A Madeira, o sentido das proporções e o défice cultural

Quando se perde o sentido das proporções, se ignora a história e se renega a cultura de um povo, fica-se à mercê do regresso de Fátima, Futebol e Fado.

Portugal assistiu, nas últimas décadas, ao aparecimento de uma plêiade de jornalistas, escritores, cientistas, artistas plásticos e desportistas que honram o País e o estimulam.

Julgávamos longe o tempo em que a cultura era considerada subversiva e perigoso o gosto do conhecimento, mas a decadência da classe dirigente prefere o populismo, o arraial e a procissão, num eterno retorno aos valores salazaristas.

A bizarra ideia de dar o nome do mais dotado jogador de futebol da última geração, e o mais admirado, a um aeroporto pode ter a vantagem de retirar a santidade ao nome de uma Catarina qualquer, mas é uma ofensa à inteligência e um ultraje à pedagogia cívica.

Não sei se os estádios de futebol passarão a designar-se pelo nome de aviadores ilustres, mas os aeroportos serem crismados por jogadores de futebol é uma concessão parola ao mais primário dos gostos e à mais arrojada das imbecilidades.

Talvez custe a muitos, por motivos partidários, ouvir o nome do aviador que, sozinho, tomou o aeroporto de Lisboa, fechou o espaço aéreo e o controlou no dia 25 de Abril de 1974. Seria ministro do Trabalho, indicado pelo PCP, e devemos-lhe a determinação, coragem e competência técnica com que participou na única Revolução sem sangue, na mais gloriosa das madrugadas. Chamou-se José Inácio da Costa Martins, e podia dar o nome ao aeroporto do Funchal.

A ignorância ou antipatia partidária podem alucinar e o futebol monopolizar os afetos de quem foi líder da JSD na Madeira e é hoje o governador, por eleições livres que os militares do MFA, como Costa Martins, tornaram possível. Mas podia ter homenageado os pioneiros da aviação, Gago Coutinho, Sacadura Cabral ou Sarmento Beires. Preferiu o jogador de futebol madeirense.

Se era questão de bairrismo, tinha o madeirense Herberto Helder, talvez o maior poeta português da segunda metade do século XX.

Depois do longo período de défice democrático, com Jardim, a Madeira está ameaçada de défice cultural, com Miguel Albuquerque, o primeiro formatado no salazarismo e o segundo na JSD.

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