona a AR na última sessão comemorativa do 25 de Abril sob o olhar do Governo que se mostra atento, venerador e obrigado...

 
Bruxelas dá mais dois anos a Espanha para reduzir o défice… link

Não é compreensível, nem transparente, a estratégia do Eurogrupo face à crise que se vive na zona Euro. Perante as situações difíceis ou complexas que se vivem em alguns países que adoptaram a moeda única existem, de facto, diversos posicionamentos interpretativos e analíticos que acabam por ‘ditar’ respostas diferentes e diferenciadas. Ao que se supõe em conformidade com ‘análises técnicas’ divergentes ou díspares sobre a dimensão e a profundidade da crise orçamental e financeira em cada um dos Países.

Vale a pena analisar 3 países que integram o Eurogrupo e que ‘padecem’ de uma fatalidade geográfica e cultural e incorporam o fustigado ‘sub-grupo’ do Sul.

Deste logo, temos a França que já não consegue iludir as suas dificuldades em crescer e competir na Economia europeia e Mundial e que por uma questão de nojo prefere falar de ‘rigor’, em vez de austeridade, mas que terá de tomar drásticas medidas de contenção orçamental, ao arrepio de uma ‘onda’ recessiva que varre a Europa, para atingir a consolidação do défice público já em 2014 (valores ao redor dos 3% do PIB).

Pelo meio, Portugal que associa políticas duras de austeridade emergentes um programa de assistência financeira, cego que cedo se tornou absurdo e que colocou o País para à beira do colapso económico, fez disparar o desemprego para níveis históricos, trouxe um 'sustentado' crescimento da dívida, deverá impreterivelmente - e contra todas as evidências - atingir a 'mítica' meta dos 3% em 2015.

 Finalmente, Espanha, que continua confrontada com uma grave situação financeira (do sector bancário), uma recessão económica desastrosa e prolongada, acrescida de um desemprego que ultrapassou os limites do tolerável, uma crispação social incontrolável, levará o Eurogrupo a diferir a data limite para o controlo do défice público para 2016.

Aparentemente, esta flexibilidade parece corresponder a situações específicas e particulares de cada País. Na realidade ela é subsidiária da qualidade, rigor e convicções políticas dos chamados ‘grupos técnicos’ de acompanhamento e análise dos programas (sejam estae públicos ou dissimulados), do peso económico relativo de cada País, da capacidade reivindicativa em relação a políticas de crescimento económico e finalmente das circunstâncias políticas internas. Isto é, da capacidade em resistir a programas cegos e mal desenhados e ainda do peso político para influenciar as tomadas de posição comuns (consensuais?) no interior das várias instituições da UE.

E se no caso de Portugal e Espanha poderia suspeitar-se de submissão às políticas do PPE, no caso da França existirão outras motivações à volta da necessidade de preservar funcional o eixo franco-germânico e ainda de outras e novas disputas hegemónicas no seio da ‘velha’ Europa dos Impérios.

Mas é também o espelho da profunda ineficiência avaliadora e decisória do Eurogrupo que navega à sombra da capacidade de intimidar e subjugar os mais débeis - ou os indecisos - impondo medidas de ‘ajustamento’ (leia-se de ‘empobrecimento’) e ideologicamente pretende ‘esconder-se’ por detrás dos mercados. Na realidade, a dissonância de timings mostra que existem espaços negociais. Resta saber, ou ter vontade política para, explorá-los.

Este é outro exemplo de como o comportamento de ‘bom aluno’, tão adulado por alguns sectores políticos em Portugal, tem um reverso da medalha. Os riscos que estamos a correr - ao persistir neste tipo de comportamento - vão destruir, de modo irremediável, a já tão debilitada economia nacional e, esse facto, tem de condicionar todo o programa de ‘resgate’ (e não só a sua calendarização), já que se transformou na nova emergência nacional.

Hoje, a discussão imediata gravita à volta do tempo necessário – e conveniente - para atingir alguma uniformidade e coesão no terreno obviamente muito mais vasto do que no início da crise do euro: começa da política fiscal e monetária comum para desembocar no crescimento económico. As sucessivas prorrogações para consolidar as finanças públicas mostram que é necessário muita prudência na gestão temporal dos objectivos e que é imprescindível obter sólidos consensos no interior dos Países e no seio da UE. Já não bastam soluções parcelares, avulsas ou tímidas.

Portugal, com o Governo de Passos Coelho pretende seguir o sentido inverso. O ‘maestro’ deste Governo (V. Gaspar) – no seguimento do incitamento presidencial - aparece a pressionar a adopção antecipada de novas medidas (de austeridade) indiferente às suas consequências. Na verdade, resta a sensação de que no contexto europeu somos um País em nítido contra-ciclo. Até onde (ou para aonde) nos levará esta ‘irresponsabilidade histótico-ideológica’ que tem sido acriticamente veiculada entre nós ?

A ajuizar pelas últimas notícias vindas a público link, Portugal estará à beira de convulsivas perturbações políticas que, ao invés do que o PR equacionou na AR, só serão passíveis de serem dirimidas - dentro de um quadro democrático - com o recurso a uma consulta popular. Isto é, poucas horas depois da sua lastimável intervenção perante o Parlamento, a evolução da política nacional transformou o discurso de Cavaco Silva numa mera jactância. Aliás, não seria de prever outro destino para as elucubrações deste inadaptado (ao cargo) personagem político.
Mas o mais grave é que a crise política, após este último 25 de Abril, deixou de se circunscrever ao Governo. Alastrou, como uma mancha de óleo, a outro poder democrático e constitucional: à Presidência da República.
Como naquele conhecido anúncio do champô podemos observar que o prestigioso (e não prestigiado!) Cavaco Silva fez uma penosa aparição no marteking político a ‘vender’ um novo produto com propriedades cumulativas: ‘dois em um’!

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